Entrevista com Eurico Miranda – parte II

ERA (Pedro Fernandes): Quanto ao tema da paixão, do sentimento, tinha um filósofo que pensava muito sobre ética, um filosofo chamado Kant, do século XVIII. Ele dizia que para moral quanto menos sentimento melhor. Seria ideal chegar às conclusões éticas por meio da lógica, da racionalidade. O senhor acha que isso é irreal?

Eurico: Não… Isso é mais do que verdadeiro. Quem tem sentimento não dá para se aproximar daquilo que é ideal. Por isso que a paixão te leva… Isso você resume no seguinte: Para ser presidente de um clube de futebol de massa você não pode seguir esse filósofo, que diz que quanto menos sentimento você tiver mais próximo se está da moral e da ética. Aí com certeza você não vai ter resultado. Com certeza absoluta! Aí que eu vejo a diferença da teoria para a prática. Um próprio filosofo chegou à conclusão que tem que se privar do sentimento. E o que te leva a ser presidente de um clube, pelo menos no meu caso, é a paixão. Se não fosse a paixão sinceramente eu faria outra coisa. Mas a paixão te turva… Ela muda os teus objetivos, a sua visão. Isso é uma coisa muito mais parecida como a paixão de uma cara por uma mulher. A paixão o leva a fazer determinadas coisas que ele normalmente não faria. A paixão por um clube de futebol te leva a, de repente, esquecer de você mesmo. Quando a pessoa se esquece de si mesma, e então investe naquilo que represente, ele está representando milhões de pessoas que também são apaixonadas por aquela mesma bandeira, aí se faz coisas que normalmente você não faria.

ERA (Pedro Fernandes): O senhor acha que a maioria dos presidentes de clube é como o senhor ou que muitos não têm essa paixão?

Eurico: Não, eu não tenho a pretensão de dizer que… Dizem que paixão não se mede, mas mede. Eu encontrei alguns que diziam que tinham paixão. A paixão por um clube, paixão mesmo, de tal maneira te envolve que você passa a colocar em primeiro lugar esse clube, em relação a tudo. Isso que é a paixão. Aí alguns chamariam isso de louca paixão.

ERA (Pedro Fernandes): No mundo quando todo mundo tem as suas paixões acontece delas paixões se chocarem e entrarem em conflito. Aí se alguém ceder na sua busca pode acontecer do outro tomar a frente dele, se alguém tomado pela paixão não se impões limites…

Eurico: É o conflito das paixões… Mas o conflito das paixões passa a ser uma disputa igual. Aí entram outros componentes. Vamos botar um conflito de paixões: Dois clubes, dois dirigentes, da mesma forma apaixonados. Aí entram outras coisas, outros componentes: Competência, conhecimentos, vivência… Quer dizer, eu vou botar a paixão na mesma medida. Outros componentes entram, mas também você tem que medir a paixão, dizem que não se mede, mas se mede. Se um tem mais paixão pelo seu clube que outro que tem menos, pode ser que este que tenha menos, sendo mais racional, tenha vantagem sobre o que tem mais paixão. Mas também pode ser que o que tem mais paixão supere a racionalidade daquele outro. Não é sempre que a racionalidade prevalece, muito pelo contrário. A paixão muitas vezes supera a razão. Disso eu não tenho dúvida nenhuma! Se você fosse agir em determinados momentos com a razão, em vez de agir com a paixão, você com certeza não atingiria o objetivo que você alcançou só com a paixão. Isso é algo que nesse conflito de paixões você tem que levar em consideração, pode acontecer tanto uma coisa quanto outra. Agora, eu quero colocar isso aqui como um embate, como um conflito em igualdade. Aí não adianta também ter paixão se não tiver competência, se não tiver capacidade, se não tiver vivência daquilo que está fazendo. Vamos botar aqui na situação do meu clube, do Vasco: não adianta você ser apaixonado pelo clube se você não tiver competência para gerir. Aí não adianta ser um apaixonado. Aliada à paixão tem que ter competência, capacidade, o conhecimento daquilo que você está fazendo. Dizer que paixão turva o conhecimento, ela não turva não. A paixão não turva nada disso. Quando muito ela pode turvar a racionalidade. Mas a sua capacidade, a competência, o seu conhecimento, isso não turva.

ERA (Pedro Fernandes): O esporte é um meio competitivo, essa é…

Eurico: Por natureza. Aliás, eu vou te dizer uma coisa: uma das maiores falácias que tem aí é a daquele Barão de Coubertin, que o “importante é competir”. Ninguém vai pura e simplesmente para competir. A competição é no limite. O cara vai no seu limite. Muitas vezes quando ele quer dizer que o importante é que se vai competir no extremo limite. Ele sabe que não vai conseguir, mas ele tá competindo no seu limite. Isso é igual ao corredor que fica marcando a hora para saber se ele correu menos um segundo, menos dois segundos. Mas porque que ele quer saber se ele tá fazendo lá a meia maratona em duas horas? Ele sabe da capacidade dele, vai competir e sabe que não vai ganhar, mas ele compete pra chegar e dizer assim: Eu competi e na outra eu fiz duas horas, e nessa eu fiz uma hora, cinquenta e nove minutos e trinta e cinco segundos. A competição dele passa a ser até, quando muito, uma competição até com ele mesmo, com a sua capacidade. Então essa história de que o importante é competir, não, o importante não é competir. A grande importância é competir e ganhar. Todo mundo vai com o objetivo de ganhar. Tanto que ele se aprimora para poder ganhar. Esse negócio de que o importante é competir… Vai pros jogos olímpicos. Os países inscrevem, você vai botar numa competição, na natação, uma pessoa que naquela série vai chegar três minutos atrás. Não é porque o importante é competir. É porque na verdade o melhor que você tem nesse país que ele vai representar é ele! Ele não vai porque o importante é competir, ele vai porque é o melhor encontrado naquele país, mas não com a filosofia de que o importante é competir. Não. Ele vai para mostrar que lá no seu país tem uma cara que ainda nada.

ERA (Pedro Fernandes): Ao que o senhor atribui essa filosofia? Porque ela tem uma entrada e uma aceitação muito grande?

Eurico: Isso vem desde o início. Vamos pegar as crianças… Quando a criança fala eu vou correr daqui até ali, quando tem dois, ela vai correr para ganhar. Já nasce com isso. “quero ganhar do outro, quero chegar na frente”. O pai quando corre com o filho, a satisfação do filho é chegar e ganhar, depois falar assim: ganhei! O pai retarda para deixar ganhar, para o filho dizer: ganhei! Claro, para você colocar para o mundo que o importante é competir. (…) Vamos pro futebol… Você vai para um campeonato brasileiro, e os torcedores acham que o importante é ganhar. Porque você tem no Brasil a idéia de que segundo e nada é a mesma coisa? Porque, primeiro, todos têm o objetivo de ganhar. Segundo, todos acham que tem a capacidade de ganhar. A pior coisa que pode haver para um torcedor de um clube de futebol é ouvir só: nós vamos só participar da competição. Mas isso é cultural. Você vê, por exemplo, nos campeonatos da Europa. O cara vai com um objetivo de chegar em décimo por exemplo. Se ele chegar em nono ele já fez um feito. Mas aqui você não pode competir num clube de massa e dizer que vo0ce vai apenas competir para chegar em sexto. Não! Porque os torcedores acham que seu clube tem a capacidade de ganhar. Então, pra mim isso tudo é problema de natureza cultural. De como você vê as coisas que levam a esse negócio de dizer: não, eu sei dos meus limites, e não dá pra chegar lá aonde o outro vai chegar, nem que eu me prepare, porque eu não tenho a estrutura que o outro tem, a tradição que ele tem, sem falar evidentemente da parte econômica. Porque também é a mesma coisa. Tem gente que fala que o dinheiro resolve, mas não resolve. Aí entram outros fatores. Por exemplo, você pega um time pequeno e decide fazer um investimento de clube grande, para ele chegar lá. É difícil. Pode até acontecer de ele chegar lá, mas manter não vai conseguir. Não vai ter estrutura, a tradição, o chamado peso da camisa… Isso tudo só acontece com o tempo e com a massa torcedora que te envolve.

 

ERA (Pedro Fernandes): O senhor falou da criação dos filhos, da cultura… Você acha que as paixões de modo geral estão sendo engessadas hoje em dia, em relação ao que era antes?

Eurico: Sim, em todos os sentidos. A massificação que você recebe dos chamados veículos de comunicação formadores de opinião leva a uma mudança de comportamento. Aquilo que era, por exemplo, absolutamente instintivo e intuitivo em uma mãe, hoje pode ser visto como não sendo bom devido a quantidade de informações contrárias a isso que ela recebe. Para uma mãe, o natural é ter paixão pelo que saiu de dentro dela. Faz parte dela. Mas a quantidade de informação realmente modifica, terrivelmente nisso. Tem pessoas que não, que não mudam. Mas mudar sentimentos é difícil, né?! Você sabe o sentimento que tinham em relação a você, o seu pai sabe do sentimento em relação a ele, depois o seu avô e assim por diante. Isso vem lá de trás, você sempre teve isso. Depois você também vai transferir esse sentimento. Só que, a quantidade de informação que você recebe muda o seu comportamento, muda a chamada paixão que você deveria ter, ou que tem e exerce de outra maneira. Tem uma pergunta aí que eu vi sobre formadores de opinião, tem uma pergunta sobre a Rede Globo, sobre monopólio…

ERA (Pedro Fernandes): É.

Eurico: Porque que a gente não vai contra o monopólio da Rede Globo? Porque um organismo como a rede globo não é um veículo de informação, é um veículo de formação de opinião. Até a própria noticia é distorcida no sentido de formar opinião. É notícia crítica, não é dos fatos. Se você tem a possibilidade de ter mais de um, e teve a opção de escolha, aí é outra coisa. Quando você vê em relação à Rede Globo um monopólio na área de esporte, mesmo que ela tivesse – o que não tem – a intenção de desenvolver o esporte e de desenvolver o futebol, isso com o tempo é distorcido. É distorcido porque primeiro ela tem que buscar resultado, buscar lucro. E ela não pode aliar uma coisa à outra. Por exemplo, porque que a gente tem jogo às dez horas da noite? É nesse horário porque é conveniente em função da novela, do Jornal Nacional, essas coisas. Ela quer desenvolver o esporte? Não. Ela tem interesse que o público vá ao estádio, sabendo que o público tem que trabalhar no dia seguinte? Ela não quer fortalecer o esporte, quer desenvolver o seu problema. Isso de um lado. Quando entra no lado político, ela quer conduzir todas as competições de modo a lhe serem favoráveis e adaptáveis à sua grade de programação. Hoje, por exemplo, tem um campeonato que tem futebol na televisão de terça a domingo, só não tem jogo na televisão na segunda feira… Tá bom é importantíssimo o patrocínio da televisão, etc. Mas você se submete e se sujeita às imposições que a Rede Globo, por exemplo, faz, porque ela tem um objetivo comercial. E o objetivo comercial supera os outros. E você do outro lado, do outro lado do balcão, é obrigado a conviver com ela. Aí tem que tirar o máximo de proveito para o seu clube em relação a isso.

ERA (Pedro Fernandes): O senhor acha possível que, do ponto de vista da família Marinho, assim como o senhor é apaixonado pelo Vasco, eles possam ser apaixonados pela instituição que criaram?

Eurico: Não, nenhuma chance. Isso não há nenhuma chance. Não há termo de comparação. Um clube não tem fim lucrativo. As empresas Globo têm fim lucrativo. Sem dúvida têm fim lucrativo. Porque, se não fosse, mete um programa cultural no horário nobre. Se não dá audiência eles cortam. Até uma própria novela, se não dá certo outro dia botam outra. Então, não é a qualidade do produto que estão te jogando que importa. É a audiência que tem e o resultado financeiro dessa audiência. E num clube de futebol – aí você vê como a paixão é diferente – mesmo que aquilo esteja te prejudicando, se for benéfico para o clube como um todo você vai fazer. Eles jamais fariam uma coisa para se prejudicarem em função do programa da empresa. E no clube o cara faz para se prejudicar, se for bom para o clube. Disso eu não tenho a menor dúvida

ERA (Pedro Fernandes): E nessa briga que você teve com a rede globo, você acha que se prejudicou?

Eurico: A minha situação com a Rede Globo particularmente, e com a mídia de maneira geral, foi uma situação diferente. Ela se deu pelo fato de que eu precisava fazer o meu clube voltar ao processo decisório no futebol, o Vasco estar inserido no processo decisório. Ou seja, lá na ponta, pra decidir alguma coisa, sobre algo do futebol, que tivesse a participação dos clubes ou não, a minha luta foi para que o Vasco sempre estivesse ali participando do processo decisório. Aí é evidente que você começa a contrariar alguns interesses. Se eu tenho por parte da mídia, da Rede Globo, um tratamento que não é o tratamento dado a outro, eu tenho que me insurgir contra isso. Pra dizer que eu exijo que o tratamento seja igual. De preferência melhor, mas no mínimo igual. Nunca inferior. E aí você começa a bater de frente. Isso foi com a mídia em geral. Especificamente com a Rede Globo foi com um episódio que aconteceu lá em São Januário com a queda de alambrado, e como eles mandaram imagens para o mundo distorcendo a verdade dos fatos, causando prejuízos a mim e ao meu clube, eu fui obrigado a dar uma resposta, que foi a história do SBT. Isso atingia diretamente a globo, isso de botar SBT no uniforme. Foi uma resposta a eles, um modo de agredi-los, pois não tinha outra maneira de agredi-los.

ERA (Pedro Fernandes): Obrigado pela entrevista Eurico.

 
+ leia a parte I da entrevista com Eurico Miranda

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