O caso de Dominique Strauss-Kahn e seu retorno à política

Segundo pesquisa publicada pelo jornal “Le Parisien”, 49% dos franceses são favoráveis ao retorno de Dominique Strauss-Kahn à política francesa. Em oposição aos 45% contrários ao seu retorno, DSK (abreviatura usada pela imprensa) conta ainda com o apoio de 60% dos eleitores de esquerda entrevistados. Tal estatística surpreende, visto que o político sofre uma séria acusação de agressão sexual e tentativa de estupro, revelada formalmente no dia 15 de maio deste ano.

Impedido de sair dos Estados Unidos por causa do processo movido contra ele, Dominique Strauss-Kahn renunciou ao cargo de diretor do FMI e se declarou inocente. Segundo as acusações de uma camareira do hotel Sofitel onde estava hospedado em Nova York, ele a teria surpreendido nu em seu quarto quando a moça, informada de que não haveria ninguém ali, entrou para fazer a faxina. Então, ele teria forçado a camareira a sexo oral.

Desde então, muito se especulou sobre o caso, e muitos comentaristas questionaram a tese de que a camareira fosse forçada a fazer sexo oral. O argumento é de que qualquer homem teria medo de, nessa situação, ter seu pênis gravemente ferido com uma mordida, então o ato provavelmente seria consensual. É preciso pensar também que várias mulheres naquela situação sentiriam muito medo de agredir o abusador ou até contrariá-lo.

Outra razão que fez que a camareira injustamente caísse em descrédito foram mentiras em seu depoimento. Aquela sobre o momento da denúncia foi considerada a mais determinante. Inicialmente, ela dissera que foi comunicar seus superiores logo após o ato. Depois, admitiu que antes disso terminou de limpar outro quarto. Provavelmente algumas pessoas não conseguem enxergar que houve um abuso sexual, já que ela não saiu correndo em pânico, o que pode gerar dúvidas se, nesse caso, ela provavelmente se arrependeu mais tarde e foi atrás de algum tipo de indenização. Apesar da possibilidade de um arrependimento posterior, não é correto supor algo assim apenas porque a denúncia não foi feita imediatamente como fora alegado. Mentir sobre o caso foi evidentemente um erro, que poderia ser interpretado até mesmo como inexperiência ou medo do descrédito.

Além do depoimento que ao menos é parcialmente mentiroso, foi apontado que a camareira tinha ligações com traficantes de drogas e lavagem de dinheiro. Mas porque tal fato impossibilitaria que ela fosse vítima de uma violência sexual ou desmereceria a punição de seu agressor?

É muito complicado provar se algum ato foi ou não consensual, muito mais difícil do que provar se ele ocorreu ou não – o sêmen do político francês foi encontrado no uniforme da camareira, indicando fortemente que sim, houve um ato sexual entre os dois. Tal dificuldade está presente no julgamento da maioria dos casos de violência sexual. Sendo difícil a existência de provas materiais que demonstram a ausência de consentimento, muitos traços da personalidade do suposto autor e da suposta vítima acabam sendo levados em consideração para a interpretação dos fatos. Inseridos em uma sociedade ainda machista e moralista, é preciso tomar cuidado para não deixar juízos valorativos a respeito dos envolvidos incidirem sobre a decisão.

Há ainda mais questões no caso de Dominique Strauss-Kahn, devido à sua importância política como diretor do FMI e principal opositor a Nicolas Sarkozy nas próximas eleições francesas. As hipóteses mais prováveis e lógicas da inocência de DSK estão no suposto suborno da camareira, de uma verdadeira armadilha contra ele. Neste caso, é claro que não haveria violência. Por mais que pareça estranho que alguém com a importância política de Dominique Strauss-Kahn fosse enganado em complô tão simples, é incorreto descartar a hipótese de averiguação.

Enfim, a despeito da sentença que Strauss-Kahn venha a receber, diante de uma situação atual tão polêmica e complexa, somos levados a refletir sobre o posicionamento dos eleitores franceses entrevistados. O que significam tais estatísticas?

Os entrevistados, ao dizerem “sim” ou “não”, provavelmente consideraram algumas razões para esta resposta. Tais razões talvez envolvessem uma intuição sobre a veracidade do crime, um maior ou menor apreço pelo político, uma maior ou menor preocupação sobre o que fazem seus chefes de estado em sua vida privada, uma maior ou menor empatia pelas vítimas ou causadores de agressões sexuais e, ainda, alguns podem ter levado em consideração as consequências que seu retorno à política francesa ocasionará.

Apesar de todos os fatores serem importantes, acredito que o apreço pelo político, acompanhado com uma menor preocupação com sua vida privada e talvez uma baixa empatia pela camareira levaram quase metade dos entrevistados a desejarem o retorno de DSK.

Afinal, prever as consequências é difícil e, a menos que existisse um sentimento comum na França, as opiniões seriam bastante individuais e não determinariam tamanha aceitação.

Ainda, julgar se houve ou não abuso sexual é um processo de certa forma intuitivo para quase todas as pessoas. As únicas informações que o mundo tem sobre o caso são aquelas noticiadas pela imprensa, e é muito provável que as lacunas deixadas pela desinformação sejam preenchidas por critérios intuitivos. Não obstante, há muita especulação sobre os fatos, como já exploramos no texto, o que demonstra que existe sim um interesse pela verdade.

Entre os 45% que são contrários ao retorno de Strauss-kahn à política, talvez tenham prevalecido os mesmos critérios. Aos que o odiavam, foi oferecido mais um motivo para tal. Aqueles muito preocupados com a vida privada de seus políticos não admitiriam a existência de um processo criminal de tal natureza em sua vida. Destes últimos, cabe pensar se a maioria se solidariza à suposta vítima ou se a repulsa não passa de uma manifestação moralista, que leva em conta não o caráter violento do político, mas sua imagem de libertino.

 

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