Um escravo do pudim de Natal?

Para muitos de nós, provavelmente não há melhor época do ano para pensar sobre a fraqueza da vontade. Alguns vão se preparando mentalmente para resistir às tentações da mesa de Natal, enquanto outros, já sabendo que no seu caso tais preparações são inúteis, apoiam-se na ideia de que a resolução de ano novo de retornar à academia será o suficiente para se desfazer qualquer dano.

Considere o que pode parecer um caso paradigmático de fraqueza da vontade. Sofrendo de pressão arterial perigosamente alta, indigestão crônica e sensação de letargia, eu prometo resistir a uma segunda porção de pudim no almoço de Natal. Mas quando chega o momento, mesmo refletindo sobre o meu compromisso e como ele é claramente de meu interesse, eu me entrego e encho meu prato, finalizando com uma quantidade generosa de manteiga de brandy.

Uma das mais famosas, ou infames, afirmações de Sócrates foi que ninguém escolhe conscientemente o que é ruim em geral. Assim, segundo ele, no caso do pudim, não pode ser verdade que eu saiba que o que estou fazendo é, em geral, ruim para mim. Mas como isso é possível, quando, até mesmo durante a minha indulgência estou dizendo a mim mesmo: “Você vai se arrepender disso – você está cometendo um grande erro”?

Aristóteles tinha uma resposta para isso. Ele dizia que, no calor do desejo, eu declamo minhas palavras prudentes como se fossem as de um ator. Isto é, eu realmente não tenho a intenção de dizê-las. Isto me parece claramente um caso de um filósofo reinterpretando dados da experiência comum à luz de uma teoria. Nem Sócrates nem Aristóteles poderiam aceitar que seres racionais, com pleno conhecimento do que é melhor, podem ser arrastados pelo desejo, “como um escravo”. Mas eu continuo a me surpreender pelo número de alunos que eu ensino que acham a visão socrática persuasiva. E, a menos que eu seja muito diferente deles, um dos lados deve estar interpretando a si mesmo erradamente. Então, aqui há uma chance de fazer um pouco de filosofia experimental, mesmo enquanto você desfruta do seu almoço de Natal. O seu entendimento sobre si mesmo está de acordo com o de Sócrates? Se não, por que e como é que a razão tem esses limites – se é isso que são, e Hume também estaria equivocado em ver a razão como sempre escrava das paixões?

Texto original:

http://blog.practicalethics.ox.ac.uk/2011/12/a-slave-to-christmas-pudding/

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Flora Tucci
Flora Tucci
Doutoranda em Filosofia pela Puc-Rio e psicanalista.
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