Colaboração como valor fundamental: reflexões sobre o paradigma econômico dominante

O pressuposto de que os seres humanos agem motivados em maximizar seu auto-interesse é um dos pilares do pensamento econômico dominante. Entretanto, novas evidências científicas e a percepção da incapacidade dos modelos econômicos de promover o bem estar mundial têm contribuído para a ampliação do debate sobre o Homo Economicus. A discussão aponta para a necessidade de se considerar a natureza multidimensional dos homens, inclusive no agir econômico, compreendendo que comportamentos egoístas e altruístas, individualistas e colaborativos, se manifestam com igual relevância e são fundamentais na evolução das organizações sociais.

Para Benkler (2011), a crença na racionalidade auto-interessada é baseada em duas teses antigas, que ainda dominam o pensamento econômico hegemônico. Uma delas é apresentada no Leviatã, do filósofo Thomas Hobbes, de 1651, que diz que os homens são fundamentalmente egoístas, cabendo a um governo controlá-los para que não se destruam mutuamente na busca imediatista de seus próprios interesses. A outra é a teoria da “mão invisível”, desenvolvida por Adam Smith, em 1776: já que todo ser humano é movido pelo interesse próprio e suas decisões são ditadas por um cálculo racional de custos e benefícios, seus atos num mercado livre tendem a servir o bem comum. Ambas partem do mesmo princípio de que o homem é um ser essencialmente egoísta.

Segundo Yunus (2010), a redução dos atores econômicos a seres unidimensionais, cuja missão única seria obter o maior lucro possível, é uma falha fundamental na teoria capitalista. Sen (1999), por sua vez, considera a má interpretação da obra de Adam Smith como uma das causas da consolidação da visão estreita do comportamento humano na economia:

O apoio que os crentes e defensores do comportamento auto-interessado buscaram em Adam Smith é na verdade difícil de encontrar quando se faz uma leitura mais ampla e menos tendenciosa da obra smithiana… De fato, é precisamente o estreitamento, na economia moderna, da ampla visão smitihana dos seres humanos que pode ser apontado como uma das principais deficiências da teoria econômica contemporânea (SEN, 1999, p. 44).

Outra razão apontada por Sen (1999) para justificar a hegemonia da tese do comportamento auto-interessado no pensamento econômico até os dias atuais está relacionada com a redução da abordagem ética na evolução da economia moderna. Com isso, segundo o autor, uma variedade de considerações complexas a respeito do comportamento humano foi deixada de fora das reflexões econômicas (SEN, 1999).

Conforme coloca Benkler (2011), a adoção da racionalidade auto-interessada dos agentes econômicos teve como consequência a criação de sistemas embebidos no paradigma egoísta e na expectativa do pior comportamento por parte dos envolvidos (BENKLER, 2011). Dessa forma, por exemplo, a melhor maneira de se entender o cálculo de um criminoso seria como uma série de escolhas racionais entre os benefícios do crime e os custos do castigo (BENKLER, 2011). Assim, penalidades mais severas e maior ação policial deveriam ser os caminhos óbvios para se combater a criminalidade (BENKLER, 2011). Entretanto, vemos hoje que essa abordagem não tem surtido os efeitos esperados para superar os problemas da humanidade.

Outro exemplo clássico do paradigma do auto-interesse é a parábola conhecida como “Tragédia dos Comuns”, criada por Garrett Hardin, na década de 1960. Ela versa sobre agricultores que dividiam um pedaço de terra sem restrição à quantidade de cabeças de gado que cada um podia levar para pastar ali. Com o tempo, cada um foi trazendo mais gado para pastar no local até o capim se esgotar, não deixando mais nada para ninguém. Nenhum indivíduo se conteve em trazer mais gado por medo de perder para os demais, que continuariam a explorar o bem comum. A conclusão é que, por ser um ator com interesses próprios, o ser humano inevitavelmente destruiria os recursos comuns se estes não fossem protegidos por normas ou direitos de propriedade (BENKLER, 2011).

A visão da “Tragédia dos Comuns”, entretanto, foi contestada pelo trabalho da ganhadora do prêmio Nobel de 2009, Elionor Ostrom (2008). A autora demonstra em sua pesquisa que é possível sustentar um bem comum por meio de relações colaborativas, como é o caso, por exemplo, de comunidades de agricultores espanhóis que administram há séculos o próprio acesso à água através de distritos de irrigação auto-regulados (BENKLER, 2011).

Outro indício de que a crença arraigada no egoísmo humano começa a mudar, de acordo com Benkler (2011), vem da biologia evolutiva. Se a visão evolutiva de Darwin influenciou o paradigma do auto-interesse com “o simples argumento da seleção natural das firmas maximizadoras de lucro” (SEN,1999, p. 35), o biólogo Matin Nowak (2006 apud BENKLER, 2011) apresenta uma nova argumentação que pode contribuir para atualizar o pensamento econômico dominante. Segundo este pesquisador, “o aspecto mais notável da evolução talvez seja a capacidade de gerar cooperação num mundo competitivo. Logo, poderíamos acrescentar ‘cooperação natural’ como um terceiro princípio fundamental da evolução, ao lado da mutação e da seleção natural”. Ou seja, na luta pela sobrevivência, não basta ser o mais forte, é preciso colaboração.

Benkler (2011) comenta que pensamentos similares ao do biólogo Martin Novak têm surgido em várias outras áreas como a psicologia, a sociologia e a ciência política, contrariando a tese de que o ser humano nasce egoísta. Segundo o autor, “tais ideias estão traçando um novo arco intelectual em disciplinas ligadas à ação e à motivação humanas”. Fato é que biólogos e psicólogos evolucionistas acharam evidências neurais e possivelmente genéticas de uma predisposição humana a cooperar, crescendo os indícios de que a evolução pode favorecer a quem coopera e às sociedades que abrigam esses indivíduos (BENLER, 2011).

Ainda não temos evidências empíricas suficientes para afirmar que por uma combinação evolutiva, a maioria de nós é bem menos egoísta do que o previsto pelos modelos dominantes (BENKLER, 2011). Entretanto, o próprio paradigma da racionalidade auto-interessada carece de sólida fundamentação empírica (SEN, 1999).

Como aponta Yunus (2010), a teoria do auto-interesse negou todos os outros aspectos da vida humana – político, social, emocional, espiritual, ambiental – e nos enquadrou como uma entidade de racionalidade fria e calculada que não representa toda a nossa complexidade. Assim, a crítica que se faz é justamente pela necessidade de considerar que diversas qualidades coexistem nos seres humanos. Ou seja, agimos em benefício próprio, mas também motivados por interesses coletivos (YUNUS, 2010; SEN, 1999).

Para as organizações, a importância desse novo entendimento sobre o comportamento humano reside na necessidade de criação de sistemas não apenas baseados no cálculo de custos, benefícios, riscos, recompensas e punições. Como seres multidimensionais, as características altruístas e colaborativas dos indivíduos devem ser consideradas para o estímulo da criatividade e da inovação, tão fundamentais ao cenário turbulento que o século XXI apresenta. A sobrevivência no longo prazo pode depender da compreensão e da adoção desse novo paradigma.

Referências

BENKLER, Y. (2011). O Gene Altruísta. Harvard Bussines Review Brasil. Vol. 89, N. 7, Julho, p. 41 – 49.

OSTROM, E. (2008). Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action. New York: Cambridge University Press, 1990, 22nd printing.

SEN, A. Sobre Ética e Economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, 7ª impressão.

YUNUS, M. Criando um Negócio Social: Como iniciativas economicamente viáveis podem solucionar os grandes problemas da sociedade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

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