Crescimento para combater à miséria: falácia contemporânea?

Dado o cenário de crise global, um dos pais do Plano Real, André Lara Resende, levanta a questão de que os modelos econômicos utilizados até hoje para estimular o crescimento e o progresso não são mais válidos e que novos paradigmas precisam ser pensados para a realidade contemporânea. O principal modelo de recuperação econômica utilizado por governos até hoje foi elaborado pelo economista John Maynard Keynes, na década de 1930, em resposta a Grande Depressão vivida naquele momento. A solução consiste, sucintamente, em usar os gastos públicos para reaquecer uma economia estagnada.

Entretanto, André Lara Resende, contesta a validade da utilização do modelo keynesiano para o cenário atual. Isso porque, segundo o economista, o gasto público funciona para alavancar uma economia devastada, mas onde não há dívidas em excesso. Esse não é o caso atual, pois grande parte das dívidas privadas foi absorvida por governos, gerando altos níveis de endividamento público. Outra razão apontada pela mesma fonte é o surgimento de uma nova variável na equação: a escassez dos recursos naturais do planeta.  De acordo com Resende, não será possível manter os padrões de produção e consumo de bens materiais para uma população que é 40 vezes maior ao que sempre foi até a Revolução Industrial, época em que o modelo de Keynes foi elaborado.

O economista considera ainda que “levantar a bandeira do crescimento material, baseado no consumo de bens cada vez mais supérfluos, em nome do combate à miséria no mundo, é profundamente desonesto”. Com essa afirmação, a crença de que o crescimento econômico reduz a desigualdade social e a pobreza é colocada em xeque.

Os argumentos de André Lara Resende vão ao encontro do que defende o ambientalista Paul Gilding, em seu recente livro “A Grande Ruptura”: precisamos repensar o paradigma do crescimento econômico. Para eles, não será possível manter por muito mais tempo a economia como conhecemos hoje, pois ela não melhora a nossa qualidade de vida, apesar de nos permitir consumir mais. Temos casas maiores, carros maiores, mas temos mais medo, menos segurança e menos tempo para usufruir nossos bens, além de não conseguirmos melhorar a vida de milhões de pessoas que ainda vivem abaixo da linha da pobreza em todo o mundo.

Por outro lado, há quem conteste as teses defendidas por André Lara Resende e por Paul Gilding. O economista J. Carlos de Assis, por exemplo, contesta a tese de que é possível abandonar a busca por crescimento. Seu argumento passa pela crença de que as pessoas pobres só poderiam aumentar suas rendas de duas formas: se a economia crescer como um todo, para que se distribua a renda em crescimento, ou se fizerem uma revolução para se redistribuir a riqueza acumulada. Segundo ele, como riqueza é quase impossível de se distribuir sem violência – afinal, quem seriam os ricos que abririam mão de suas fortunas para equilibrar a balança social? -, é preciso distribuir renda. E para isso é preciso crescimento para que a renda possa ser distribuída de uma maneira que promova uma sociedade que tenha o mínimo de equilíbrio social e estabilidade política.

A discussão está aberta e as soluções ainda parecem longe de ser definitivas. Enquanto isso, nossa sociedade global continua a reproduzir o mesmo paradigma de desigualdade social, destruição ambiental e realização pelo consumo. Até quando seguiremos assim e que consequências isso nos trará, a história irá nos mostrar.

Referências:

http://oglobo.globo.com/economia/andre-lara-resende-temos-que-rever-que-consideramos-progresso-3884967

http://oglobo.globo.com/economia/e-fim-da-economia-como-conhecemos-diz-paul-gilding-3882689

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-manifesto-de-andre-lara-resende-por-j-carlos-de-assis

 

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