O outro segredo da Victoria: moda produzida com trabalho infantil em fazendas certificadas

A maior parte da grande imprensa global fingiu que não viu a matéria publicada no site da Bloomberg em Dezembro do ano passado e agora também impressa na edição de fevereiro da revista Bloomberg Markets. Pouco foi repercutido sobre esse escândalo do mundo da moda. Fato é que as “super angels” não são tão angelicais assim: as celebradas roupas íntimas vendidas pela Victoria’s Secret chegam aos mercados graças ao trabalho de crianças africanas que são obrigadas a abandonar suas infâncias para lavorar em fazendas de algodão certificado em Burkina Faso.

A reportagem do jornalista Cam Simpson acompanha a vida de Clarisse, uma menina de 13 anos, que trabalha pesado, de sol a sol, em uma fazenda de algodão. Não bastasse o uso de trabalho infantil, severamente combatido por organizações de direitos humanos, é surpreendente que o material vendido para a Victoria’s Secret receba um selo de sustentabilidade e comércio justo. Esse fato nos mostra como é perigosa a banalização do conceito de sustentabilidade e como não devemos acreditar de olhos fechados em tudo o que é propagado. Esse tema, inclusive, já foi abordado aqui no ERA nos excelentes artigos As armadilhas do Consumo Consciente e a Denegação do Consumo.

Outra questão ética que a matéria da Bloomberg suscita diz respeito à responsabilidade da Victoria’s Secret sobre sua cadeia de fornecimento, conforme já ressaltamos também em outro artigo aqui no ERA. Não monitorar os seus fornecedores e aceitar uma certificação sem o mínimo de questionamento e acompanhamento do processo de produção nos dias atuais é mais que irresponsabilidade. É assumir o descaso com os impactos que a empresa gera sobre o planeta numa postura antiética. Quando esse descaso é travestido de ações supostamente éticas, como é o caso com as certificações que justificavam a empresa vender seus produtos por preços maiores enganando seus consumidores, o fato se torna ainda mais escandaloso.

É alarmante que, nos dias atuais, grandes e poderosas empresas globais ainda não se responsabilizem amplamente pelos seus processos de produção e venda, mirando no lucro a qualquer custo. Casos de trabalho infantil e escravo ainda são recorrentes em marcas globalmente reconhecidas como relatado nos episódios da ZARA e da Victoria’s Secret. As empresas brasileiras também não escapam ilesas. Recentemente, a revista Exame publicou que a construtora Racional, uma das maiores do país, foi acusada pelo Ministério do Trabalho por manter trabalhadores em condições análogas à escravidão. É preciso tomar cuidado para a euforia do crescimento brasileiro não nos cegar e ofuscar o fato de que ainda precisamos avançar muito para sermos um país mais humano e justo.

Outras referências:

SIMPSON, C. Victoria’s other secret. Bloomberg Markets, February, 2012, p.68-82.

ONAGA, M. A Zara da Construção. Revista Exame, n. 3, 22/2/2012, p.18.

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