Pesquisas fraudadas: alerta aceso para a ciência

Recentemente, foi noticiado pelo Science Magazine um caso que alarmou a comunidade científica: o holandês Diederik Stapel, professor da Universidade de Tilburg, foi acusado de fraudar resultados de pesquisas empíricas realizadas ao longo de 15 a 20 anos. Feita a denúncia, ele foi confrontado com as acusações e admitiu que alguns de seus estudos continham dados falsificados. O fato em questão levou à abertura de investigações por parte da referida universidade e de duas outras, nas quais Stapel havia previamente trabalhado.

Não há dúvidas de que um caso como esse exige rigorosa apuração de cunho acadêmico e legal. Stapel era um psicólogo social e dedicava-se ao estudo de um amplo leque de assuntos que, em geral, chamavam atenção da sociedade – dentre eles, como uma posição de poder poderia influenciar os julgamentos morais. Dessa forma, seus vários estudos embasaram muitos outros, influenciando centenas de artigos acadêmicos. Como colocou Susan Fiske, professora de Princeton, as fraudes causarão enorme estrago, visto que os trabalhos de Stapel eram centrais em sua área.

Parece se tratar de uma situação em que muito mais do que o nome de Stapel ou os das universidades envolvidas está em jogo – é o próprio caráter científico da psicologia social que foi exposto ao risco. Não é raro que a condução de pesquisas empíricas seja, enquanto metodologia, amplamente usada no meio acadêmico. Assim sendo, a possibilidade de fraudes dessa proporção ocorrerem – e, pior ainda, de passarem por tanto tempo despercebidas – é algo que abala não apenas pessoas ou instituições, mas a credibilidade das metodologias científicas.

Precisamente por isso, é importante que a atenção pública se volte para um maior controle da utilização de dados empíricos. Denúncias pontuais têm seu papel, como ocorreu na situação relatada – Stapel foi reportado por pesquisadores juniores, que suspeitaram de má-conduta científica por parte do professor. Mas, além disso, os métodos de controle ainda necessitam ser aprimorados, pois esta situação mostra que ainda tem muito o que ser feito para a garantia de transparência e autenticidade no recolhimento frequente de dados científicos.

Stapel, quando desmascarado, se disse envergonhado e admitiu ter falhado enquanto cientista. Em uma reflexão ética, porém, há espaço para questionar se os erros cometidos por ele não teriam extrapolado o escopo profissional. Mais do que pecar em seu dever como pesquisador, Stapel comprometeu nomes e trabalhos de colegas que de nada sabiam, instituições de ensino e a credibilidade científica como um todo.  Em meio a tantos resultados negativos, o caso traz, enfim, uma lembrança: se a ciência costuma ser exaltada pelo seu apreço pela objetividade, ela ainda está, inevitavelmente, atrelada a seres humanos – e, como tal, às suas falhas.

Dessa forma, somos todos convocados a pensar que, de fato, a ciência não pode “se acomodar” nas suas certezas. É preciso trabalhar constantemente em cima dos desafios que surgem e encontrar caminhos para seu aprimoramento, tanto no que diz respeito aos procedimentos metodológicos quanto à eticidade dos mesmos.

Referências:

http://www.sciencemag.org/content/334/6056/579.full

http://www.sciencemag.org/content/334/6058/881.2.full?sid=bdb8cb37-c0e2-40ea-a576-0f6abbb0b44d

http://www.sciencemag.org/content/334/6060/1182.full?sid=bdb8cb37-c0e2-40ea-a576-0f6abbb0b44d

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