“Enhancement” Biomédico e os novos ciborgues

Há milênios o ser humano tenta, através dos mais variados métodos, aperfeiçoar suas capacidades inatas. Como uma extensão da condição humana de transformar a natureza, buscamos, seja por práticas espirituais, intervenções cirúrgicas, ingestão de drogas e tantos outros meios, transformar a nossa própria natureza. Com o acúmulo de avanços científicos dos últimos séculos, este “autoaperfeiçoamento” vem se tornando um tema cada vez mais significativo e tangível.

A Oxford Uehiro Centre for Pratical Ethics tem um texto introdutório bastante interessante sobre o assunto, em um tópico chamado Enhancement, disponível em  http://www.practicalethics.ox.ac.uk/ht/enhancement/main. No texto são levantadas questões como aperfeiçoamentos cirúrgicos, doping no esporte, e a possibilidade de uma interface entre cérebro e máquina que aumentaria a nossa capacidade de processar informações.

Um fato que chama a atenção, mencionado no texto supracitado, é a publicação em 2003, pelo Conselho de Bioética do então presidente norte-americano George W. Bush, de um relatório levantando preocupações quanto às implicações éticas do enhancement. Tal relatório não apenas demonstra a realidade desse fenômeno como aponta a polarização produzida por ele, entre um lado mais conservador/pessimista, centrado nos riscos representados por tal fenômeno, e um lado inovador/otimista, que vê grandes promessas no enhancement.

Esta polarização expõe a existência tanto de ganhos quanto de perdas potenciais, tanto perigos quanto promessas. Assim, é importante estar a par do que constitui, de modo geral, o lado positivo e o negativo. Existe, por exemplo, o risco de um aumento na desigualdade entre os seres humanos. Aqueles com recursos suficientes para investirem no seu aperfeiçoamento cerebral e corporal se destacariam daqueles que não dispõem de tais recursos, podendo gerar conflitos e um aumento do espírito competitivo.

De certa maneira esse problema já se coloca, há décadas, na nossa sociedade, notadamente no campo do esporte, em que o uso de algumas drogas confere benefícios no desempenho de quem as ingere, de modo que o doping é fortemente reprimido nas competições esportivas. Ainda, como disposto na introdução da Uehiro, a opinião pública parece estar mais próxima deste polo conservador, visto que as poucas pesquisas de opinião realizadas sobre o assunto indicam uma relutância quanto ao aperfeiçoamento biomédico. Não é demais afirmar, também, que aos novos poderes e capacidades conferidos pelo enhancement correspondem novos potenciais destrutivos. Imaginem, nesse sentido, as consequências de alguém aprimorar o seu QI no intuito de aumentar seu poder de manipulação sobre as outras pessoas a fim de se beneficiar.

Pelo ponto de vista inverso, o aperfeiçoamento biomédico é capaz de presentear a humanidade com uma inteligência sobrehumana, aumentando o seu conhecimento científico e produzindo soluções novas e eficazes para problemas antigos que nos afligem. Ele próprio sendo um fruto do avanço tecnológico, o enhancement pode significar um salto qualitativo no progresso das tecnologias. Imaginem, nesse sentido, como um aumento da média do QI populacional ajudar-nos-ia a abordar a nós mesmos e ao mundo à nossa volta de uma forma mais inteligente e produtiva.

Alguns pensadores consideram, inclusive, que o aperfeiçoamento na forma da engenharia genética representa o próximo estágio evolutivo, em que o homem assumirá o controle da sua própria evolução. Como colocado no texto da Uehiro, “transhumanistas” argumentam que os enhancements podem nos conduzir a uma realidade em que superaremos a nossa própria condição de humanos.

É certo que este é um fenômeno que, nas próximas décadas, ganhará cada vez mais relevância na sociedade. Independentemente do apoio e oposição referentes ao aperfeiçoamento biomédico, parece pouco provável que a marcha da história e da ciência resistirá à sua adoção prática, pelo menos parcialmente. Afinal, a história da nossa espécie aponta, cada vez mais, à recepção da inovação e do aumento do nosso poder de transformação.

Isso não necessariamente é uma coisa positiva, haja vista, por exemplo, a existência de bombas atômicas, responsáveis pela morte de centenas de milhares de pessoas, que nada mais são do que um produto do nosso poder de transformação sobre o átomo. Assim, é fundamental estarmos atentos ao desenvolvimento do enhancement, aos prejuízos e benefícios implicados e às questões éticas que o perpassam.

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