Estudo polêmico adverte: ricos podem ser mais antiéticos que pobres

Um artigo de pesquisadores das Universidades de Berkeley e Toronto, publicado recentemente no jornal acadêmico Proceedings of the National Academy of Sciences Journal, dos Estados Unidos, encontrou evidências de que o comportamento das pessoas mais ricas tende a ser menos ético do que as de classes sociais menos favorecidas. O trabalho compila resultados de sete experimentos realizados em pesquisas empíricas conduzidas na Califórnia e, também, por meio da Internet com outras nacionalidades.

Na primeira e na segunda das sete experiências realizadas no âmbito do estudo maior, os pesquisadores descobriram que os indivíduos dirigindo veículos mais caros eram mais propensos a cortar outros motoristas e pedestres com direito de passagem. Nas outras cinco pesquisas foi exigido dos participantes que relatassem seus status sócio-econômicos e que respondessem sobre vários cenários nos quais apareciam dilemas morais. Os resultados mostraram que aqueles oriundos de meios mais ricos eram mais propensos a tomar bens de valor dos outros, a mentir em negociações, a trapacear para aumentar suas chances de ganhar um prêmio e a endossar o comportamento antiético no trabalho em relação aos participantes da classe baixa.

Além disso, o estudo sugere que a tendência dos participantes ricos de se envolver em comportamentos antiéticos pode decorrer de vários fatores, que juntos dão origem a um conjunto de normas culturalmente compartilhado entre esses indivíduos, o que facilita esse tipo de atitude. Dentre os fatores citados pelo artigo em questão estão o fato dos membros das classes mais altas terem mais privacidade e independência em suas profissões, o que geraria a crença de correr menos riscos quanto ao comportamento antiético do que os outros; a questão de terem mais recursos para lidar com as possíveis repercussões de tal comportamento; e a grande probabilidade de que essas pessoas tenham recebido uma formação econômica orientada para trabalhar em ambientes que valorizam o auto-interesse, justificando para elas até mesmo moralizar crenças positivas sobre ganância.

Os próprios pesquisadores advertem, entretanto, que os resultados do estudo devem ser interpretados com certas ressalvas. Primeiro, é importante ressaltar que há exceções para as tendências que o estudo predizeu, como notáveis indivíduos de classe alta que trabalharam pelo bem maior com filantropia de significativos resultados, como  os exemplos de Bill Gates e Warren Buffet. Não há como negar também a existência de indivíduos de classe baixa com comportamentos antiéticos. Outras críticas que podem ser levantadas dizem respeito ao tamanho da amostra não ser representativa da população e aos métodos empregados. Por isso é importante clarificar que as observações apresentadas da associação entre classe social e falta de ética não são categóricas e investigações futuras são necessárias para reforçar as evidências apresentadas neste trabalho.

Os autores do artigo, contudo, não se esquivam de defender a tese de que os motivos para a ganância não são igualmente prevalentes em todos os estratos sociais. Como os resultados do estudo de fato sugerem, a busca do auto-interesse é um motivo mais fundamental entre a elite da sociedade e o aumento do desejo associado a aumentar a riqueza e status podem promover o delito ético. Dessa forma, eles concluem que o comportamento antiético a serviço do auto-interesse pode perpetuar uma dinâmica que agrava ainda mais as disparidades econômicas na sociedade.

Como esbocei aqui no ERA no artigo que discute o paradigma econômico atual, esse tipo de generalização é muito perigoso e pode nos levar a crenças errôneas sobre o comportamento social. Não há

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  • […] de pesquisadores. Aqui no ERA já abordamos algumas dessas questões, por exemplo, no artigo “Estudo polêmico adverte: ricos podem ser mais antiéticos que pobres”, que faz comentários sobre divulgação dos resultados de uma pesquisa feita pelas […]