Ética corporativa e o 8 de março

Há poucos dias, celebrou-se em diversos países o Dia Internacional da Mulher.  A data tem origem na árdua luta feminina por melhores condições de vida, que ensejou notáveis conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos séculos. É importante, porém, que o dia 8 de março não se limite a exaltar tais conquistas e a relembrar os esforços despendidos para que elas se tornassem realidade.  Há ainda um caminho a ser percorrido, passando por todas as esferas da sociedade – dentre elas, uma vem ganhando grande destaque nesse cenário: o ambiente corporativo.

Não é difícil encontrar evidências de que a luta feminina ainda não atingiu seu objetivo pleno. Em reportagem publicada esse mês no jornal O Globo, discutiu-se uma recente pesquisa do IBGE, que aponta que o salário médio das mulheres é 28% menor do que o dos homens. Não bastasse esse dado alarmante em si mesmo, a pesquisa aponta também que essa proporção se mantém praticamente inalterada desde 2009. Soma-se a isso a presença minoritária feminina em quatro dos seis ramos principais da economia e as maiores exigências – como maior qualificação profissional – em relação às mulheres do que aos homens.

Trata-se de um cenário flagrantemente tendencioso no que diz respeito à posição de homens e mulheres no mercado de trabalho, provando que, mesmo tendo em vista a trajetória já percorrida, as reivindicações femininas estão longe de chegar ao fim. Diante da situação descrita, a busca por soluções se torna primordial – e o lugar propício para iniciá-la talvez seja nas corporações. Afinal, é em muitas delas que políticas discriminatórias mantém o seu espaço e que processos seletivos recebem pesos diferentes dependendo do sexo do candidato.

Tais atitudes são de teor muito questionável eticamente. Portanto, uma cultura organizacional compatível com elas, seja pela sua promoção ou pela adoção de uma postura conivente com as mesmas, abre brechas para a prática de outros comportamentos considerados antiéticos no ambiente corporativo. Afinal, estando as próprias empresas estruturadas sobre políticas comprometedoras do ponto de vista ético, a sua cultura organizacional passa a se basear na tolerância em relação a desvios nesse sentido.

O raciocínio disposto acima se funda na ideia de que a cultura organizacional de uma corporação enuncia seus princípios e valores basilares, procurando moldar-se de forma compatível com as práticas e os objetivos corporativos. Por isso, acaba por refletir o espaço reservado aos desvios antiéticos que são tolerados na empresa quando isso, à primeira vista, trouxer benefícios a ela. A mesma lógica pode permear todos os níveis hierárquicos: se parecer ser mais vantajoso, por que não levar adiante condutas questionáveis eticamente?

Entendido isso, conclui-se que a construção de um ambiente corporativo sadio e ético deriva de uma cultura organizacional que preze pelas mesmas oportunidades a ambos os sexos. Cabe ainda ressaltar que a busca das mulheres por igualdade social, inclusive no âmbito trabalhista, passa também pelo respeito à diferença. Ou seja, é preciso reconhecer que homem e mulher são intrinsecamente diferentes em alguns aspectos, como na maternidade, e que o tratamento igualitário a ambos não significa a supressão dessas diferenças – a igualdade de que se fala necessariamente passa, inclusive, pelo reconhecimento do direito a elas.

Por fim, resta dizer que as corporações da atualidade são chamadas a modificar o panorama dessa luta que, mesmo tendo avançado em incontáveis aspectos nos últimos séculos, permanece tão desafiadora. Cada vez mais, fica claro que não se trata de uma mera opção das empresas a plena e digna integração da mulher ao mercado de trabalho. Instâncias do Poder Público têm se mobilizado para isso, conforme mostra a notícia de tramitação no Congresso Nacional de um projeto de lei prevendo multa a empresas que pagarem menos a mulheres que a homens pelo exercício da mesma função.

Enquanto a primeira notícia citada mostra alguma estagnação na situação das mulheres no mercado de trabalho, a segunda indica que a preocupação em relação a esse tema não está esquecida. Assim como ela é retomada constantemente pelas milhares de brasileiras que procuram se consolidar em seus cargos, também o deve ser pelas corporações. Afinal, o sucesso destas últimas passa cada vez mais pelo entendimento dos benefícios de um ambiente corporativo ético – e, como parte disso, pelo entendimento do real significado do dia 8 de março.

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