Horror no Afeganistão

Mais uma vez uma tragédia no Afeganistão virou manchete de jornal no mundo inteiro. Ocorreu um massacre em um vilarejo da província de Kandahar, com a morte de pelo menos 16 pessoas, a maioria delas crianças. Segundo a versão oficial a chacina é fruto da ação de um único soldado americano. Um atirador de elite teria entrado de porta em porta produzindo um festival bárbaro, matando a queima-roupa civis inocentes sem nenhum motivo aparente, senão o de criar uma barbaridade grotesca. Há, entretanto, controvérsia quanto a esta narrativa. Alguns dos residentes locais afirmaram que a ação foi perpetrada por um grupo de soldados, que aparentavam estar bêbados e se divertindo enquanto cometiam as atrocidades.

O fato é que houve um massacre, aumentando as tensões entre os afegãos e os norteamericanos, tensões estas que já estavam em um nível elevado por conta da queima de alcorões feita por militares estadunidenses. A reação a esta queima já resultou em manifestações violentas, com vítimas fatais. Somando-se à violação do livro sagrado do islã essa tragédia exponencialmente pior (ao menos sob o nosso ponto de vista), o resultado pode ser tal que o todo corresponde a algo mais grave do que à soma das partes. O talibã promete vingar as mortes com decapitações de norteamericanos.

Além dos frutos amargos que provavelmente brotarão da tragédia, seria positivo se, como consequência, o governo norteamericano adotasse políticas mais intensas de acompanhamento psicológico e fosse mais efetivo em impedir a desumanização dos afegãos. É certo que a guerra carrega consigo uma agenda própria, uma violência que é difícil, talvez impossível, de manter somente em direção ao inimigo armado. Quanto mais em uma ocupação estrangeira em território habitado por pessoas de culturas, religiões e etnias completamente distintas das dos ocupantes, tidos por estes, com frequência, como seres inferiores. No entanto, um país que dispensa bilhões na construção de novos armamentos, no fortalecimento do seu poderio militar, e que tem uma história repleta de incursões militares, deveria dispensar uma atenção ímpar ao estado psicológico dos seus profissionais de guerra, o que parece não acontecer, haja vista a ocorrência de diversos casos semelhantes ao citado acima.

O atirador tido como responsável pelo massacre, segundo as autoridades americanas, tem desordens mentais, oriundas de um trauma cerebral que sofreu em um acidente com um veículo militar em 2010 ou fruto do stress do conflito armado. Como ele, outros milhares de soldados norteamericanos possuem distúrbios mentais decorrentes da guerra. Só na base militar deste atirador assassino foram diagnosticados mais de 300 casos de stress pós-traumático nos últimos cinco anos. Um soldado desta mesma base foi condenado, no ano retrasado, por realizar execuções em que levava os dedos das vítimas como troféus.

Talvez ética e guerra não possam coexistir. Talvez um conflito que se baseie na morte dos que estão do lado oposto mate também a noção de humanidade, sem a qual fica difícil ter preocupações éticas. Nesse sentido, o que devemos esperar é que os burocratas e políticos que criam e decidem sobre as guerras – sem, no entanto, participarem delas – depositem muita preocupação (e recursos) no tratamento psicológico dos combatentes e na punição exemplar dos que levam a crueldade do conflito armado para civis inocentes.

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