O caso Goldman Sachs

No último mês de março algo inusitado ocorreu na gigante das finanças Goldman Sachs. Um diretor executivo, Greg Smith, se demitiu alegando falta de ética por parte da empresa. Segundo o executivo, a política da companhia mudou nos últimos anos, com enfoque agora direcionado quase que somente na busca do lucro imediato, sem consideração com a perspectiva financeira dos clientes.

Não se sentindo mais confortável com o ambiente “tóxico e destrutivo” Smith decidiu deixar a GS após 12 anos, enviando uma carta para o New York Times com as razões da renúncia. Nesta carta são explicitadas práticas reprováveis, como o hábito de os diretores se referirem aos seus clientes, em reuniões internas, como muppets, ou seja, como bonecos manipulados.

Esse fato tem como pano de fundo teórico uma questão moral complicada, os limites e intercâmbios entre a ética corporativa e a ética pessoal. Em que medida um indivíduo é responsável por suas atuações dentro de um corpo organizado com objetivos próprios, e em que medida deve a moralidade do “cotidiano” pautar as atividades de uma empresa?

Muitas vezes as empresas têm interesses que não se harmonizam com as preocupações éticas de alguém que trabalha nela. É o caso, por exemplo, de um diretor que se vê obrigado a demitir um funcionário cujo trabalho sustenta sua família. Ele pode não desejar fazer isso, considerar errado, mas a saúde financeira da empresa está em conflito com a saúde financeira deste funcionário. Aqui, em princípio, todos concordam que faz parte do papel de ser chefe sacrificar o bem-estar de um funcionário pelo bem-estar da empresa. No entanto, como exposto na carta de renúncia da Goldman Sachs, existem situações que, ao contrário, atacam o bom senso. No caso da GS, de acordo com a carta, é de praxe convencer clientes a comprarem ações e produtos não rentáveis, se isso é interessante ao banco.

Smith afirmou não ter identificado nenhuma prática ilegal. Deduzimos, então, que para ele o limite do aceitável não foi a legalidade. O determinante ali – aparentemente, é claro, haja vista não ser possível descartar motivações veladas – foi uma mudança no modelo de negócios da GS. Smith não reconhecia mais a empresa na qual ele começou a trabalhar mais de uma década antes.

Quando uma companhia adota práticas que atentam contra a legalidade é simples determinar que ela esteja atuando no campo da imoralidade. Afinal de contas, desta forma ela não atua dentro “das regras do jogo”. A complexidade surge quando a empresa funciona dentro da legalidade, ou seja, acatando as regras, mas de uma forma socialmente reprovável. Isso aponta para outra questão relevante: Em uma sociedade cuja economia se baseia, em grande parte, no mercado livre e na competição, será possível a analogia com um jogo, em que a ética praticamente pode ser reduzida às normas que regem este jogo?

Se pegarmos o exemplo do futebol, veremos que existem também certas normas para além das escritas, baseadas em costumes futebolísticos. São as chamadas regras do fair-play: Jogar a bola para fora quando alguém está ferido, devolvê-la para a equipe que a jogou para fora etc. Assim, é possível verificar que jogos de entretenimento dispõem de uma ética que ultrapassa a limitação das regras oficiais. Neste sentido, não seria correto pensar que uma atividade que constitui o elo entre o indivíduo e a sociedade, qual seja uma atividade de trabalho qualquer, devesse também ser regida por normas que transcendam a legislação?

Na verdade, é bem possível pensar justamente o contrário. Dada a sua importância, é sensata a noção de que as regras que regem as relações trabalhistas e empresariais devem, por isso mesmo, estar claramente explicitadas e definidas. É também possível a reflexão de que, diferentemente de um evento esportivo, a discrição e seriedade das atividades empresariais estimula uma competição sem fair-play, sem cavalheirismos.

No próprio futebol, em jogos mais importantes, a etiqueta do fair-play é muitas vezes violada. Na final da Copa de 98, por exemplo, o atacante Edmundo brigou com companheiros da equipe por terem devolvido a bola, dentro do espírito de fair-play, à equipe francesa quando o Brasil já perdia para a rival. Afinal, aquilo era final do mundial, não era um jogo qualquer, era um duelo entre nações pelo título de melhor do mundo. Talvez se todos os jogadores daquela seleção tivessem esse espírito do Edmundo, nós teríamos sido campeões, dado que o nosso elenco era melhor. Seguindo a analogia, uma empresa que pauta sua conduta pela moralidade social vigente e não pelo interesse próprio tende a não durar muito no mercado, mesmo que disponha de integrantes de qualidade.

Entretanto, pode ser danoso à própria empresa estar focada apenas em seus interesses momentâneos. Isso porque, às vezes, o interesse de longo prazo está em contradição com o de curto prazo. Esse foi um dos motivos apontados por Greg Smith para se demitir. O executivo afirmou que, ao desconsiderar os clientes e buscar ganhos imediatos, a Goldman Sachs estaria comprometendo a sua confiabilidade, e, portanto, sua rentabilidade no futuro. Nessa lógica, o próprio mercado trataria de punir condutas irresponsáveis e inconsequentes (mas não ilegais). Assim sendo, a própria natureza competitiva do mercado daria fim às aberrações morais a que dá ensejo.

Acabamos, enfim, no debate mais profundo, clássico, da autorregularão do mercado. Sendo demasiado difícil chegar à conclusão quanto a se o mercado por si só dá cabo dos monstros que produz, pelo menos é verificável que monstros ele, de fato, cria. Assim, é louvável a atitude de um indivíduo que, aparentemente, sacrifica sua carreira por não se sentir mais à vontade num corpo empresarial que busca se alimentar vorazmente dos bolsos alheios. Pelo menos, ele deixa claro ao público quais princípios regem o banco. Se, mesmo assim, existirem suficientes pessoas querendo ser muppets, fica difícil responsabilizar somente um lado por isso.

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