Entrevista com André Lacroix – A dimensão Ética do Poder

LacroixNossa entrevista do mês é com o Prof. André Lacroix, professor titular de Ética Aplicada da Universidade de Sherbrooke, Québec, Canadá, que esteve visitando o ERA e a PUC-Rio no início de maio.

ERA: Qual a influência do poder sobre o comportamento ético das pessoas?

Lacroix: A influência do poder está no centro de vários problemas éticos. E ao dizer isto, não tenho em mente a famosa frase “o poder corrompe…”. Mas, sobretudo, que o poder confere àquele que o detém uma função específica: ele pode “agir” sobre um certo número de eventos. E, de acordo com a natureza do poder que se detém, aqueles que delegaram o poder também esperam o exercício de tal poder. E, por razões de eficácia, torna-se natural agir em função de seus próprios valores, ver em função da busca por um resultado único, ao invés de agir em função de um conjunto de valores mais ou menos compartilhados. É assim que a dimensão ética de toda decisão e de toda ação escapa daquele que usa o poder em prol de um resultado. E então os problemas éticos se multiplicam.

Dizendo de outro modo, o poder tende a conduzir aquele que o detém a pensar e a agir em função de resultados determinados, ao invés de pensar em função de uma finalidade, dos meios de que se dispõem e do contexto no qual aquela ação se apresenta.

ERA: De que maneira as relações de ordem hierárquica podem propiciar que um determinado ambiente seja considerado ético?

Lacroix: As relações de ordem hierárquica permitem um “ambiente ético” ou um “clima ético” na medida em que: i) essa relação se inscreva em um contexto institucional compreendido por todos; ii) tal contexto institucional favoreça a autonomia profissional e iii) a cultura institucional privilegiada repouse sobre o diálogo e a transparência.

ERA: Por que o poder é habitualmente percebido como negativo e contrário aos valores éticos?

Lacroix: Porque o poder é habitualmente compreendido como “poder sobre” alguém e/ou alguma situação. Nesse contexto, o poder mede-se pela ascendência que um tem sobre outro ou sobre o controle que alguém tem sobre uma situação ou pessoas. Nesse sentido, o poder corre o risco de tornar-se destrutivo porque não leva em consideração o outro. Mas se entendemos o poder como “poder de”, ou seja, um poder de agir sobre uma determinada situação, então devemos desde logo levar em consideração a singularidade da situação e os valores partilhados pelos outros. Neste último caso, o poder tem uma verdadeira dimensão ética enquanto que, no primeiro caso, o poder nega a dimensão ética da situação e a consideração dos valores dos outros.

Tradução: Rachel Nigro

Leia o original:

1) Quelle est l’influence du pouvoir sur le comportement éthique des personnes?

L’influence du pouvoir est au cœur de plusieurs problèmes éthiques. Et lorsque je dis cela, ce n’est pas parce que j’ai à l’esprit la fameuse phrase voulant que le « pouvoir corrompt… ». C’est plutôt que le pouvoir confère à celui qui le détient une fonction toute particulière : il peut « agir » sur un certain nombre d’évènements. Et, selon la nature du pouvoir détenu, ceux et celles qui lui ont conféré ce pouvoir s’attendent aussi à ce qu’il agisse et décide. Et, par souci d’efficacité, il est aisé de décider en fonction de ses propres valeurs, voire en fonction du seul résultat recherché plutôt qu’en fonction d’un ensemble de valeurs plus ou moins partagées. C’est alors que la dimension éthique de toute décision, et de toute action, échappe à celui qui détient le pouvoir au profit du seul résultat. Et c’est alors que les problèmes éthiques se multiplient.

Pour le dire autrement, le pouvoir entraîne souvent celui qui le détient à penser et à agir en fonction des seuls résultats  recherchés plutôt qu’en fonction d’une finalité, des moyens dont on dispose, et du contexte dans lequel cette action est posée.

2) De quelle manière les relations d’ordre hiérarchique peuvent-elles permettre qu’un environnement déterminé soit éthique ?

Les relations d’ordre hiérarchique peuvent permettre un « environnement éthique » ou un « climat éthique » dans la mesure où : i)  cette relation s’inscrit dans un contexte institutionnel compris par tous; ii) ce contexte institutionnel favorise l’autonomie professionnelle et iii) la culture institutionnelle qui est privilégiée repose sur le dialogue et la transparence.

3) Pourquoi le pouvoir est-il habituellement perçu comme négatif et à l’encontre  (de valeurs telles que) de l’éthique ?

Parce que le pouvoir est habituellement compris comme un « pouvoir sur » quelqu’un et/ou sur une situation. Dans ce contexte, le pouvoir se mesure à l’ascendant que l’on a sur l’autre ou sur le contrôle que l’on a sur une situation ou des personnes. En ce sens, le pouvoir risque d’être destructeur puisqu’il ne prend pas en considération l’autre. Il impose plutôt quelque chose à l’autre. Mais si on envisage le pouvoir comme étant un « pouvoir de », c’est-à-dire un pouvoir d’agir sur une situation, il nous faut dès lors prendre en considération la singularité de la situation et les valeurs partagées par les autres. Dans ce dernier cas de figure, le pouvoir a une véritable dimension éthique tandis que dans le premier cas, le pouvoir nie la dimension éthique de la situation et la prise en compte des valeurs de l’autre.

André Lacroix,

Professeur titulaire et titulaire de la Chaire d’éthique appliquée,

Université de Sherbrooke,

Campus de Longueuil,

150 Place Charles Le-Moyne,

Bureau 200, Longueuil, Québec, J4K 0A8, Canada, Courriel : Andre.Lacroix@USHerbrooke.ca

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