Entrevista com o Ministro Aldo Rebelo – Ética, Esportes, Copa e Olimpíadas

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ERA (Pedro Fernandes)- Primeiramente eu gostaria de agradecer o ministro pela disposição em fazer essa entrevista para o nosso grupo. Faremos perguntas relacionadas à ética, esportes, copa e olimpíadas.

Ministro, o esporte é muito importante no desenvolvimento das crianças e adolescentes, na educação e na formação do caráter. Qual é a realidade brasileira quanto ao esporte na área educacional e na formação dos jovens?

Ministro Aldo Rebelo – Nós dividimos o esporte nas seguintes categorias: o esporte educacional, que está associado à formação da criança e do adolescente; o esporte como lazer, que não é apenas para estudante ou para a escola, mas para lazer, entretenimento e passatempo; o esporte como inclusão social, ou seja, para oferecer perspectiva para pessoas que vivem em faixa de risco social, com pobreza e problemas de saúde; e uma quarta categoria que é o esporte de alto rendimento, que é o esporte competitivo, olímpico. Nós temos, no governo, políticas diferenciadas para cada uma dessas categorias.

No caso do esporte educacional nós imaginamos que ele possa constituir uma forma de pedagogia na formação do caráter e dos valores, porque no esporte você aprende a atividade coletiva, a valorizar as qualidades e limites individuais, a valorizar a ação coletiva, você aprende que as regras dos esportes aplicam-se também para a vida social, onde as leis correspondem às regras do esporte. Você aprende a ganhar mantendo a humildade e a perder mantendo a dignidade, então o esporte educacional tem essas múltiplas funções.

ERA (Pedro Fernandes) – Qual a importância, para o Brasil, de sediar as olímpiadas em 2016 e a Copa do Mundo em 2014.

Ministro Aldo Rebelo – As Olimpíadas e a Copa são os dois mais importantes eventos do planeta. São os mais esperados, os que têm mais acompanhamento nos meios de comunicação, com mais de três bilhões de telespectadores no mundo inteiro. Não são apenas os dois maiores eventos esportivos, são os maiores acontecimentos do mundo. Todos os países querem sediá-los porque são também alternativas para crescimento e desenvolvimento. Muita gente dá o exemplo de Barcelona, que virou outra cidade depois das Olimpíadas. A Olímpiada agora de Londres, foi disputada na final por Londres e Paris, ou seja, as duas mais celebradas capitais do mundo disputaram para sediar as Olimpíadas, e Londres foi a vencedora.

Portanto, Copa e Olimpíadas dão oportunidade para o desenvolvimento econômico, para o desenvolvimento do turismo, da engenharia, da ciência, da tecnologia. Incorporam e mobilizam os cientistas, os empresários, os atletas, e a população que espera ansiosa por esses eventos. São oportunidades para ampliar o país como destino turístico, no Brasil como um todo e nas cidades que sediarão a Copa, e no caso do Rio de Janeiro especialmente, como sede das Olimpíadas. Em resumo, são uma oportunidade para o desenvolvimento do esporte, da economia, da ciência, e do Brasil.

ERA (Pedro Fernandes) – Ministro, no meio esportivo, já há algum tempo, existe muito a utilização de substâncias e doping para melhorar o desempenho. Nós do grupo até já pesquisamos um pouco sobre isso. Por um lado isso é parte da própria condição humana de transformar a natureza na busca da excelência, o que no meio competitivo do esporte acaba sendo muito motivada. Qual a sua opinião quanto ao doping nos esportes e do bioenhancement na sociedade?

Ministro Aldo Rebelo – A presença do doping e de substâncias que alteram a natureza humana para a competição é uma deformidade. Os esportes olímpicos, por exemplo, são de confraternização. Foram pensados mais como momentos de encontros, que reproduziam os encontros dos cavaleiros da aristocracia européia, que periodicamente faziam aqueles jogos para propiciar mais os encontros sociais do que propriamente a competição.

Agora, por outro lado, alguns esportes reproduzem a competição mais dura da humanidade, que é a guerra, e introduzem essa filosofia também na competição. Quando isso acontece, o esporte também se transforma em uma afirmação não da confraternização, da cooperação, mas do individualismo, e aí as pessoas apelam para o uso dessas substâncias. Ou, também, o esporte passa a ser parte dos negócios do capitalismo. Quando o esporte é munido pela natureza do capitalismo, ou seja, pelo lucro, o resultado fica submetido à pressão por ganhar a qualquer custo e pela ruptura das regras via o doping ou por outras formas graves como suborno de juízes e alteração de resultados.

ERA (Pedro Fernandes)- O senhor é um membro antigo e muito importante do PCdoB. Portanto, deduzo que é marxista ou que admira ideias marxistas. O senhor falou que às vezes os esportes assumem a forma de simulação da guerra. A gente vê que, mesmo podendo ser uma disputa coletiva, é muito forte o traço da competição no meio esportivo. Então, qual a importância do esporte para criação de uma sociedade mais igualitária, levando em consideração este traço competitivo que é intrínseco ao esporte?

Ministro Aldo Rebelo – Eu vejo o esporte também como uma expressão estética, uma expressão da arte. Não se pode separar a habilidade individual de um jogador de futebol, de um atleta da esgrima ou de um cavaleiro do hipismo. Não se pode separar da exibição de um artista, ou seja, das qualidades inatas do artista. É o aperfeiçoamento na figura humana de determinadas habilidades que transformam a sua atividade em arte. Pode ser a dança, o teatro ou o esporte também. O Eric Hobsbawm diz que não há como separar o futebol da arte diante de algumas exibições da seleção brasileira de futebol. Aí o que prevalece não é propriamente o individualismo, mas a individualidade. O jogador brasileiro não percebe o futebol apenas como uma competição, como o faz o europeu, que reúne a força física e a disciplina tática. O brasileiro procura também o improviso, ou seja, colocar no futebol a sua habilidade pessoal, o seu jeito de driblar, a ginga, que é uma particularidade do futebol brasileiro.

Então, eu vejo que essas categorias da individualidade, do individualismo, da arte, da guerra, da disputa… elas ficam muito próximas e nem sempre você tem condições de separá-las, dado que muitas vezes são exibidas conjuntamente.

ERA (Pedro Fernandes) – Já que o senhor exerce uma função pública muito importante dentro do Estado brasileiro, e que o nosso grupo trata de ética, eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a importância de ter preocupações éticas no exercício da função, e se isso pode entrar em conflito com questões pragmáticas ou com a eficiência.

Ministro Aldo Rebelo – Não creio. Creio que a função pública está ligada a padrões éticos, que por sua vez estão ligados a referências e a valores relacionados com convicções e ideologias.

Para a aristocracia francesa a ética era defender os valores aristocráticos, a estrutura social da época, a etiqueta. Para os revolucionários que queriam varrer o feudalismo e implantar o capitalismo a ética era outra, ou seja, era tirar aquele sistema e substituir aqueles padrões éticos por outros mais democráticos, que eram trazidos pelo capitalismo, como acabar com as corporações de ofício. Tudo isso tinha embutido também um conteúdo ético, ou seja, de produzir uma sociedade baseada no trabalho, diferente do feudalismo em que as guerras, os jogos e a vida aristocrática eram o padrão ético dominante. Quando o capitalismo transformou-se no sistema dominante e organizou-se a luta, a ideologia e em torno dela os valores do socialismo, os padrões éticos também diferem. Ou seja, o socialismo, a valorização da sociedade coletiva e da distribuição da riqueza se contrapõem a certos valores do capitalismo.

Na vida pública você tem referências comuns, como servir a sociedade, defender o interesse público, preservar o interesse nacional. São valores e padrões de comportamento que, no meu ponto de vista, devem nortear a vida pública, independentemente do partido a que você pertença. Nós não precisamos nos afastar desses valores para justificar a busca da eficiência ou do resultado.

ERA (Pedro Fernandes) – Existe uma distinção clássica na ética, colocada aqui de forma simplista, que é da ética baseada em princípios e outra baseada nas consequências. O senhor considera mais importante, na conduta ética, o foco nos princípios, nas consequências, ou acha que a contradição entre essas duas categorias é fictícia?

Ministro Aldo Rebelo – Eu creio que os princípios oferecem referências mais sólidas e permanentes. As consequências têm um conteúdo de subjetividade muito grande. Você pode justificar um ato pela busca da consequência ou do resultado que ele gera, mas isso é mais subjetivo. Você pode ter uma apreciação diferente da de outras pessoas sobre as mesmas consequências. Quando se trata de princípios você tem uma referência mais elaborada. Creio que é sempre mais consequente você ter os princípios como referência.

ERA – O senhor falou de como as formas éticas diferenciam-se dependendo da época. No feudalismo existe uma ética aristocrática, a implantação de uma sociedade liberal traz consigo uma ética mais democrática, e também surge com força uma ética mais coletiva, vinculada ao socialismo. O senhor considera, no entanto, que existem valores éticos universais, independentes do contexto, que transcendam as contingências históricas?

Ministro Aldo Rebelo – São os valores de conteúdo moral ou os valores religiosos. Se você for buscar, por exemplo, referência em um livro sagrado importante de uma das religiões monoteístas, que é a bíblia, você vai encontrar valores e princípios que permanecem apesar de passados dois mil anos, como o princípio da solidariedade e do respeito aos que sofrem. Mas você encontra na mesma bíblia justificativa para coisas que não se sustentam mais, como para a submissão da mulher e até para a escravidão.  Você vê que se diferenciam, mesmo na bíblia, princípios do que são valores temporários. A escravidão era coisa do momento, já a solidariedade não, é aplicável em qualquer circunstância, embora esse valor entrasse em conflito, por exemplo, com a figura da escravidão.

Então, eu acho que alguns princípios permanecem, enquanto outras referências se alteram com as próprias transformações da sociedade. O que se justificava eticamente por um determinado período, naquela sociedade daquela época, passou a não se justificar depois.

ERA (Pedro Fernandes) – O senhor acha que a racionalidade tem um papel fundamental nessa universalidade da ética ou considera que os sentimentos, talvez a religião, sejam mais importantes?

Ministro Aldo Rebelo – Eu creio que nem tudo se explica e nem tudo se aplica a partir da razão e nem, também, a partir de valores apenas morais, religiosos ou sentimentais. Eu creio que a humanidade se alimenta do equilíbrio entre as duas coisas, entre a razão e entre valores e percepções que nem sempre a pura razão consegue alcançar.

ERA (Pedro Fernandes) – Gostaria de agradecer novamente ao ministro Aldo Rebelo pela entrevista concedida ao nosso grupo, e desejo boa sorte no exercício das suas funções públicas.

Ministro Aldo Rebelo – Eu quero aqui enviar o meu agradecimento e mandar, pelo Pedro, um abraço a todos e todas vocês.

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