Sendo você mesmo

“Eu era sempre a vida e alma das festas, flertando com todo mundo”, escreveu Lucille Howe, em ‘Fabulous Magazine’, em 22 de julho de 2010,  “mas eu queria que John se apaixonasse pelo meu eu real, mais quieto”. No mesmo artigo, Charlotte Ruhle mostrou como sua psicoterapia a ajudou a recuperar-se de um término de relacionamento. “Meus amigos começaram a dizer que eu… parecia mais com o meu antigo eu”.

A mídia e, de fato, nossas conversas ordinárias, estão inundadas por este tipo de linguagem. Não somente estamos conscientes – tendo uma compreensão que há um “eu” que está de alguma forma em continuidade com o “eu” que existia ontem, que vai, esperamos, existir amanhã, e a quem coisas acontecem – mas temos fortes convicções sobre a natureza do “eu”. Quando ele não pode expressar-se – para ser ele mesmo, nós reclamamos. Dependendo de nossa educação, nós dizemos expressões como: “fora de si”, “não sou eu mesmo” ou “ontologicamente vertiginosos”.

A noção de um eu central com características definidas atravessa nossa ética e nosso direito.  Alguém pode ser compulsoriamente tratado em virtude de doença psiquiátrica se não estiver em seu “sentido normal” (não é uma expressão jurídica, mas coloquial). O paciente com anorexia nervosa está sendo forçado a se alimentar, apesar de sua vontade expressa de morrer, porque, na visão da corte, não é realmente “ele” que deseja morrer. Um cirurgião pode ser persuadido a tirar membros de um paciente com transtorno dismórfico corporal até que o corpo do paciente represente a visão que ele tem de “si mesmo”.  Diretivas avançadas e a noção de julgamento substituto tateiam desajeitadamente em direção da satisfação dos desejos de um “eu” ideal.

Mesmo esta noção sendo pervasiva, ela é raramente (embora esteja aumentando [1]) identificada e discutida. Nós tendemos a dizer simplesmente: “Autonomia é o princípio guia”. Enquanto que, obviamente, o respeito pela autonomia é um ingrediente essencial para uma tomada de decisão ética e legal. Frequentemente, a injunção “respeito à autonomia” será irremediavelmente convidativo a questionamentos. Nós todos concordamos que existem situações na qual a autonomia não deveria ser respeitada. Normalmente é o caso quando o exercício da autonomia de X causará dano a Y. Sendo que, frequentemente, X e Y ocupam corpos diferentes. Mas por outras vezes não. E quando não ocupam corpos diferentes, devemos levantar perguntas inevitavelmente metafísicas (sim, sei que é uma palavra obscena na filosofia moderna) seguindo a linha: “Qual é a autenticidade do eu? Quais interesses autônomos devem prevalecer?”

Quando ficarmos atentos a esta questão, nós a veremos em todo lugar. Não porque estamos alucinando filosoficamente, mas porque ela realmente está em todo lugar. Sempre que alguém evocar a ideia de autonomia, nosso reflexo deve ser: “Autonomia de quem? Qual é o  ‘eu’ autêntico cujos interesses devem ser protegidos?”

A segunda parte desta questão é mais obviamente pertinente quando as facções concorrentes partilham uma pele e um cérebro. Mas elas não estão restritas a essa situação. Nós somos todos inevitavelmente, e por definição, seres relacionais. Nós só podemos ser definidos em termos de nexo de relações em que existimos e nas quais, em grande medida, consistimos. Daí o autêntico “eu”, cujos interesses autônomos devem superar os interesses autônomos do co-habitante “falso eu”, pode muito bem dar o seu endereço principal como “sociedade”, ou “família”, ou uma religião em particular. Às vezes, a competição vai ser sentida pela própria pessoa. Ela tem que decidir se quer viver ou morrer, mas quem tem o voto de minerva? Ela, enquanto uma mãe coruja, para quem ver os seus filhos por mais um dia é tudo?  Ela, enquanto um paciente cansado, no final da sua vida? Ela, enquanto um judeu religioso, nervoso de usurpar uma prerrogativa divina? Sempre que a pessoa pode sentir e apreciar suficientemente o fato e natureza da competição, ela (é claro) é quem melhor pode se pronunciar sobre os argumentos apresentados pelas várias vozes. Mas às vezes tal introspecção e autojulgamento será impossível. Isso pode ser porque a cognição é medicamente ou temperamentalmente impossível, ou porque as questões são simplesmente demasiadamente complexas (e não são elas normalmente?).

O que há para ser feito, então? Bem, obviamente, uma discussão começa apenas se a pessoa provedora do dilema puder se lançar nesta discussão. Mas se ela não puder, tal discussão pode acontecer com todas as outras pessoas envolvidas nas discussões sobre as tomadas de decisão em nome de um terceiro. Mas, convencionalmente deixadas de fora da agenda dessas discussões e de discussões envolvendo pacientes capacitados, estão questões importantes relacionadas com a identidade real da pessoa por ou em nome de quem uma decisão é tomada.

[1] Para exemplos recentes, ver Levy N, 2011, Enhancing authenticity. Journal of Applied Philosophy 28(3): 308-318, and Erler A, One man’s authenticity is another man’s betrayal: A reply to Levy, Journal of Applied Philosophy, Online First.

Texto original: http://blog.practicalethics.ox.ac.uk/2012/07/on-being-myself/

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Flora Tucci
Flora Tucci
Doutoranda em Filosofia pela Puc-Rio e psicanalista.
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