Série: O fenômeno da intensificação do trabalho no mundo contemporâneo

Parte 1: Transformações no setor produtivo e seus efeitos na intensificação do trabalho. 

Em 30 de março de 2011, foi publicado no site do ERA um artigo sobre intensificação do trabalho. A fim de retomar essa discussão, será apresentada uma pequena série de dois textos complementares que aprofundam essa questão. Neste primeiro artigo, o tema gira em torno da relação entre as transformações recentes no mundo do trabalho e seus impactos e consequencias para o cotidiano dos trabalhadores. Já na próxima semana abordaremos quais são os mecanismos que instrumentalizam a intensificação na prática das organizações.

As últimas três décadas foram marcadas por intensas transformações no mundo do trabalho. Nesse contexto, as relações de trabalho estáveis e descritas como empregos vem dando lugar a trabalhos flexíveis e constantemente mutáveis, pois não existem mais garantias de que estes sejam independentes da produtividade individual.[1]  Segundo Rosso (2008), o cenário contemporâneo indica uma desestruturação das relações de trabalho e os novos “trabalhos” contém graus superiores de intensidade. As mudanças abarcam o tipo de remuneração, a distribuição dos tempos e das condições de trabalho e as tarefas a serem executadas. O trabalho passa a ganhar em intensidade, a exigir maior empenho e a consumir mais energias do trabalhador. A análise das mudanças revela que estas trazem diversas repercussões sobre os profissionais, uma vez que as expectativas e demandas sobre os seus desempenhos são alteradas. Um dos aspectos mais problemáticos da atual dinâmica do trabalho, a intensificação, relaciona-se à forma como este é realizado e se refere ao grau de dispêndio de energia devotado pelos trabalhadores, em suas atividades. Quando a intensidade é grande, é exigido um empenho maior do trabalhador, seja física, intelectual, psiquicamente ou a combinação desses três elementos.[2]

Segundo Green (2001; 2004), algumas mudanças estruturais trouxeram maior facilidade para os trabalhadores mensurarem, motivarem e disciplinarem o próprio esforço. Para o autor, as técnicas empregadas visam a incrementar o nível de empenho investido no trabalho, assim como a aprimorar a qualificação e a competência dos trabalhadores. Algumas dessas técnicas e instrumentos propiciam a intensificação do trabalho, como o alongamento das jornadas; o aumento do ritmo e da velocidade do trabalho; o acúmulo de atividades; a exigência de polivalência e flexibilidade; a gestão por resultados; a remuneração variável; o trabalho em equipe, dentre outros. Subjacente a essas técnicas está o objetivo de fazer com que os profissionais se identifiquem com os objetivos da empresa e reconheçam a necessidade de devotarem esforços para trabalhar com mais afinco e atender a prazos menores, aumentando o potencial de competitividade das empresas. Alguns sistemas organizacionais lançam mão de práticas denominadas de alta performance para aumentar o senso de envolvimento dos trabalhadores e, consequentemente, incrementar a produtividade e os resultados alcançados por estes [3]. Todavia esse aumento de produtividade não é sem custo para os trabalhadores: stress, síndrome do burn-out e outras doenças ocupacionais tem se manifestado com mais intensidade no ambiente organizacional.[4]

Um dos principais estudiosos do tema, Green (2004) discute o processo de intensificação do trabalho e ressalta o fato de existir uma percepção de que há um incremento de tensão em muitos locais de trabalho. Para este autor, existem evidências que apontam para a intensificação do trabalho, ou seja, para o aumento das horas de efetivo trabalho produtivo, para cada hora da jornada de trabalho.  A intensificação do trabalho teria sido um ingrediente para o boom de produtividade das últimas décadas, entretanto, o autor questiona os impactos desse modelo de crescimento para o bem-estar dos trabalhadores.[5] A pressão externa do mercado trouxe, para as empresas, a preocupação com a redução de custos e aumento dos níveis de qualidade de seus produtos e serviços, com vistas a alcançar vantagens competitivas. Essa pressão foi, consequentemente, empurrada para a força de trabalho, que se tornou mais pressionada, tendo que despender maior esforço em seus trabalhos. Além disso, os níveis crescentes de insegurança causam receios de perda do emprego, o que também faz com que os esforços de trabalho sejam intensificados. Em suas pesquisas, o autor encontrou evidências de uma relação que associa a intensidade do trabalho às políticas de recursos humanos. Mudanças estruturais trouxeram maior facilidade para os trabalhadores mensurarem, motivarem e disciplinarem o próprio esforço. Ainda segundo o autor, as mudanças ora visam incrementar o esforço, ora visam aprimorar a qualificação e a competência dos trabalhadores. Muitas vezes, o que se busca é a identificação dos trabalhadores com os objetivos da empresa e isso é um imperativo que se traduz na aceitação dos mesmos das necessidades de devotarem suficientes esforços para atender a prazos menores, com vistas ao atendimento rápido das demandas dos consumidores e ao aumento da competitividade global das empresas.

As transformações no mundo do trabalho intensificaram a pressão por prazos mais apertados, aumentaram a demanda por flexibilidade e pelo desenvolvimento de mais habilidades por parte dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que diminuíram as horas de socialização fora do trabalho e ampliaram a insegurança quanto à permanência no mesmo. A modernização da tecnologia da informação, aliada ao desenvolvimento da comunicação interna nas empresas, aumentou a capacidade de monitoramento dos processos de trabalho, gerando mais pressões psicológicas sobre os trabalhadores. Dessa forma, a insegurança dos trabalhadores foi aumentada uma vez que os mesmos começaram a ver riscos decorrentes do não alcance das expectativas dirigidas a eles. Como consequência os indivíduos aumentam seus esforços com vistas a melhorar sua produtividade tanto qualitativamente, quanto quantitativamente.[6] Na mesma linha, Antunes (2006) ressalta que o trabalho mais estável está sofrendo uma pressão em direção à intensificação sem precedentes, uma vez que é requerida dos trabalhadores a plena disponibilidade e uma submissão aos mais diversificados horários de trabalho

Burke e Fiskenbaun (2009) destacam algumas características do trabalho intensificado que seriam as principais responsáveis pela maior pressão sobre os trabalhadores, tais como: a) o escopo de trabalho imprevisível; b) o trabalho sob prazos apertados; c) o escopo de responsabilidade relativo a mais de uma função; d) a ocorrência de eventos relacionados ao trabalho fora do horário regular; e) a necessidade de estar disponível 24h por dia; f) a responsabilidade direta por lucros e prejuízos; g) o grande volume de viagens; h) o grande número de reportes a diretoria e; i) presença física no local de trabalho por pelo menos 10h por dia. Os  autores concluíram que, atualmente, os profissionais estão trabalhando muitas horas por dia, em ritmo intenso, estão tendo períodos menores de férias, muitas vezes tendo inclusive que cancelá-las. Um ponto relevante abordado pelos autores é que esses mesmos trabalhadores reportaram amar os seus trabalhos. Eles alegam que o trabalho é estimulante e desafiador; que trabalham com profissionais de alto nível de competência; recebem pagamentos elevados e usufruem de poder, status e reconhecimento. Esta aparente satisfação com o trabalho, não obstante sua intensidade, também é relatada em outros estudos dedicados a abordar as organizações denominadas de alta performance.[7]

White et al. (2003) chamam de práticas de alta performance ou de alto comprometimento aquelas usadas para obter um alto esforço discricionário dos empregados. Essas práticas envolvem uma combinação da organização do trabalho e de políticas de recursos humanos que são usadas para prover maior participação na tomada de decisão, oportunidades de aprender novas habilidades e incentivo financeiro para oferecer esforço discricionário a serviço dos objetivos da empresa. Para os autores, essas práticas geralmente pressupõem desenvolvimento de carreira, treinamento e pagamento relacionado à performance.

Para Porter (2001), o engajamento das pessoas no trabalho parece ser cada vez maior na medida em que estão sendo solicitadas a fazerem sempre mais. O autor afirma que as iniciativas de mudanças organizacionais têm sucesso apenas através dos esforços das pessoas. Para ele, a tendência recente é que cada mudança implementada pelas empresas incremente as demandas sobre as pessoas, fazendo com que muitas se sintam “esticadas” até o limite, uma vez que a solicitação é que façam mais, com menos. Ainda segundo Porter (2001), a idéia de trabalho excessivo está contida em certa “ética do trabalho forte” definida nos seguintes termos: sempre no trabalho, o trabalho é inquestionavelmente a prioridade número um e, quanto mais trabalho, melhor.  Essa ética levaria as pessoas a trabalharem mais pesado a cada dia e reduziria suas oportunidades de tempo livre e lazer. Finalmente, como destaca Green (2001), é possível que a performance econômica possa ser aumentada através da aumento da pressão por maior esforço no trabalho, entretanto o autor argumenta que isso não é algo que possa apresentar um crescimento indefinido.

Tendo em vista essas repercussões causadas por mudanças nas relações de trabalho cabe entender como, na prática, a intensificação do trabalho se instrumentaliza Abordaremos essa questão na próxima semana.


[1] CASTEL, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salariado. Petrópolis: Vozes, 1998;

FAIRRIS, D; BRENNER, M. Workplace Transformation and the Rise in Cumulative Trauma Disorders: is there a connection? Journal of Labour Ressearch. Volume XXII, Number 1, winter 2001;

ANTUNES, R. Riqueza e Miséria do trabalho no Brasil. Editora Boitempo. São Paulo, 2006;

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999.

[2] GEORGE, D. Working Longer Hours: Pressure from the Boss or Pressure from the Marketers? Review of Social Economy, Vol LV nº 1, Spring, 1997;

PORTER, G. Workaholic Tendencies and the hight potencial for stress among co-workers. International Journal of Stress Management, vol 8, nº2, 2001;

CLARKBERG,M; MOEN, P. Understanding Time-Squeeze. American Behavioral Scientist, vol, 44. Nº 7, March 2001. pp.1115-1135;

GREEN, F. Why has work effort become more intense ? Industrial Relations, vol.43, n.4, p. 709-741, 2004;

ROSSO, S.D. Mais trabalho! A intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo: Boitempo, 2008.

[3]  WHITE, M; et al. High Performance Management Practices, Working hours and work-life balance. British Journal of Industrial Relations, 41: 2. June, 175-195, 2003.

[4] BURKE, R; FISKENBAUN, L. Work Hours, Work Intensity, and work addition: Risks and Rewards. In: CARTWRIGHT, S., COOPER, C. (Org.). The Oxford Handbook of Organizational Well-Being. Oxford: Oxford University Press, 2009, pp.267-299.                                                                                                                   

[5] GREEN, F. Why has work effort become more intense ? Industrial Relations, vol.43, n.4, p. 709-741, 2004.

[6] BOLTANSKI, L. e CHIAPELLO, E. The new spirit of capitalism. New York: Verso, 2007.

[7] MACKY, K; BOXALL, P. Hight-Involviment work processes, work intensification and employee well-being: a study of new zealand worker experiences. Asia Pacific Journal of Human Resources, 2008;

JOHANN, S. Gestão da Cultura Corporativa. Editora Saraiva. São Paulo, 2004.

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