Direita e Esquerda: Polarizações Políticas e Éticas – Parte I

A divisão entre direita e esquerda, tão usada nos dias de hoje, remonta à França do final do século XVIII. Ela tem sua origem no posicionamento dos deputados na Assembleia Nacional francesa no período revolucionário. Os que se sentavam à direita, em termos gerais, apoiavam a ordem político-social aristocrática e clerical, enquanto os que ficavam na esquerda defendiam o republicanismo e o secularismo.

Com as diversas mudanças na configuração política e social dominante de lá para cá, mudaram também as bandeiras políticas, mas a dualidade esquerda/direita parece ter se conservado ao longo do tempo, embora seu conteúdo também tenha se transformado.

No século XIX temos a consolidação da ordem econômica burguesa e do liberalismo. Em contraposição, surgem movimentos antiliberais sob uma ótica não tradicional, ou seja, sem que o ataque à ordem burguesa baseie-se em um retorno à realidade anterior. Este é um campo diverso que engloba anarquistas, socialistas, sindicalistas etc. Tal grupo é, então, associado à esquerda, enquanto a direita passa a ser associada, para além da defesa dos regimes monárquicos, à manutenção do liberalismo econômico.

Os acontecimentos históricos do começo do século XX transformam, sem negarem, o enquadramento anterior. Há uma grande cisão na esquerda, entre comunistas e socialdemocratas, cujos temas centrais eram a opção revolucionária e o posicionamento relativo à primeira guerra mundial. Ademais, alguns partidos socialdemocratas passam a assumir o poder em certos países europeus, tais como na Alemanha pós-primeira guerra. Tais grupos continuam afirmando muitos dos princípios da esquerda sem, no entanto, utilizarem o poder para a aniquilação da ordem liberal. Os comunistas, por sua vez, encontram expressão concreta na revolução russa. Em um processo de idas e vindas e de experimentações, essa revolução desemboca no chamado socialismo real, em que o Estado controla quase a totalidade dos meios de produção. Na contramão nasce, na mesma época, uma nova força política, que iria desestabilizar por completo a harmonia liberal consolidada no século XIX. O nazi-fascismo, forma política que conjuga coletivismo com raça e nação, se enraíza nas tradições e na força para atacar tanto o socialismo quanto o liberalismo. Apesar de ser antiliberal, ele passa a ser o paradigma da extrema-direita. Complementarmente, os comunistas se tornam o paradigma da extrema-esquerda.

Tal polarização política culmina na segunda guerra mundial. Este conflito, de dimensões sem precedentes, enfraquece quase até a extinção o campo político do nazi-fascismo. Os grandes vencedores são a União Soviética e os Estados Unidos. Os dois países seriam os principais protagonistas do próximo grande ciclo histórico, o da Guerra Fria. O mundo, neste ciclo, parece ser divido em dois grandes blocos, que representam dois sistemas políticos e econômicos antagônicos. No entanto, a própria ordem liberal, dominante apesar da bipolaridade internacional, já não era tão liberal como antes. A social democracia passa a ser a regra na Europa. O setor público e o privado, a intervenção estatal e a liberdade econômica, atuam lado a lado nos países europeus. Apesar disso, essa ordem socialdemocrata se alinha, na polarização global, com os EUA. Assim, no cenário internacional do pós-guerra, a esquerda, em linhas gerais, é uma figura que se atrela ao bloco socialista, e a direita ao bloco capitalista.

A emergência do choque cultural dos anos 60 balança essa estrutura anterior. A contracultura, a crítica ao conservadorismo e aos valores estabelecidos, a valorização da diversidade e da liberdade, constituem movimentos contestatórios normalmente associados à esquerda, mas põem sob ataque tanto o american way of life quanto o autoritarismo soviético. Além disso, eventos históricos como intervenções da URSS em Estados socialistas que buscavam reformar-se e a cisão sino-soviética fizeram com que a esquerda se fragmentasse. Concomitantemente, ela ganhava força em seu viés antiautoritário, movido pelo pacifismo e pela luta contra regimes ditatoriais apoiados pelos EUA. Na multiplicidade que passava a representar, a unidade da esquerda se enfraquecia, e o seu próprio conceito ia sofrendo mudanças.

De lá para cá, grande parte dos valores da contracultura foi incorporada à cultura hegemônica e o socialismo real foi praticamente derrotado. Eventos históricos como a queda do muro de Berlim e o 11 de setembro mudaram o mundo. A principal ameaça (ou, ao menos, a mais aparente) à ordem política e cultural dominante se dá através do fundamentalismo. Assim, a dualidade tratada assume significados diferentes dos que tinha antes. Alguns afirmam, inclusive, que tal formatação é insuficiente para representar os jogos políticos contemporâneos.

O fato, no entanto, é que direita e esquerda são termos amplamente utilizados hoje em dia, tanto como armas (utilizando os conceitos com um juízo de valor), quanto como meios de descrição das forças atuantes na política. Seja nos EUA, nos países europeus (e na própria União Europeia), no Brasil e em outros países da America Latina, tal modo de determinação dos campos políticos não dá sinais de estar no fim. É óbvio que a esquerda e a direita não são exatamente a mesma coisa em cada um dos cenários em que atuam. Realidades distintas acabam por configurar significados distintos, de modo que a direita brasileira, por exemplo, não é a mesma que a norteamericana. Observamos, no entanto, que, hoje em dia, a configuração de ambos os campos tende a ser contraditória, embora em sentidos opostos. A direita, em linhas muito gerais, se identifica com o liberalismo econômico e a intervenção estatal em questões culturais e morais. A esquerda, inversamente, costuma favorecer a intervenção estatal na economia, embora tendendo a ser liberal do ponto de vista cultural e moral (sentido norteamericano do termo liberal).

Notamos, portanto, que diversas figuras éticas transitam entre os dois polos políticos. No início a direita associava-se à aristocracia, ao privilégio legal de uma minoria e à religião. Em um momento seguinte passa a se associar à liberdade econômica, embora sem desvencilhar-se por completo de sua identidade anterior, visto que, até o começo do século XX, a maioria das grandes potências constituía-se pela conjugação de governos monárquicos com economias liberais. Dos participantes da primeira guerra mundial, por exemplo, apenas os EUA e a França eram repúblicas. Posteriormente, o autoritarismo, o nacionalismo e o racismo passam a serem valores que compõem o campo da direita. Não apenas através do nazifascismo, mas, também, através de regimes como os de Franco, Salazar etc.

Aqui, percebemos facilmente um imbróglio com a esquerda, encarnado, por exemplo, no trabalhismo de Perón e Getúlio Vargas. Afinal, como classificá-los? Eles têm diversos pontos em comum com o fascismo, notadamente o nacionalismo, mas, ao mesmo tempo, representam – para muitos, pelo menos – o progresso e a justiça social, típicas bandeiras da esquerda ao longo do século XX. O fato é que para estes líderes latino-americanos o progresso e a justiça social não podiam ser desvinculados do nacionalismo. Nesse sentido, será que o nacionalismo é um princípio próprio da direita ou será, então, que a posição do nacionalismo no espectro político depende da nação em questão e das circunstâncias envolvidas? Uma resposta possível, e bastante comum ao longo do século XX, é que o sentido político do nacionalismo depende, essencialmente, se ele é meio para perpetrar relações internacionais desiguais ou de dominação, tal como era – e ainda é – no caso dos países europeus, ou se é ferramenta para a afirmação político-econômica de países subdesenvolvidos (sentido que muitas vezes assumiu na América Latina e na África) [1]. Percebemos, aqui, que a questão de fundo guiando a orientação política do nacionalismo é a igualdade/diferença.  No próximo post (Direita e Esquerda: Polarizações Políticas e Éticas – Parte II) daremos continuidade a esta questão, verificando a relevância desta dicotomia (e de outras) para a divisão entre esquerda e direita.

[1] O marxismo-leninismo, talvez a principal corrente teórica da esquerda ao longo do século XX, aborda o nacionalismo de modo parecido.

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  • Ângela M. Ferreira de Oliveira

    Um bom jornalista, trabalha pelo amor a Profissão,é um dever do Sindicato Brasileiro, lutar par que seja proibido, um cidadão sem diploma, sem conhecimento, ocupar o lugar de um profissional. È uma falta de respeito para com o profissional e para com a profissão.

    Por isso nós da UNINASSAU<JORNALISMO<TEMOS TANTA ADMIRAÇÂO PELA A JORNALISTA PATRÌCIA MONTEIRO,QUE TEM AMOR PELO O JORNALISMO. JOÂO PESSOA PB
    ÂNGELA DE OLIVEIRA

  • Juliana Ribeiro

    Nas décadas que se seguiram à segunda guerra mundial (de 1945 até os anos 70) as correntes politicas de esquerda se fortalecem ou se enfraquecem no mundo?

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