Direita e Esquerda: Polarizações Políticas e Éticas – Parte II

Dando prosseguimento às ideias apresentadas na primeira parte deste texto – Direita e Esquerda: Polarizações Políticas e Éticas PARTE I - cabe considerar as reflexões de Noberto Bobbio. O renomado pensador italiano, em seu livro Direita e Esquerda, afirma que os campos da esquerda e da direita identificam-se, respectivamente, com movimentos no sentido da igualdade ou da desigualdade. Bobbio [2], para além dessa díade, pensa, também, em um uma segunda díade, relativa à liberdade e à autoridade. Dessa forma, esses dois últimos valores não são essenciais à divisão tratada neste texto. Quer seja a ordem política baseada na liberdade ou na autoridade ela identifica-se com a direita, se favorecer a desigualdade. Neste sentido, a ideia de totalitarismo, abrangendo tanto o nazifascismo quanto o socialismo real, não é essencialmente direcionada nem oriunda da esquerda ou direita. Ela integra este segundo eixo. A concepção do totalitarismo, apesar de incialmente ter uma conotação positiva (nasceu entre teóricos do fascismo) acaba por constituir uma condenação da utilização da autoridade estatal como um meio para um grande projeto, seja ele de esquerda ou de direita. Assim, fazendo do Estado um meio para um fim histórico pré-determinado, configurar-se-ia uma sociedade fechada em oposição a uma sociedade aberta. Grandes pensadores como Karl Popper e Friedrich Hayek têm um entendimento neste sentido.

Podemos nos perguntar, no entanto, em que medida tais classificações não já denotam um pertencimento a determinado campo político. Assim, na atribuição da essência igualitária à esquerda vemos claramente uma predileção por este campo. Ao mesmo tempo, a associação da direita à afirmação da autonomia individual, e da esquerda ao controle desta, tem o sentido inverso. Também, é difícil negar que a crítica ao totalitarismo foi instrumento, na Guerra Fria, do anticomunismo. A questão de fundo aqui é se o objeto descrito (esquerda/direita) não incide, previamente, sobre a descrição do objeto. É uma questão epistemológica profunda e complexa, certamente não sendo possível extenuá-la aqui. A respeito, cabe afirmar que, dando muita importância a esta questão, corremos o risco de nos aprofundarmos sem, no entanto, sairmos do lugar, tomando o fim pelo começo (e vice versa).

Devemos contemplar a possibilidade, também, de que os conceitos tratados não possam ser identificados a partir de uma essência, que, por ser essência, permearia tais conceitos desde a sua gênese até os dias de hoje. Podemos, no entanto, encontrar figuras e valores éticos que estão mais ou menos vinculados à ideia de esquerda ou direita. Assim, é razoável afirmar que ideias como transformação, igualdade, coletivismo e secularismo, são historicamente próximas da esquerda. Ao contrário, conservação, iniciativa privada, individualismo e religiosidade são ideias historicamente próximas da direita.

Utilizando a noção de proximidade, não precisamos estabelecer relações absolutas que, provavelmente, seriam negadas por certas realidades históricas (deixando, assim, de serem absolutas). Afinal, as próprias proximidades tratadas acima contêm elementos que são contraditórios entre si. Se o status quo dá prevalência à igualdade e à coletividade, a conservação desse status quo assume outra conotação política (ou transforma a conotação política da igualdade e do coletivismo, se atribuirmos primazia hierárquica à dualidade conservação/transformação). Ainda, se ao coletivismo associa-se a centralização do poder político e o culto à personalidade (que, afinal de contas, é um culto a um indivíduo), em que medida o ideal da igualdade está sendo plenamente realizado? Tais contradições, longe de serem apenas reflexões teóricas, se expressaram concretamente na experiência do socialismo real. Podemos encontrar, complementarmente, diversas contradições no polo oposto, tais como a característica revolucionária e anti-individualista do nazi-fascismo.  Sobre essas ideias, cabe também a reflexão de que, se elas estão mais próximas a um polo ou a outro, elas são próximas entre si. Neste sentido, pegando o campo da esquerda, a transformação (movimento histórico) tenderia à igualdade e ao secularismo? Novamente, uma abordagem essencialista, configurando relações necessárias entre esses elementos, teria como pressuposto a impossibilidade da realização plena da igualdade, por exemplo, visto que, se alcançada, a transformação deixaria de se relacionar positivamente com ela.

Por fim, incumbe denotar a importância atual do Oriente no cenário global e, consequentemente, na identificação da orientação política. Como dito anteriormente, o espectro político tem características semelhantes em praticamente todo o Ocidente, de modo que esquerda/direita é uma dualidade razoavelmente consolidada, até porque a gênese dessa díade é europeia. No entanto, o Oriente, com histórias e configurações políticas distintas, pode atribuir um sentido diferente a esses termos, tanto a nível regional quanto global. Países como a Índia e – principalmente – a China ganham força a passos largos na economia global e nas relações internacionais. Tradicionalmente tais países são associados à esquerda no cenário internacional. Contudo, a polarização Ocidente/Oriente não corresponde mais a polarização esquerda/direita desde o fim da Guerra Fria. A emergência dessas novas potências, a equiparação relativa entre países de terceiro e primeiro mundo (movimento no sentido da igualdade) é, pelo menos parcialmente, internamente baseada na lógica da desigualdade. A respeito basta analisar o caso da China que, dando prioridade ao progresso econômico, instituiu um sistema de capitalismo de estado (movimento no sentido do progresso e da desigualdade) sustentado pela centralização política. Ademais, eventos como a primavera árabe no oriente médio demonstram, ao mesmo tempo, anseios por liberdade e a força do fundamentalismo religioso. Essas novas configurações colocam novas questões e contradições, não só para esses países e regiões, mas para todo o mundo. À medida que as diferenças econômicas e políticas entre as nações diminuem (ou se invertem), de que modo valores como nacionalismo, igualdade, conservação, religiosidade e liberdade se alinharão no espectro político?

A resposta a esta pergunta caberá à história. Podemos, no entanto, esboçar uma conclusão formal a respeito da cisão esquerda/direita. A política é, por excelência, o domínio do conflito. A ideia (e a prática) da política está associada à ideia do embate. O conflito tende à polarização. Qualquer guerra (até mesmo qualquer esporte), por exemplo, tende a se dar entre dois blocos que se opõem. Assim, por mais que os motivos e interesses envolvidos sejam diversos, o conflito engendra duas unidades opostas, ou seja, engendra uma dualidade. Esquerda e direita podem ser pensadas, então, como uma topologia política, que articula a multiplicidade em uma dualidade conflitiva. Trata-se, aqui, de uma configuração formal, isenta de conteúdo. Concretamente, é claro, tais formas vazias são preenchidas de conteúdos distintos. Vimos, portanto, que, quanto ao conteúdo, certas figuras e princípios éticos costumam aparecer de um lado, enquanto outros aparecem mais no polo oposto. Se tais proximidades são, elas próprias, intercambiáveis do ponto de vista de uma narrativa histórica maior, significa que esquerda e direita têm somente identidade formal. Ao contrário, uma proximidade que se repete com o tempo, que costuma ocorrer, denota uma identidade de conteúdo.  Novamente, aqui, reaparece a questão da essência, aplicada a questão de se a proximidade é essencial ou acidental. Como dito antes, caberá à história demonstrar isso. O evidente, no entanto, é que, até o momento, é possível atribuir relações históricas de proximidade entre determinados valores éticos e o espectro político, o que indica a atualidade da dicotomia entre direita e esquerda.

 [2] Bobbio considerava-se de esquerda. Como social-liberal, buscava uma espécie de síntese entre socialismo e liberalismo. Era crítico do marxismo e do que chamava de extrema-esquerda (que identificava com a busca da igualdade através do cerceamento da liberdade) por entendê-los antidemocráticos.

Referências:

Bobbio, Norberto. “Direita e Esquerda” Ed. UNESP, 1995.

Sewell, Rob. Lenin on the national question; disponível em http://www.marxist.com/lenin-national-question160604.htm

The Telegraph, Scrap the meaningless terms Left and Right and reclaim the honourable title ‘reactionary’, por Gerald Warner. Disponível em http://blogs.telegraph.co.uk/news/geraldwarner/100048734/scrap-the-meaningless-terms-left-and-right-and-reclaim-the-honourable-title-reactionary/.

Dreyer, Iana. Political shifts in Western politics – Left, Right and Centre; Disponível em http://globalconditions.wordpress.com/2007/03/12/political-shifts-in-western-politics-left-right-and-centre/

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Comments
  • Edílio

    Texto prolixo. Todavia, com questionamentos bastante válidos.

    Acredito que a atual diferença entre a esquerda e a direita está mais ao modo de “inicio do jogo”, do que com práticas e valores.

    Se não tenho recursos e poder, apelo para o “bem comum” (sindicatos, associações, movimentos) como plataforma.

    Ao revés, com recursos/poder, o “lançamento” costumam ser direto, com campanhas midiáticas e outras práticas – muitas, eticamente condenáveis.

    Em comum, todo o jogo de interesses modelados pela ganância. Apenas.

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