1989 – Um fragmento precioso da história recente

O Brasil depois da Guerra Fria, de Arthur Ituassu (Puc-Rio/Apicuri, 2013) é uma viagem no tempo. O ano é 1989. O contexto internacional está em transformação. A crise no Brasil é sem precedentes. A partir de uma análise de artigos publicados na imprensa brasileira, o autor nos convida a reviver um momento histórico ímpar que os jovens universitários de hoje, já nascidos na era da informação e da Internet, jamais entenderão por completo. Apenas por esta razão, a leitura já valeria a pena. Mas o talento do autor para nos mostrar as ideias que circulavam naquele momento de redemocratização do país e que foram determinantes para as mudanças ocorridas nas duas últimas décadas, faz desta obra uma leitura obrigatória para todos aqueles que querem entender melhor o momento histórico em que vivemos.

Se nosso acesso à realidade é sempre mediado pela memória, o trabalho do pesquisador-historiador torna-se central para uma compreensão mais acurada do mundo atual, pois nos revela as ideias que precederam e ajudaram a determinar nossa situação. Nesse sentido, Arthur Itaussu nos convida a acompanhar o que chama de um “relato de uma expedição”, uma “arqueologia simbólica” sobre um período crucial de nossa história política recente e que nos força a relembrar as origens de nossos dilemas contemporâneos.[1]

Partindo da premissa de que o ano de 1989 guarda um “debate político precioso”, o autor realiza um trabalho de “sociologia interpretativa” em busca das ideias que circulavam na época sobre a situação política e econômica e sobre como o Brasil deveria lidar com o novo contexto internacional. Enfatizando o papel das ideias enquanto pré-requisito fundamental para a ação, o texto nos apresenta um panorama não apenas do último ano da década de 1980, mas de um ano especial que encerrou, simbolicamente, o curto século XX .

Considerando o cenário mais amplo da conjuntura internacional e a midiatização da política, o recorte da pesquisa direciona-se para a análise de artigos publicados – no formato extenso de opinião – pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo. Reconhecendo a impossibilidade de acessar a realidade “nua”, que acontece “fora” da mídia, o autor analisa o “conflito político discursivo de 1989″ a partir do conjunto de falas publicadas pelos dois jornais que, junto ao O Estado de S. Paulo, formam o núcleo central da imprensa brasileira influente. [2]

Assim, a partir da constatação de que a definição da realidade passa inexoravelmente pela midia e que a própria política atualmente é organizada como um fenômeno midiático, o livro nos convida a apreciar, sob o privilegiado ponto de vista da retrospectiva, o conflito discursivo que se travou naquele ano. Deputados, diplomatas, empresários, economistas, juristas e demais atores políticos de peso como Luis Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero, Roberto Campos, Maria Conceição Tavares, Marcio Thomaz Bastos, Dalmo Dallari, José Guilherme Merquior, Fernando Collor, são trazidos ao texto para nos relembrar as ideias que circulavam à época.

Para quem ainda guarda na memória o dia em que o muro caiu, O Brasil depois da guerra fria é uma leitura que nos faz viajar no tempo, quase como um filme que se passa diante de nossos olhos, nos fazendo reviver a percepção dominante à época, “a percepção generalizada de que o país vivia uma crise sem precedentes em sua história, com os problemas da inflação, da dívida externa e da corrupção política e social. Ao mesmo tempo, o ambiente global aparecia em estado de completa ebulição, com o fim da guerra fria, os desenvolvimentos tecnológicos e os processos de integração internacional das economias, a globalização”.[3]

Nesse contexto efervescente, ressalta o autor, a primeira eleição direta após décadas de regime militar foi permeada por uma discussão sobre o próprio modelo de Estado a ser implementado após a redemocratização do país. Além da inflação e da aguda crise financeira, no Brasil de 1989 discutia-se a abertura do país à globalização. O mundo está em plena transformação, o país mergulhado em profunda crise econômica e o Brasil corre o risco de ficar fora dos processos de integração econômica correntes.

Em 27 de março de 1989, Lula escreveu na Folha de S. Paulo: “Novos espaços de coordenação de políticas, acima dos Estados nacionais, estão se fortalecendo e novos desafios se apresentam. Mas uma certeza podemos ter: se há riscos para os países que participam dessa aventura histórica, riscos muito maiores existem para os países que ficam de fora”.[4]

Havia uma percepção geral do esgotamento do modelo desenvolvimentista – e protecionista – que reinava desde antes do Regime Militar. No entanto, a caricatura do neo-liberalismo, que vinculava os altos juros da dívida externa, a dependência de financiamento externo e dos “banqueiros internacionais” e demais imposições do chamado ‘Consenso de Whashington’, ajudava na resistência à abertura do Estado brasileiro ao comércio internacional. Nesse sentido, em 1989 produziu-se um intenso debate na mídia sobre a mudança do modelo intervencionista para modelo exportador. A resistência à abertura comercial chegou até ao carnaval carioca naquele ano. Como resgata o autor, em 16 de fevereiro, Carlos Tavares de Oliveira escreveu uma crítica no O Globo sobre o samba-enredo da Escola São Clemente que condenava “a remessa para o exterior do tesouro brasileiro”.[5]

Hoje, após 25 anos de intensa globalização e a partir da perspectiva que apenas o tempo pode nos oferecer, Arthur Ituassu nos convida a compreender as ideias debatidas em 1989 como um “fragmento precioso da tradição política brasileira”.[6]  Uma vez que “o liberalismo é muito sério para ser deixado nas mãos dos liberais”,[7] a leitura de O Brasil depois da Guerra Fria também nos convida a reconsiderar, para além dos rótulos, a importância que o liberalismo tem na constituição política da sociedade brasileira. Além da profusão de ideias que circularam graças à redemocratização do país, 1989 é um ‘fragmento precioso’ da história recente porque representa o ponto de partida para a invenção de um Brasil e de uma tradição política democrática genuinamente brasileira.



[1] Expressão usada por Gustavo Franco na orelha do livro : “Um raro e belo enunciado das origens esquecidas de nossos dilemas contemporâneos”.

[2] Capítulo “O Debate”, p. 43.

[3] p.44.

[4] Artigo: “Brasil: e agora?” p. 60.

[5] p. 82.

[6] p.45.

[7] p. 102.

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Rachel Nigro
Rachel Nigro
Doutora em Filosofia e Mestre em Direito pela Puc-Rio; professora dos departamentos de Direito e Filosofia, do Centro de Empreendedorismo e do Centro de pós-graduação em Filosofia Contemporânea.
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