Arte e Mancha Moral

Foi noticiado recentemente que a Tate Galery decidiu retirar cópias criadas pelo artista Graham Ovenden após sua condenação por crimes sexuais contra crianças no dia 02 de abril de 2013. A condenação de Ovenden em si levanta questões morais difíceis que não irei abordar aqui. Ovenden é (ou pelo menos era) um artista retratista célebre. Ele admitiu ter tirado fotos e pintado crianças nuas no curso da criação de seus retratos, alegando que, ao fazê-lo, foi com o objetivo de capturar as crianças no que ele chamou de seu “estado de graça”. Embora ele vigorosamente tenha negado as acusações de pedofilia ao longo do julgamento, Ovenden foi considerado culpado de seis acusações de indecência e uma acusação de atentado violento ao pudor.

Pode muito bem haver espaço para o debate sobre se Ovenden é um pedófilo ou apenas um inofensivo, embora esotérico, artista. No entanto, não vou responder a essa pergunta aqui e vou assumir completamente (com ou sem razão) que o tribunal está correto ao definir Ovenden como um pedófilo. Eu estou interessado na resposta da Tate Galery para a condenação, e, de forma mais geral, nas questões sobre a natureza da arte que são levantadas por este caso.

Pode-se afirmar que, se um artista é moralmente maculado, como Ovenden tem sido acusado, como consequência, seu portfólio automaticamente se torna moralmente maculado por associação. Neste contexto, o conceito de “mancha moral” é mais facilmente aplicado quando há uma clara relação entre o erro moral do artista e sua arte. O conceito é, portanto, facilmente aplicado no caso de Ovenden. Parece haver uma clara ligação entre o erro moral de Ovenden e a arte que ele criou, o que torna impróprio para a galeria continuar exibindo suas pinturas. As próprias pinturas retratam, e são o testemunho, do erro moral de Ovenden.

No entanto, nem sempre há uma clara relação entre os defeitos morais de um artista e sua arte. Parece que a forma de arte (ou estilo) empregada pelo artista é de grande importância aqui, já que a natureza de determinadas formas de arte (e / ou estilos) pode tornar mais ou menos difícil para as pessoas desassociarem uma obra de arte de sua inspiração moral questionável. Por exemplo, se você acredita que Ovenden é um pedófilo, então provavelmente é quase impossível para você dissociar suas fotografias de crianças nuas de sua pedofilia. Muitos, certamente, afirmariam que não poderiam apreciar a estética de tais fotos sabendo que o artista que as produziu era um pedófilo. Entretanto, suponha que as pinturas de Ovenden não fossem representações realistas de crianças nuas, mas pinturas conceituais bastante abstratas, que não se assemelhassem nem remotamente a uma criança nua, mas que, no entanto, fossem inspiradas por seu suposto desejo pedófilo por crianças pequenas. Será que a galeria teria justificativa para tirar essas peças? E se Ovenden tivesse se inspirado ao executar um quarteto de cordas por seu suposto desejo pedófilo ao invés de tirar uma fotografia? As gravações desse quarteto hipotético deveriam ser destruídas e performances futuras banidas?

Eu uso o exemplo de um quarteto de cordas porque é possível afirmar que a música instrumental é sem dúvida a forma de arte mais abstrata. Esta visão encontra apoio na filosofia de Schopenhauer. Schopenhauer afirmava que a contemplação estética permite que os seres humanos escapem momentaneamente do sofrimento que eles experimentam como criaturas que estão constantemente se esforçando (em virtude de serem conduzidos por uma insaciável vontade de vida). No entanto, ele considerava a música em particular como a mais alta forma de arte, porque somente a música representa a vontade em si (e, a fortiori, a própria realidade), enquanto outras formas de arte são meramente cópias herdadas do mundo como representação.

Embora não precisemos comprar a metafísica questionável de Schopenhauer, parece haver algo de importante em sua afirmação de que a música difere de outras formas de arte. Talvez seja algo que tenha a ver com o fato de que a música é a única que pode ser concebida e apreciada na abstração da contemplação da forma física. Eu não estou convencido de que essa seja a diferença fundamental, mas, qualquer que seja a diferença, é esclarecedor comparar o caso de Ovenden com o de um músico moralmente falho.

Talvez o mais famoso caso é o de Richard Wagner (que, também podemos reconhecer, endossou a teoria da estética de Schopenhauer). Wagner é um dos compositores mais célebres de todos os tempos e seria difícil argumentar que ele era tudo menos um compositor altamente proficiente. No entanto, Wagner também era um anti-semita, que publicou um ensaio notório atacando a influência judaica na cultura alemã. Por esta razão, embora seja muito debatido se o anti-semitismo de Wagner colide com seus dramas musicais, muitos judeus se recusam a ouvir a sua música: nenhuma das óperas de Wagner foi tocada no estado de Israel. No entanto, elas ainda são muito populares fora de Israel, apesar do fato de que a maioria das pessoas sabe sobre as desagradáveis ​​visões políticas do compositor. Assim sendo, parece plausível afirmar que muitas pessoas parecem capazes de dissociar a música de Wagner de seu anti-semitismo.

Talvez essas pessoas acreditem que o anti-semitismo  de Wagner não influenciou a sua música de nenhuma forma, e que, portanto, é possível dissociar completamente os dois. Embora evidências possam sugerir que esta é uma posição difícil de manter, a possibilidade de dissociação aqui pode ser tomada para representar uma diferença crucial entre o caso de Ovenden e Wagner. Entretanto, suponha que evidências viessem à tona sugerindo que uma das mais amadas obras de Wagner foi, sem dúvida, inspirada pelo sentimento anti-semita. Tal revelação levaria à proibição de quaisquer performances futuras? Eu acho difícil de acreditar (embora seja uma questão totalmente diferente se isso deveria ser feito). A razão parece ser que, mesmo à luz de tais provas, ainda parece possível dissociar a música de seu assunto ou inspiração de um modo que não parece possível quando a obra de arte em questão é uma representação realista de algo moralmente deplorável, ou é uma representação realista inspirada por algo moralmente deplorável. Se estou certo, então isso sugere que um fator que contribui para a reação da Tate Galery no caso de Ovenden é a natureza de sua forma de arte, e mais especificamente, o seu realismo. Nossa posição parece ser de que a arte moralmente contaminada deve ser banida se for impossível dissociar a sua inspiração moralmente deplorável, mas isso não precisa acontecer, se a obra de arte e sua inspiração possam ser dissociadas. Embora eu não ofereça conclusões concretas aqui, levanta-se a intrigante questão de saber se essa posição é filosoficamente válida: podemos consistentemente concordar com a decisão da Tate Galery e achar que é permitido ouvir Wagner?

Texto originalmente publicado em http://blog.practicalethics.ox.ac.uk/2013/04/art-and-moral-taint/

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Flora Tucci
Flora Tucci
Doutoranda em Filosofia pela Puc-Rio e psicanalista.
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