Entrevista com Luc Bégin sobre os desafios da Ética Aplicada

LUCIDÉA – Instituto de Ética Aplicada da Universidade de Laval – é um grupo de ética aplicada do Québec que, assim como a Cátedra de Ética Aplicada da Universidade de Sherbrooke, Montréal, dirigida por Andre Lacroix, contribui para a reflexão sobre modos de efetivação da ética, ou seja, sobre os processos e mecanismos de tomada de decisão que permitem a transformação da cultura ética de uma organização pública ou privada.

O ERA, sempre buscando compreender melhor os desafios na aplicação da ética nas organizações, se nutre das experiências desses outros grupos, para seguir no processo de construção de uma cultura ética. Nesse sentido, o objetivo desta conversa com Luc Bégin foi conhecer melhor o modo de funcionamento do grupo que nasceu em 2004 e os obstáculos que enfrentaram em seu caminho.

 ENTREVISTA:

ERA: Nós gostaríamos que você nos falasse sobre o Grupo de trabalho que você dirige. Quais são seus objetivos, suas metodologias, seu modo de funcionamento?

LUC BEGIN: O Instituto de Ética Aplicada da Universidade de Laval em Québec foi criado em 2004 por iniciativa do Vice-Reitorado de Pesquisa e Inovação e da reunião de três Faculdades de nossa Universidade: Filosofia, Ciências Sociais e Teologia e Ciências Religiosas. Depois, três outras Faculdades se juntaram ao projeto: Direito, Medicina e Ciências da Administração. Duas preocupações maiores animaram a criação do Instituto: por um lado, buscar responder de modo ordenado e estruturado à demanda social sobre a ética, muito forte em nossa sociedade atual; por outro lado, trata-se de uma oportunidade de tirar do isolamento os professores que se interessam por estas questões, que não encontram interlocutores em seu próprio departamento.

Nós buscamos, nesse sentido, favorecer as trocas entre os professores-pesquisadores, facilitar a criação de equipes de pesquisa e criar um ambiente favorável à formação dos alunos, de futuros profissionais e de futuros pesquisadores. Trata-se também de contribuir para o desenvolvimento de conhecimentos e de práticas no interior dos diversos campos da ética aplicada.

O IDÉA é, portanto, um agrupamento fortemente interdisciplinar. Nele reunem-se cerca de vinte professores-pesquisadores (que estão realmente implicados nas atividades do Instituto) e o mesmo número de estudantes graduados. Os trabalhos, conferências, ateliers e outras atividades se inscrevem nas linhas de pesquisa e de intervenção seguintes: i) ética pública, organizacional e profissional; ii) ética social e econômica; iii) ética e saúde. Nós valorizamos muito a interação dos estudantes em nossas atividades e nos esforçamos também para animar o debate público atuando sobre diferentes auditórios e organizando conferências direcionadas a público variado.

Não podemos falar propriamente de uma metodologia adotada pelo conjunto de professores-pesquisadores do IDÉA. Desde o início do Instituto eu me esforcei, enquanto diretor, para tornar possível a coexistência de perspectivas, métodos e visões diversas. Entretanto, certos reagrupamentos de professores ocorreram em torno do compartilhamento de preocupações e convicções ao mesmo tempo práticas e teóricas. É o caso da linha de pesquisa sobre “ética pública, organizacional e profissional”, que é hoje a mais estruturada e a mais ativa de nossas linhas de pesquisa e intervenção. Essa linha reagrupa alguns professores muito ativos em pesquisa e em intervenção nas organizações, sobretudo públicas e profissionais (suporte para a colocar em prática infraestruturas éticas, diagnosticar as infraestruturas existentes, desenvolver atividades de formação etc). Relacionado a esta linha, o IDÉA oferece há dois anos, uma escola de verão com cursos de três dias direcionados a gestores, profissionais e outras pessoas, buscando ir ao coração do desenvolvimento da ética dentro das organizações.

 

ERA: Quais são os projetos atuais e as perspectivas futuras do Grupo?

LUC BEGIN: Nós queremos dinamizar as duas outras linhas do Instituto e continuar desenvolvendo nossa linha mais ativa. Com relação a esta última, nós trabalhamos hoje com diversos organismos públicos e profissionais que se interessam pela ética na gestão de suas respectivas organizações. Nós desenvolvemos também uma porta de formação continuada que se dirige a grupos específicos de profissionais. Esta iniciativa ainda resta embrionária, mas promete ser um caminho interessante de intervenção na esfera pública que merece ser desenvolvida.

Eu desejo que nossas três linhas alcancem no futuro próximo um estágio de maturidade ainda mais avançado, de modo que possamos contribuir ainda mais no desenvolvimento de conhecimentos e no desenvolvimento de práticas sociais e profissionais mais preocupadas com a ética. Um melhor equilíbrio entre as três linhas contribuirá igualmente para estimular cada equipe a atuar ainda mais e melhor, o que será necessariamente vantajoso para todos, aí compreendidos os estudantes graduados que formamos.

Seria também muito vantajoso poder ganhar uma Cátedra para nosso Instituto. Isso permitiria garantir os recursos finaceiros que necessitamos para nossas atividades e consolidar certas expertises que desenvolvemos em pesquisa e intervenção. Um projeto nesse sentido fracassou no ano passado, mas não perdemos a esperança para o futuro.

 

ERA: Um dos objetivos do ERA é romper as barreiras da Universidade buscando reunir o trabalho  teórico com a realidade das empresas e organizações públicas. Entretanto, essa relação mais direta revelou-se mais difícil do que imaginamos no início. Nós encontramos diversos obstáculos e resistências que fomos identificando no caminho e que buscamos ultrapassar no futuro. Vocês se encontraram em situação parecida? Que obstáculos o seu grupo de ética aplicada encontrou no terreno concreto?

LUC BEGIN: O contexto no Québec é atualmente muito receptivo às questões sobre ética. Nós podemos mesmo dizer que temos mais demandas de suporte do que podemos responder. De todo modo, as expectativas quanto ao nosso trabalho estão longe de corresponder a nossa efetiva disponibilidade de serviços. Algo que é geralmente solicitado é a orientação na produção de documentos normativos (cartas, códigos etc) que, de uma perspectiva essencialmente dirigista, conformista e comportamental, deveriam por si só, resolver os problemas encontrados.

Nós trabalhamos a partir de uma perspectiva que valoriza a reflexão concreta e a tomada de decisão responsável pelos diversos atores da organização. Existe, portanto, uma certa assimetria entre a demanda e a oferta que geram resistências por parte dos “clientes” do Instituto. Nós temos a tendência de propor às organizações a introdução de certos processos e mecanismos que melhorem a cultura ética no seio da organização; isso requer uma vontade por parte dos dirigentes e dos gestores assim como uma certa visão das coisas que não se reduz ao curto prazo. Nós sabemos que isso contraria os modos de gestão e de organização atuais do trabalho que valorizam o curto prazo e as “soluções miraculosas” que não devem ter outro impacto sobre a organização, a não ser resolver o problema encontrado.

Nós conseguimos, de toda maneira, estabelecer relações diretas com certas organizações e formar profissionais e gestores que se inscrevem em nossos cursos de formação e nos nossos programas de estudo em ética aplicada. Estas são, portanto, algumas conquistas importantes que nos permitem continuar aprimorando nossa contribuição social.

 

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Question : Nous souhaiterions que vous nous parliez de votre groupe de travail !
Pourriez-vous le décrire, nous présenter ses objectifs, ses méthodologies? Comment fonctionne-t-il?

Réponse : L’Institut d’éthique appliquée de l’Université Laval à Québec (IDÉA) a été créé en 2004 à  l’initiative du vice-rectorat à  la recherche et à la création ainsi que de trois facultés de notre université : philosophie, sciences sociales, et théologie et sciences religieuses. Depuis, trois autres facultés se sont ajoutées : droit, médecine et sciences de l’administration. Deux préoccupations majeures ont motivé la création de cet Institut : d’une part, chercher à répondre de manière structurée et concertée à la demande sociale d’éthique, très forte dans notre société; d’autre part, il s’agissait de sortir de l’isolement les professeurs s’intéressant à ces questions à partir de leur discipline et ayant souvent peu d’interlocuteurs dans leurs départements. Nous visions par-là à favoriser des échanges entre ces professeurs-chercheurs, à faciliter la création d’équipes de recherche, à créer un milieu favorable à la formation des étudiants, des futurs professionnels et des futurs chercheurs. Il s’agissait aussi bien entendu de contribuer au développement des connaissances et des pratiques dans les divers champs de l’éthique appliquée.

L’IDÉA est donc un regroupement très fortement multidisciplinaire. On y retrouve une vingtaine de professeurs-chercheurs (variablement impliqués dans les activités de l’Institut) et autant d’étudiants gradués. Les travaux, conférences, ateliers et autres activités s’inscrivent dans les axes de recherche et d’intervention suivants : éthique publique, organisationnelle et professionnelle; éthique sociale et économique; éthique et santé. Nous valorisons beaucoup l’implication des étudiants dans nos activités et nous nous efforçons aussi d’animer le débat public en intervenant sur différentes tribunes et en organisant des conférences midi qui s’adressent à des publics variés.

Il n’y a pas à proprement parler de méthodologie retenue par l’ensemble des professeurs-chercheurs de l’IDÉA. Depuis les touts débuts de l’IDÉA, je me suis efforcé à titre de directeur de rendre possible la cohabitation de perspectives, méthodes et approches diverses. Néanmoins, certains regroupements de professeurs se sont faits autour d’un partage de préoccupations et de convictions à la fois théoriques et pratiques. C’est le cas pour l’axe d’éthique publique, organisationnelle et professionnelle qui est présentement le plus structuré et le plus actif de nos axes de recherche et d’intervention. Cet axe regroupe quelques professeurs très actifs en recherche et en intervention auprès d’organisations surtout publiques et professionnelles (soutien à la mise en place d’infrastructures éthiques, diagnostic des infrastructures en place, développement d’activités de formation, etc.). En lien avec cet axe, l’IDÉA offre d’ailleurs depuis deux ans une école d’été de trois jours qui s’adresse aux gestionnaires, professionnels et autres personnes ayant à cœur le développement de l’éthique dans leur organisation.

Question : Quelles sont vos projets
actuels et vos souhaits pour le futur?

Réponse : Nous visons à dynamiser les deux autres axes de l’IDÉA et à poursuivre le développement de notre axe le plus actif. Concernant ce dernier, nous travaillons présentement avec différents organismes publics et professionnels qui s’intéressent aux questions d’éthique dans la gestion de leur organisation. Nous avons également développé un volet de formation continue qui s’adresse spécifiquement à des groupes de professionnels. Cela demeure encore assez embryonnaire mais il s’agit d’une avenue intéressante d’intervention dans la sphère publique qui vaut d’être développée.

Je souhaite que nos trois axes parviennent dans un futur rapproché à un stade de maturité encore plus avancé, de manière à ce que nous puissions contribuer davantage au développement des connaissances et au développement de pratiques sociales et professionnelles davantage soucieuses d’éthique. Un meilleur équilibre entre nos trois axes contribuerait également à stimuler chacune des équipes `a performer encore davantage, ce qui serait nécessairement `a  l’avantage de tous, y compris les étudiants gradués que nous encadrons.

Il serait également très bénéfique de pouvoir greffer une Chaire de recherche à notre Institut. Cela permettrait de mieux assurer les ressources financières dont nous avons besoin pour nos activités en plus de consolider certaines de nos expertises en recherche et intervention. Un projet en ce sens a malheureusement échoué l’an dernier mais nous ne perdons pas espoir pour l’avenir.
Question : Un des objectifs majeurs du projet ERA est d’ouvrir l’enceinte de l’université, en cherchant à joindre le travail théorique à la réalité des entreprises et des organisations publiques.  Cependant, cette relation directe s’est avérée plus difficile que nous l’imaginions. Nous avons rencontré divers obstacles, voire même des résistances que nous identifions au fur et à mesure et que nous espérons un jour surmonter.
Vous êtes-vous trouvé dans la même situation? Quels obstacles votre groupe d’éthique appliquée rencontre-t-il sur le terrain et comment les appréhendez-vous?

Réponse : Le contexte québécois est présentement très réceptif aux questions d’éthique. En fait, nous pouvons dire que nous avons davantage de demandes  de soutien que ce à quoi nous pouvons répondre. Toutefois, les attentes à notre endroit sont loin de toujours correspondre à notre offre véritable de service. C’est qu’il est souvent attendu que nous soutenions la production de documents normatifs  (chartes, codes, etc.) qui seraient supposés régler par eux-mêmes les problèmes  rencontrés  et ce, dans une perspective essentiellement dirigiste, conformiste et  comportementale. Or nous travaillons plutôt dans une perspective qui valorise la réflexion en situation et la prise en charge responsable par les différents acteurs de l’organisation de la dimension éthique de la vie au travail. Il y a donc un certain écart entre la demande et l’offre qui entraine souvent des résistances de la part des «clients» de l’IDÉA. Nous avons tendance à proposer aux organisations d’introduire certains processus et mécanismes devant aider à améliorer la culture éthique au sein de l’organisation; or cela demande une volonté de la part des dirigeants et des gestionnaires ainsi qu’une certaine vision des choses qui ne se réduit pas au court terme. On comprendra aisément que cela va à l’encontre des modes de gestion et d’organisation actuels du travail qui valorisent le court terme et la «solution miracle» qui ne devrait pas avoir d’autre impact sur l’organisation que de régler le problème rencontré.

Nous avons tout de même l’avantage de pouvoir développer des relations directes avec certaines organisations, en plus de former des professionnels et gestionnaires qui s’inscrivent à nos formations et à nos programmes d’étude en éthique appliquée. Ce sont certainement des acquis très importants qui devraient nous permettre de continuer à améliorer notre contribution sociale.

 

Tradução: Rachel Nigro

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