A sustentabilidade a partir da “biologia-cultural” de Humberto Maturana

A questão do desenvolvimento sustentável na visão de Maturana1 é regida pelo fenômeno da biologia-cultural. Ou seja, ela emerge do inconsciente coletivo a partir do nosso viver em redes de relações ancoradas em conversações. Nesse sentido, este autor nos chama a atenção para olhar a dinâmica oculta por trás do conceito de sustentabilidade.

Para Maturana, é preciso compreender que o problema ecológico não está na degradação que empresas e comunidades humanas geram no ambiente em que se encontram ao retirar elementos e descartar resíduos. Isto todos os seres vivos fazem em sua relação com o meio em que vivem. O problema está na irresponsabilidade e inconsciência com que nos comportamos nesta relação em face da capacidade de regeneração e suporte deste meio.

É senso comum que nós, seres humanos, somos os animais que geramos as maiores transformações na biosfera e, cada vez mais, com maior velocidade. Nesse curso, estamos extraindo recursos naturais mais rapidamente do que a natureza pode repor, resultando em pobreza e gerando destruição ambiental com o lançamento de resíduos em quantidades que a terra não pode absorver.

O ponto para Maturana não é a dinâmica da transformação em si, pois esta é inevitável e vivemos e evoluímos neste processo contínuo e recursivo. O foco é, portanto, no modo como transformamos o nosso entorno a partir da nossa capacidade de nos relacionar como seres ativos nas redes entrelaçadas de conversações sobre os caminhos de desenvolvimento do habitar humano no planeta.

Sob este ponto de vista, para compreender mais a fundo a dinâmica de transformação a qual todos estamos submetidos, precisamos assimilar o entendimento de que o viver cultural humano se constitui a partir de redes de conversações que modulam o curso do fluir biológico de nossa espécie. Isso porque a abordagem epistemológica de Maturana apresenta nossa evolução a partir do entrelaçamento recursivo que surge com a linhagem humana nas redes de conversações transgeracionais. A biologia-cultural, nesse conjunto, é justamente o âmbito relacional-operacional no qual ocorre este processo na nossa história evolutiva.

Ou seja, nessa visão, a Humanidade começa com o surgimento da linguagem a partir do entrelaçamento do viver humano em redes de conversações. São as conversas sobre os afazeres cotidianos que propiciam espaço para mudá-los e o aparecimento de novos afazeres, possibilitando mudanças organizacionais2. Dentro desta perspectiva, são os nossos hábitos de pensar e atuar no mundo que dão forma aos padrões e hábitos coletivos e às realidades institucionais que constituem os sistemas maiores dos quais fazemos parte.

Nesse sentido, Maturana diz que o fluir humano na biologia-cultural constitui um viver gerador de mundos. Isso porque o viver humano enquanto viver cultural em redes de conversações dá origem a distintos modos de conviver, que constituem os distintos mundos biológicos-culturais que vivemos como distintas realidades.

Assim, a partir desta ótica, a sustentabilidade não é um processo que faz parte das dinâmicas ecológicas da biosfera. De fato, como lembra-nos Maturana, no mundo natural não há nem sustentabilidade nem insustentabilidade. Criamos esta distinção para demarcar certo âmbito de processos que gostaríamos de ver em curso. Dessa forma, por esse pensamento, a sustentabilidade deve ser olhada como uma cultura, que é o nicho gerado pelos seres humanos ao habitar o meio social.

A emergência da cultura de sustentabilidade passa, então, por uma mudança na configuração do atuar e do emocionar dos membros das redes fechadas de conversações. Estas, segundo Maturana, estão produzindo recursivamente a geração, realização e conservação das condições de possibilidade para a manutenção do bem-estar da antroposfera e da biosfera a partir da preocupação e ocupação ética pela sustentabilidade, tanto no espaço ambiental como no econômico, empresarial, governamental, interestatal entre outros.

Para Maturana, entender que a sustentabilidade é uma rede de conversações nos possibilita tomar a consciência de que a responsabilidade fundamental por ela está em nossas mãos. Nas palavras do autor3:

(…) a biosfera não fará nada pela sustentabilidade, embora sem dúvida os processos sistêmicos-sistêmicos que a constituem nos revelarão, se soubermos olhar, a co-deriva de nossos diferentes modos de viver e o curso resultante.

 

Maturana pontua, ademais, que ainda vivemos na negação sistemática das condições relacionais que tornam possíveis o nosso desenvolvimento num processo capaz de gerar e conservar uma convivência social de colaboração, de honestidade, no mútuo respeito e bem-estar, que são os fundamentos da convivência democrática.

Para este autor, nossas esperanças estão sendo todas depositadas em uma suposta “onipotência tecnológica”. No entanto, ainda segundo Maturana, vivemos uma confusão enorme ao pensar que os problemas humanos em geral se resolvem todos apenas com a tecnologia ou com a ciência. Para o pensador, nem a ciência nem a tecnologia resolvem os problemas humanos, pois eles são todos de relação, pertencem à emoção. A partir dessa perspectiva, a convivência humana se baliza a partir da possibilidade de nos escutar e de nos respeitar nas discrepâncias. A característica relacional fundamental, assim, para a viabilização da vida associada é, primeiramente, a aceitação do outro como um ser legítimo na convivência4.

Pela abordagem epistemológica de Maturana, são, de fato, as emoções, os desejos e as preferências que determinam os argumentos racionais que usamos para fazer ou não fazer alguma coisa. Assim, a confiança mútua deve ser o fundamento vital da convivência humana. Ao desacreditar, negar e invalidar a possibilidade de que a preocupação, o cuidado com o outro e a conduta ética estejam no centro de nosso atuar individual e social espontâneo, nos furtamos da nossa própria potência como criadores de mundos e inviabilizamos qualquer projeto global de desenvolvimento sustentável.

1)       MATURANA, H. et al. Matriz Ética do Habitar Humano. 2009. Disponível em: <http://www.4-shared.eu/download/9WiHe7IJIPvVzhfRvR8Pm/MATURANA-Humberto-et-all-2009-Matriz-%C3%89tica-do-Habitar-Humano.html>. Todas as citações e referências a este autor tem origem neste documento.

2)       LEITÃO, S. P.; FORTUNATO, G.; FREITAS, A. S. “Relacionamentos interpessoais e emoções nas organizações: uma visão biológica”. Revista de Administração Pública (RAP), 40(5): 883-907, SET/OUT, 2006.

3)       MATURANA, H. et al. Matriz Ética do Habitar Humano. 2009, p. 17.

4)       LEITÃO, S. P.; FORTUNATO, G.; FREITAS, A. S. “Relacionamentos interpessoais e emoções nas organizações: uma visão biológica”. Revista de Administração Pública (RAP), 40(5): 883-907, SET/OUT, 2006.

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  • Gildson Gomes dos Santos

    As reflexões de Humberto Maturana são confortantes. O mundo teria muito a ganhar se o escutássemos.

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