Ética na Internet e nas Redes Sociais

 

O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) comunicou na sexta-feira passada, dia 04 de abril, que os dados da pesquisa na qual 65,1% dos entrevistados concordavam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” estavam errados. Segundo esclareceu o Ipea, a porcentagem correta é 26%. O Ipea é um órgão da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e a divulgação do dado errado levantou polêmica e causou a reação indignada de vários grupos, levando o diretor de Estudos e Políticas Sociais deste órgão a pedir exoneração do cargo.

Entre as diversas questões que este evento evoca, pode-se questionar se a maneira como a pergunta foi formulada já não traz ela própria um tipo de preconceito e induz a certo tipo de resposta. Afinal, é claro que ninguém merece ser atacado seja por que motivo for. Agressão é crime, sofrer violência não é algo que alguém possa “merecer” em qualquer hipótese. A pergunta poderia ter sido formulada de maneira diferente, por exemplo, “mulheres que usam roupas que mostram o corpo correm o risco de ser atacadas?”, o que colocaria a ênfase no agressor e poderia levar a outro tipo de resposta.

Mesmo que o percentual seja mais baixo do que o inicialmente divulgado, 26% no lugar de 65,1%, ainda assim é um número bastante preocupante, e o que deveríamos esperar é que fosse “zero”. A divulgação desses dados veio se somar à propaganda veiculada pela Rádio Transamérica em São Paulo de que vagões cheios no metrô são ideais para “xavecar as mulheres”, referindo-se a práticas de “encoxar” mulheres nesses vagões, o que tem levado a denúncias de abuso no metrô. A propaganda preconceituosa foi retirada do ar logo após protestos indignados.

São apenas duas amostras, dois exemplos recentes da forte presença do preconceito de gênero em nossa sociedade e de que persiste uma imagem da mulher que levanta, no mínimo, grandes preocupações quanto a nossos valores, crenças, atitudes. Por outro lado, trazem à tona também o papel dos meios de comunicação, da mídia em geral e também de redes sociais, sobretudo blogs e facebook, cada vez mais populares e usados de maneira ampla.

É necessário aprofundarmos o debate sobre a ética nos meios de comunicação e nas redes sociais. Opiniões veiculadas, respostas a questionários, propagandas preconceituosas e de mau gosto são reflexos de crenças e formas de comportamento ainda encontradas em nossa sociedade. Devemos combatê-los pelo debate crítico, pela educação para a cidadania e também pela lei. O Brasil tem há bastante tempo legislação avançada nessa área, sendo que um dos melhores exemplo é a Lei Afonso Arinos contra o preconceito racial que data de 1951. Mas, as transformações, se significativas por um lado, tem sido lentas por outro, como os dois casos mencionados acima revelam.

Podemos ver, contudo, como o facebook e os blogs, se muitas vezes servem para veicular opiniões preconceituoss, podem também servir para debatê-las, denunciá-las, combatê-las. A liberdade de opinião e de expressão são pressupostos fundamentais da democracia, da mesma maneira o respeito ao outro e o direito à privacidade.

  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Add to favorites
  • email
  • Google Buzz
  • LinkedIn
  • Orkut
Danilo Marcondes
Danilo Marcondes
Doutor em Filosofia, professor, Departamento de Filosofia, Coordenador do projeto ERA.
Related Posts
Comments

Leave a Comment