Desafios éticos da sustentabilidade

PROJETO NIMA-ERA

Nesta terça-feira, 3 de junho de 2014, inicia-se a XX˚ Semana do Meio-Ambiente da PUC-Rio. À convite do NIMA, o ERA organizou a Mesa “desafios éticos da sustentabilidade” visando discutir a atual crise ambiental de maneira interdisciplinar. Nesse sentido, convidamos um filósofo contemporâneo, um doutor em ciências climáticas e um pesquisador de redes digitais no intuito de fomentar uma discussão que, além de defender a importância da mudança de comportamento diante da crise ambiental, também possa nos indicar novos caminhos a seguir na busca de tal transformação cultural. A seguir, apresentamos algumas reflexões filosóficas sobre o campo da ética e sua relação com o discurso da sustentabilidade. Esperamos poder aprofundar o tema nos quatro dias de debates desta XX˚ Semana dedicada ao Meio Ambiente que o NIMA organiza na PUC-Rio.

O campo da Ética é bastante vasto. A partir de uma perspectiva filosófica, a Ética pode ser definida como o ‘campo de saber’ que dedica-se à reflexão sobre a moral. Utilizando o rigor conceitual e os métodos de análise próprios da Filosofia, a Ética pretende desdobrar conceitos e argumentos que nos permitem compreender a dimensão moral da pessoa humana. Como sinônimo de Filosofia Moral, a Ética busca esclarecer reflexivamente o campo da moral, dar conta racionalmente da dimensão moral humana propriamente dita, dimensão esta que não se confunde com seus componentes psicológicos, sociológicos, econômicos, apesar de não deixar de reconhecer que tais elementos condicionam o mundo moral. De modo amplo, podemos afirmar que hoje a ética é uma das áreas de maior relevância na Filosofia, sobretudo porque diz respeito diretamente à nossa experiência cotidiana, levando-nos a uma reflexão sobre os valores que adotamos, sobre o sentido de nossas ações, sobre o modo como tomamos decisões e assumimos responsabilidades em nossa vida. (MARCONDES, 2007, p. 9)

A palavra “ética” procede do grego ethos, que significava originariamente “morada”, “lugar em que vivemos”, mas posteriormente passou a significar “o caráter”, o “modo de ser” que uma pessoa ou um grupo vai adquirindo ao longo da vida. Por sua vez, o termo “moral” procede do latim mos, moris, que originariamente significava “costume” e também evoluiu para “modo de ser”. Desse modo, “ética” e “moral” confluem etimologicamente em um significado quase idêntico: “tudo aquilo que se refere ao modo de ser ou caráter adquirido como resultado de pôr em prática alguns costumes ou hábitos considerados bons”. (CORTINA, 2005, p. 20)

Devido às coincidências etimológicas, é natural que os termos “moral” e “ética” apareçam como intercambiáveis em muitos contextos cotidianos, por exemplo, quando designamos uma atitude como “moralmente correta” ou quando falamos em uma “atitude ética” de acordo com algum código moral. Tentar impugnar tais usos é perda de tempo. Entretanto, convém lembrar que muitas vezes o uso da palavra « ética » faz referência a algum código moral concreto e, portanto, denota o sentido de « moral ». Além disso, reservar o termo « ética » para nos referir à Filosofia Moral e manter o termo « moral » para denotar os diversos códigos morais concretos, nos parece útil para evitar a confusão entre Ética e moralismo.

Em sentido amplo, a problemática da Ética envolve a determinação do que é certo ou errado, bom ou mau, permitido ou proibido, de acordo com um conjunto de normas e valores adotados historicamente por uma sociedade. (MARCONDES, 2007).

Segundo MARCONDES, podemos distinguir três dimensões do que entendemos usualmente por Ética. Em primeiro lugar, um sentido básico ou descritivo muito próximo da acepção originária de ethos, seja este entendido como “morada” ou como “usos e costumes”; em segundo lugar, um sentido prescritivo ou normativo, isto é, como um conjunto de preceitos que estabelecem e justificam valores e deveres, como faz os diversos códigos de ética profissionais; em terceiro lugar, o sentido reflexivo ou filosófico, que diz respeito às teorias ou concepções filosóficas da ética, como a ética da responsabilidade, a dos princípios, o utilitarismo e outras. (MARCONDES, 2007, p. 10).

Como uma atividade de reflexão contínua sobre as práticas, os valores e os costumes de uma determinada sociedade, a Ética não se confunde com a moral dominante transmitida de geração em geração. A Ética é uma reflexão filosófica que discute, problematiza e interpreta regras e valores morais, enfim, uma disciplina filosófica que propõe uma reflexão de segunda ordem sobre os problemas morais. Trata-se, assim, de dois níveis distintos de reflexão, duas linguaguens acerca da ação moral. A pergunta básica da moral é : « o que devemos fazer ?», enquanto que a questão central da Ética é : « por que devemos fazer? » (CORTINA, 2005, p. 20)

Desde sua origem entre os filósofos da antiga Grécia, a Ética pretende orientar as ações dos seres humanos. Segundo Aristóteles, enquanto saber prático sobre “o que pode ser de outra maneira”, em contraposição aos saberes teóricos que versam sobre “o que não pode ser de outra maneira”, a Ética, além de fornecer normas, padrões e orientações sobre como se deve agir para atingir um fim, também tem pretensão normativa, isto é, busca orientar a tomada de decisões prudentes que nos levam a conseguir uma vida boa. Portanto, a Ética pertence ao campo de saber daquilo que ‘deveria existir’ e nos fornece orientação para a ação e para a tomada de decisões. Nesse contexto, não é de se estranhar que, na classificação aristotélica, a Economia e a Política estejam agrupados ao lado da Ética sob o rótulo de “Filosofia prática”.

Hoje, a ética aristotélica é uma influente corrente da Filosofia moral contemporânea, mas não é a única. A questão da felicidade cedeu lugar à reflexão sobre a justiça. Se a pergunta para Aristóteles era “quais as virtudes morais temos de praticar para conseguir uma vida feliz, individual e coletivamente”, na era moderna e diante das diversas maneiras de ‘ser feliz’, a pergunta ética tornou-se outra: “quais deveres morais básicos devem reger a vida coletiva para garantir uma convivência justa, livre e pacífica?” (CORTINA, 2005).

Nesse diapasão, podemos considerar que a Ética estrutura-se sobre três eixos de questões, cada um deles representando uma área da Filosofia Moral: i) Teorias valorativas que buscam responder questões acerca de qual a “vida boa” a ser vivida, aquilo que realmente possui valor e propósito e que deve ser buscado para aprimorar nossa vida. Aqui se incluem as éticas de base aristotélica e demais éticas da virtude voltadas para a formação do caráter humano; ii) Teorias normativas, como a deontologia Kantiana, cujas questões centrais voltam-se para nossos deveres morais diante dos outros. Aqui também encontramos a doutrina rival de Kant, o consequencialismo e seu princípio da utilidade; iii) Teorias metaéticas, isto é, reflexões que buscam explorar os fundamentos das diversas teorias sobre a moralidade, que questionam a possibilidade do aprendizado moral e do próprio estatuto de teorias morais. Aqui encontramos niilistas, relativistas e universalistas. (SHAFER-LANDAU, 2010)

Diante do pluralismo e da complexidade das sociedades atuais, marcadas pela diversidade de crenças, valores, hábitos e práticas, a reflexão sobre nossas ações nos parece urgente. Desvinculada da ética religiosa, que supõe a fé e a adesão a uma religião determinada, a Filosofia moral nos oferece um imenso repertório de questionamentos, argumentos e encaminhamentos de problemas éticos que podem servir de orientação nos dias atuais. Mesmo que vinculadas ao momento histórico em que foram escritas, as obras filosóficas sobre Ética levantam questões que têm um sentido e um valor universais, isto é, que não se restringem à situação específica que motivou a reflexão, mas nos servem até hoje como lições valiosas para compreender e analisar as questões contemporâneas.

Nas sociedades plurais e laicas de hoje em dia, existem diversas maneiras de justificar a vida moral. A Ética tão somente busca refletir sobre qual concepção moral é mais razoável e, a partir dela, orientar nosso comportamento. Portanto, a linguagem da ética é indiretamente normativa. (CORTINA, 2005) Ela não nos dirá expressamente o que fazer diante de dilemas concretos, mas nos oferecerá um campo de escolhas razoáveis e suas justificações a partir de diversas concepções morais em disputa. Afinal, o que conta para a avaliação moral de uma conduta? Suas consequências, a intenção do agente ou a obediência a princípios que transcendem à racionalidade? Existem fatos morais ou apenas emoções que nomeamos e que jamais serão apreensíveis conceitualmente?

CORRENTES ÉTICAS CONTEMPORÂNEAS

Desde finais do século XIX assistimos a uma mudança no ponto de vista da reflexão filosófica: a chamada virada linguística também ecoou no campo da Ética que, por sua vez, desviou seu olhar para a linguagem moral. G.E. MOORE, em sua obra Principia Ethica (1903) é o primeiro filósofo da linguagem a enfrentar a tarefa de esclarecer as questões fundamentais da ética analisando sua linguagem, como por exemplo, o significado do termo “bom”. De tais reduções analíticas, conclui o autor pela impossibilidade da definição de termos simples como “bom”, “mau”, devendo sua apreensão ser explicada pela via intuitiva. Como resposta a tal concepção intuicionista, entrou em cena o emotivismo. Defendido por autores como A.J. Ayer e Stevenson, o emotivismo afirma que os enunciados morais são enunciados “aparentes”, pois não acrescentam nenhum significado comprovável à proposição, mas apenas expressam aprovação ou desaprovação de quem a formula. Esses pseudo-enunciados cumprem, contudo, uma dupla função: expressam emoções subjetivas e sentimentos e influenciam os interlocutores com a pretensão de que adotem a atitude do locutor. Assim, para Stevenson, os juízos morais não pretendem descrever situações, mas provocar atitudes.

No entanto, o que tais éticas da era da linguagem deixam sem explicação, é como alguns termos morais funcionam independentemente de uma emoção subjetiva, como por exemplo, “X é justo”. O predicado “justo” não manifesta uma emoção subjetiva, nem relativa ao grupo, mas uma exigência universal. Além disso, quando consideramos algo justo, geralmente temos razões suficientes para convencer um interlocutor racional do nosso julgamento. Portanto, tanto o intuicionismo quanto o emotivismo não lograram explicar como funciona a linguagem moral, ou seja, por que alguns termos morais transcendem emoções subjetivas e como a argumentação em matéria ética supera o subjetivismo.

Como esclarece CORTINA, “se a linguagem moral se subtraísse inteiramente a critérios intersubjetivos, não poderíamos manter mais que diálogos estratégicos, destinados a usar os interlocutores como meios e não a considera-los fins em si mesmos; a comunicação não seria possível, mas só a manipulação. No entanto, muitos de nossos juízos morais pretendem ter universalidade intersubjetiva, e sua utilização para manipular constitui uma desnaturalização de tais juízos”. (CORTINA, 2005, p. 87).

Ainda no campo da Filosofia da Linguagem, R. M. HARE, em sua obra A Linguagem da moral (1952), iniciou o prescritivismo – que aqui se coaduna com a dimensão filosófica e prescritiva que reservamos para a Ética. Buscando refutar o emotivismo, o prescritivismo defende que alguns termos do âmbito moral têm a pretensão de validade universal. Por tratar-se de uma linguagem valorativa, a linguagem moral é para Hare uma atividade. Já partilhando da visão pragmática da linguagem da Escola de Oxford, o olhar de Hare vira-se para a análise do que fazemos com a linguagem e não apenas para o que podemos conseguir com ela (expressar sentimentos, defender uma causa, etc). O que interessa a Hare é explorar uma questão que também motivou filósofos como Wittgenstein e Austin: o que fazemos quando falamos, como fazemos coisas com palavras?

E, tratando-se de linguagem prescritiva, que exerce pressão sobre o mundo e não apenas o descreve, a primeira característica da linguagem valorativa da Ética é que a prescrição da conduta baseia-se em razões. Além disso, os enunciados morais são universalizáveis e, do mesmo modo que a inconsistência é uma falta lógica, a parcialidade é um defeito moral. Esta convicção de Hare é compartilhada por diversas éticas universalistas: “a imparcialidade é a perspectiva devida ao enunciar juízos morais”. Nos juízos morais aparecem termos dotados da capacidade de exigir universalmente, como é o caso de “justo”. No entanto, como conclui Hare, o juízo sobre o “bom” depende de características próprias do caso concreto, ou seja, depende das diversas formas de vida que podem ser boas, mas não necessariamente exigíveis universalmente.

Diante das dificuldades com a noção de “bom”, e com a imensa influência da ética kantiana, o campo da Ética foi dominado pelas chamadas “éticas procedimentalistas”, ou seja, diante do fato do pluralismo e das inúmeras concepções razoáveis de “vida boa” ou de felicidade, a Ética voltou-se para a tarefa de explorar as normas acerca do que é justo (a coisa certa a se fazer) e não do que é bom. A comprovação da correção das normas somente pode ser empreendida por todos os afetados pela norma em questão seguindo procedimentos racionais. Dentro desse novo enfoque sobre a moralidade, duas respostas são consideradas as principais: a noção de “justiça como imparcialidade” de John Rawls e a Ética do discurso de K. O. Apel e J. Habermas. (CORTINA, 2005, p. 88)

A Ética do Discurso nasceu na década de 1970 com a proposta de encarnar na sociedade os valores de liberdade, justiça e solidariedade por meio do diálogo, único procedimento capaz de respeitar a individualidade das pessoas, mas, ao mesmo tempo, implicar o outro enquanto interlocutor. O diálogo implica uma relação dialógica, uma certa interação entre pessoas onde a solidariedade está pressuposta. Obviamente, não é qualquer diálogo que poderá nos assegurar a correção das normas que usamos. A ética discursiva pretende exatamente apresentar o procedimento dialógico adequado para alcançar essa meta – fase de fundamentação – e para aplicá-la em diversos contextos da vida cotidiana – fase de aplicação ou Ética Aplicada.

A norma só será declarada correta se todos os afetados por ela estiverem de acordo em dar-lhes seu consentimento, porque satisfaz não os interesses de um grupo ou de um indivíduo, mas interesses universalizáveis. Obviamente, este é um modelo que descreve uma situação de fala ideal que raramente ocorre na realidade, onde os diálogos costumam acontecer em condições de assimetria e coação, nos quais os participantes buscam estrategicamente satisfazer seus interesses privados. Mas também é óbvio que qualquer pessoa que argumente seriamente sobre a correção de normas morais pressupõe que esse modelo é possível e necessário, fazendo com que a situação ideal de fala funcione como uma ideia reguladora, ou seja, um guia e uma meta para nossos diálogos reais. Mas resta a fase de aplicação dos acordos. E aqui entra em cena a Ética Prática, da qual a Ética Ecológica é um âmbito de destaque.

ÉTICA ECOLÓGICA

Nesse cenário de pluralismo moral e epistemológico, o caminho só pode ser construído através do diálogo, ou mais especificamente, através de um discurso com sentido, isto é, um diálogo que busca a construção cooperativa da justiça e da correção. Nesse contexto, a ética do discurso nos fornece uma possibilidade de conciliar as diversas correntes da Filosofia Moral, pois cada conjunto de pressupostos de correção moral receberá a devida tradução no interior do discurso na forma de argumentos. Desse modo, nos parece bastante frutífero recuperar uma ética discursiva que dialogue com as diversas concepções (CORTINA, 2010, p. 22) e que tenha uma atuação prática relevante. A partir de tal perspectiva, a tentativa de criar uma ética ecológica é uma tentativa de aplicação concreta de princípios e valores, portanto, uma Ética prática.

Nesse sentido, o interesse atual pela Ética também ocorre a partir de dois campos interconectados: a bioética e a ecologia. Com o apogeu da ideologia do progresso, segunda a qual podemos e devemos explorar a natureza e extrair dela a matéria-prima para o desenvolvimento técnico e industrial, apenas recentemente o ser humano despertou para os riscos e consequências desastrosas dessa atividade. Em nome de um aparente bem-estar de uma geração podemos estar legando às gerações futuras um mundo devastado. Assim, novas responsabilidades surgem à medida que adquirimos maior consciência de que o mundo em que habitamos é uma realidade viva com a qual devemos nos relacionar eticamente, tendo em vista nossa responsabilidade com o futuro da nossa e das demais espécies que habitam este planeta. (MARCONDES, 2007, p. 13)

A partir desta concepção ampla e reflexiva da Ética, nos propomos a pensar aqui uma Ética da sustentabilidade, ou seja, uma reflexão que nos ofereça alguma orientação sobre como agir diante da crise ambiental que se expande para além dos limites do Planeta. Uma Ética que nos permita pensar e criar valores e propósitos condizentes com a reversão da tragédia anunciada da crise ambiental: o aquecimento global, a poluição generalizada, a extinção de espécies, a obscenidade da indústria alimentícia,  e demais efeitos do atual modelo de desenvolvimento (não) sustentável. Uma Ética que forneça as bases para uma mudança de perspectiva quanto à nossa responsabilidade, enquanto espécie humana, diante do desastre ambiental que nos foi legado da modernidade.

Um fato não pode mais ser ignorado: os recursos finitos do Planeta não se renovarão na mesma velocidade de sua exploração, se os níveis de consumo continuarem tendo como referência os padrões ocidentais. O século XXI inicia-se com poucas certezas, uma delas é a de que estamos em contagem regressiva para uma tragédia ambiental.

Apesar de ser pautada por “verdades” das ciências físicas e matemáticas, a questão ambiental é prioritariamente uma questão ética, ou seja, uma questão que exige a consideração de diversas concepções sobre a moralidade, que exige uma orientação responsável sobre quais ações e decisões escolher diante de tal grave crise planetária.

Entretanto, como nos lembra Michel Serres, as questões e aflições motivadas pelo meio ambiente se veem hoje quase exclusivamente tratadas por medidas e proporções estatísticas, levantamentos de dados geológicos e atmosféricos, análises químicas, estimativas biológicas ou de história natural. Ou seja, são tratadas pelas chamadas ciências “duras”, aqueles saberes que Aristóteles reservou para “aquilo que não pode ser de outra maneira”. São elas que determinam a nossa compreensão atual sobre a situação ambiental do planeta. Vê-se, desse modo, o esvanecimento da dimensão ética, como se tudo se passasse sem a intervenção da “intenção de alguém”. Como lamenta Serres, “só sabemos falar da poluição em termos físicos, quantitativos, ou seja, por meio das ciências duras. Mas é precisamente de nossas intenções que se trata, de nossas decisões, de nossas convenções. Em suma de nossas culturas”. (SERRES, 2011, p. 57 e p. 81) As ciências “duras” nos dizem como e quanto estamos poluindo, mas somente uma reflexão ética poderá nos perguntar: por que estamos poluindo? Qual o sentido disso tudo? Como habitar de modo novo o mundo? (SERRES, 2011, p.99)

Hoje já é consenso internacional e diversos documentos sobre o assunto não deixam dúvida quanto à urgência da questão ambiental. A adoção de acordos internacionais em matéria de proteção do meio ambiente, os esforços de organismos públicos e privados em prol da solidariedade internacional, a existência de amplo movimento cidadão em organizações ecológicas e humanitárias, são claros indícios de que o primeiro passo já foi dado. Sabemos em grande medida o que deve ser feito para reverter esse quadro, como nos lembra as Metas do Milênio estabelecidas pela ONU. Agora falta apenas estabelecermos os meios adequados para fazê-lo.

Na Introdução da “Carta da Terra” – Documento da UNESCO de 2000, lemos o seguinte : « As bases da segurança global estão ameaçadas. (…) Esta situação nos obriga a « viver um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade de vida terrestre bem como com a nossa comunidade local »

A situação é tão urgente que obriga a “humanidade a escolher o seu futuro. A nossa escolha é: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida”. Isto posto, continua a Carta, « necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente » (…) « A Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida; cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos » (…).

Mas, afinal, diante da multiplicidade de concepções morais razoáveis, qual pode ser o papel da Ética nesse contexto de crise ambiental, esta sim verdadeiramente mundial? Segundo Adela Cortina, entre os especialistas em ética ecológica, ocorre um fenômeno muito comum no campo da Ética: por um lado, existe um consenso amplo em relação à necessidade de adotar urgentemente um modelo de desenvolvimento sustentável e todo tipo de medidas eficazes para fazer frente aos graves problemas atuais, como o desflorestamento, a chuva ácida, a contaminação dos mares, o tratamento de resíduos sólidos etc. No entanto, por outro lado, há enorme discordância quanto às razões últimas pelas quais devemos levar a sério os problemas ecológicos. Nesse sentido, as “éticas antropocêntricas” afirmam que o que está em jogo na questão ecológica são os interesses e direitos das pessoas (incluindo futuras gerações), enquanto que as “éticas centradas na vida” consideram moralmente relevante os interesses de todos os seres vivos, embora não atribuam a todos a mesma significação moral, por razões distintas.

Apesar da divergência essencial, as diferentes éticas ecológicas conseguem concordar no seguinte ponto: foi a falta de solidariedade que lançou grande parte da população mundial na miséria econômica e cultural. Portanto, não se trata de um problema de natureza técnica, mas moral. (CORTINA, 2005, p. 169)

Uma Ética da Sustentabilidade aponta para uma reflexão crítica sobre os valores que sustentam a atual situação-limite em que vivemos e sobre novos valores, fins e propósitos que podem iniciar o processo de transformação.

De uma perspectiva discursiva, o desafio maior, neste contexto de crise que nos convoca a agir, consiste em desconstruir as redes conceituais que herdamos para ‘descrever’ a realidade e os vocabulários em geral que usamos para relatar as ‘descobertas’ humanas. Como nos lembra Bauman, “tanto conceitos e tantas palavras planejadas para transmitir a nós mesmos e aos outros os significados, mostram-se hoje inadequados para seu propósito. Precisamos desesperadamente de um novo quadro que acomode e organize nossas experiências”. (BAUMAN, 2011, p. 11).

Segundo Bauman, à medida que tentamos compreender a dinâmica das questões mundiais de hoje, nosso antigo hábito de organizar o equilíbrio de forças com ferramentas conceituais como centro, periferia, hierarquia, superioridade e inferioridade se aproxima mais de uma deficiência do que um recurso; mais como luzes que ofuscam do que como lanternas. Hoje, a condição humana confronta-se com dificuldades que não apenas são diferentes das antigas, mas sobretudo que são experimentadas de modo diverso e escapam dos quadros cognitivos criados para servir às antigas dificuldades. Logo, precisam ser rearticuladas. Precisamos de novos conceitos que deem conta dessas novas dificuldades, que consigam expressá-las de modo coerente com a experiência que delas fazemos.

Daí a necessidade de uma Ética da modernidade crítica, uma vez que a ordem moral legada pela Ilustração permanece incorporada a nossos esquemas cognitivos, de modo que sabemos moralmente através deles. Não podemos renunciar a essa herança que nos legou um grau sem precedentes de emancipação de constrangimentos, através do reconhecimento da autonomia individual, da dignidade humana, dos direitos humanos, do Estado de Direito imparcial, da forma de vida democrática e outras conquistas modernas. Entretanto, para dar razão a tudo isso, a Ética precisa trabalhar, produzir novas reflexões e conceitos que provoquem a pergunta pelo sentido do atual modelo de desenvolvimento expansivo e agressivo com o qual estamos colonizando o planeta. (CORTINA, 2010)

Como nos lembra Leonardo Boff, um dos princípios de uma ética da sustentabilidade é a responsabilidade, que foi amplamente discutido pelo filósofo alemão Hans Jonas em seu livro “O Princípio responsabilidade”. Ser responsável é dar-se conta das conseqüências de nossos atos. Até a invenção das armas nucleares, da guerra química e biológica e da manipulação do código genético podíamos fazer intervenções na natureza sem maiores preocupações. Hoje a situação mudou radicalmente. Construímos o “princípio da autodestruição” como o chamou Carl Sagan. Temos os meios de destruir a vida humana e desestruturar profundamente o sistema-vida. Podemos pela excessiva quimilicalização dos alimentos, pelos transgênicos e pela manipulação do código genético produzir um desastre de proporções inimagináveis, inclusive irreversíveis. Então, devemos assumir nossa responsabilidade por nós mesmos, pela Casa Comum e pelo Futuro compartilhado. O Princípio categórico é: “aja de forma tão responsável que as conseqüências de tua ação não sejam deletérias para a vida e seu futuro”. Ou positivamente: “aja de tal forma que as conseqüências de tuas ações sejam promotoras de vida, de cuidado, de cooperação e de amor”. É aqui que tem o seu lugar o “Princípio de Precaução” tão importante nas decisões sobre a manipulação genética de organismos vivos.

Assim, diante do imperativo da sustentabilidade faz-se necessário uma nova sensibilidade ética. O despertar de uma nova preocupação/reflexão que dê conta dos desafios e contradições contidos na expressão “desenvolvimento sustentável”. A lógica de responsabilidade planetária pressupõe que os problemas gerados globalmente somente podem ser enfrentados em seu próprio nível. Apenas por meio da renegociação e da reforma da teia de interdependências e interações globais. Diante do cenário global, onde iniciativas econômicas de qualquer lugar do planeta podem afetar o resto da humanidade, é preciso o despertar de valores adormecidos, de outras formas de convivência com a natureza e de novas formas de produção de consumo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CORTINA, Adela, MARTINEZ, Emílio. Ética. Edições Loyola. 2005.

CORTINA, Adela. Ética sem Moral. Martins Fontes, 2010.

SERRES, Michel. O Mal Limpo – Poluir para se apropriar ? Bertrand Brasil, 2011.

BAUMAN, Zygmunt. A Ética é possível num mundo de consumidores ? Zahar, 2011.

MARCONDES, Danilo. Textos Básicos sobre Ética, Zahar, 2007.

SHAFER-LANDAU, Russ. The Fundamentals of Ethics. Oxford University Press, 2010.

BOFF, L., Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Rio de Janeiro, Sextante 2004.

________ Ethos mundial. Um consenso mínimo entre os humanos, Rio de Janeiro, Sextante 2003.

________Saber cuidar. Etica do humano – compaixão pela Terra,Petrópolis, Vozes 1999.

COMISSÃO DA CARTA DA TERRA. Carta da Terra. 2000. Disponível em: <http://www.earthcharter.org/files/charter/charter_po.pdf>.

COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso Futuro Comum. 2a ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1988. 430 p.

JONAS, Hans. El Principio de Responsabilidad – ensayo de una ética para la civilización tecnológica. Barcelona: Editorial Herder, 1995

GALANO, C. et al. Manifesto pela vida, por uma ética para a sustentabilidade. 2003. Disponível em <http://www.pnuma.org/educamb/Manif_pela_Vida.pdf>.

JONAS, H. O princípio da responsabilidade. Adaptado da obra de Hans Jonas, Das Prinzip Verantwortung, 1979. Disponível em: <http://pwp.netcabo.pt/netmendo/jonas%20o_princ%C3%Adpio_responsabilidade.ht m>

ONU – ORGANIZAÇÕES DAS NAÇÕES UNIDAS. Objetivos do Milênio. 2000. Disponível em: <http://www.nospodemos.org.br/>.

ONU – ORGANIZAÇÕES DAS NAÇÕES UNIDAS. Avaliação Ecossitêmica do Milênio. 2005. Disponível em: <http://www.maweb.org/en/products.aspx>.

PNUMA – PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE Convenção da Diversidade Biológica. 1992. Disponível em: <http://www.onu- brasil.org.br/doc_cdb.php>.

PRIGOGINE, I. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: UNESP, 1996. 199 p.

PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza e WWF – Fundo Mundial para a Natureza. Cuidando do Planeta Terra, Uma Estratégia para o Futuro da Vida, (tradução de IUCN-UNEP-WWF. Caring for the Earth. A Strategy for Sustainable Living. Ed. Earthscan, 1991. 228 p.) 2a tiragem. São Paulo: Editora CL- A Cultural, 1992.

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Rachel Nigro
Rachel Nigro
Doutora em Filosofia e Mestre em Direito pela Puc-Rio; professora dos departamentos de Direito e Filosofia, do Centro de Empreendedorismo e do Centro de pós-graduação em Filosofia Contemporânea.
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Comments
  • Tânia Andre

    Artigo maravilhoso!
    Usei parte dele para dar “vida” ao meu trabalho acadêmico, mas nada de plágio certo?
    Parabéns muito simples e de fácil compreensão. Riquíssimo em conteúdo.

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