Lições da Copa

http-::copadomundodobrasil2014.com:selecao-brasileira-a-unica-pentacampea:Concluída a Copa do Mundo de 2014 cabe fazermos algumas reflexões sobre tudo o que esse processo envolveu e procurarmos extrair algumas lições desse evento que mobilizou milhares de pessoas e custou bilhões em investimentos de vários tipos ao país. Cabe legitimamente perguntar que benefício isso nos trouxe.

O primeiro ponto a ser ressaltado e que deve ficar bem claro é que a seleção brasileira de futebol obteve um excelente resultado, ficando como uma das quatro finalistas em uma competição bastante disputada e com muitas surpresas em que outras seleções fortes como as da Espanha, Itália e França, todas campeãs anteriormente, foram eliminadas em etapas anteriores. Quarto lugar é um resultado honroso e aliás com um bom retorno financeiro para a seleção que receberá um prêmio de cerca de 40 milhões de reais. Nossos atletas têm talento e tiveram um bom desempenho, apesar evidentemente de todas as críticas cabíveis. Afinal somos um país de 200 milhões de técnicos de futebol e cada um de nós tem o seu “time dos sonhos”. Mas nossos jogadores não são nem heróis a serem exaltados ao máximo, nem figuras a serem execradas. São atletas com qualidades e defeitos que participaram de uma disputa e lograram um respeitável quarto lugar. Vamos colocar, portanto, as coisas em suas devidas dimensões.

Dito isso, vamos refletir também sobre o fenômeno de consumo em que se tornou a competição organizada pela Fifa. Tem-se a impressão de que o marketing é a coisa mais importante e que o esporte passou para o segundo plano. Isso configura uma manipulação de sonhos e expectativas do torcedor, que, mesmo não sendo fanático, desaba da admiração incondicional pelos jogadores à sua total rejeição. As manchetes de jornal após a derrota da seleção brasileira para a da Alemanha deixaram isso claro. Isso resulta não só da tradicional popularidade do futebol entre nós, mas também da manipulação que a própria mídia e seus interesses corporativos exercem sobre os torcedores, vistos na verdade como consumidores. Todos querem se beneficiar da popularidade da seleção, políticos, empresários, patrocinadores. Mas, essa exploração só funciona quando os resultados são favoráveis: perder não interessa a ninguém, mas perder é sempre um resultado possível em qualquer jogo, em qualquer competição.

Sempre que perdemos, em todas as circunstâncias da vida, há uma lição preciosa a ser extraída disso, se formos capazes de refletir sobre os acontecimentos sem buscar “culpados”, mas identificando os motivos da derrota e encontrando meios de superá-la. Um dos motivos, o mais simples e contra o qual  pouco podemos fazer, é que em ambos os casos de derrota da seleção brasileira tanto para a seleção da Alemanha, quanto para a da Holanda, esses times tiveram indiscutivelmente um melhor desempenho em campo. A seleção brasileira não foi humilhada, muito menos o foi o Brasil; perdeu dois jogos para dois times que se revelaram melhores em campo e cabe aos especialistas, técnicos, treinadores, aos próprios jogadores analisar isso, o que está simplesmente fora de meu alcance.

O ministérios dos Esportes possui obviamente quadros competentes e seria importante sua análise do evento e de seus resultados; uma prestação de contas ao contribuinte, ao cidadão.

Mas,  precisamente como cidadão brasileiro, que passou por essa experiência de conviver com uma Copa do Mundo nessas últimas semanas, preocupo-me com as lições que devemos extrair disso. A infraestrutura foi deficiente, principalmente se levarmos em conta os investimentos. Houve muitos relatos sobre a precariedade dos estádios, obras previstas não foram concluídas, os custos ultrapassaram os orçamentos. Houve falhas indesculpáveis da segurança que prende arbitrariamente e de forma muito eficiente um pequeno grupo de manifestantes políticos, mas foi incapaz de evitar a invasão do estádio do Maracanã por torcedores ou de prender o chefe de uma quadrilha de fraudadores de ingressos que fugiu pela porta dos fundos do hotel Copacabana Palace. São apenas dois exemplo, mas bastante significativos. A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro teve que abrigar no Sambódromo torcedores vindos de países vizinhos sem condições de arcar com os custos de sua viagem e hospedagem. A praia de Copacabana, um dos cartões postais da cidade, foi bastante castigada por eventos de caráter discutível, que configuraram na prática uma depredação ambiental. Não é esse tipo de “turismo” que nos interessa e não foi para isso que os investimentos foram feitos. No espírito da transparência é importante termos um balanço dos resultados pelas autoridades competentes nos vários níveis, municipal, estadual, federal,  para que uma avaliação adequada seja feita, permitindo  um melhor planejamento futuro. Essa cobrança deve ser feita por nós com a mesma veemência da cobrança à seleção brasileira.

Terminada a Copa,  começamos a encarar de frente um ano eleitoral em um país que enfrenta graves desafios econômicos e sociais. A participação política é fundamental, está na hora de torcermos pelo país, de pensarmos o que queremos, de definirmos nossas prioridades, de enfrentarmos um jogo em que ganhar ou perder é agora sim realmente crucial.

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Comments
  • Deane lopes morais

    Temos que saber ganhar mas principalmente saber perder: vendo a capacidade do adversário e suas potencialidades e com isso melhorar, para no futuro ser capaz de vencer-los.

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