Estado de Sítio

estado de sítio fotoDiante do atual cenário nacional e internacional, vemos surgir reflexões acerca de quais vidas são dignas de serem vividas e quais mortes merecem a atenção de todos. Concomitantemente notamos os Estados de Direito buscarem legitimação por meio de ações que reforçam seu poder, mesmo que possam de alguma maneira apresentar algum aspecto arbitrário. Ainda que não sejam novas, estas questões mostram-se por demais contundentes no nosso tempo.

Recentemente, tive a oportunidade de conhecer um trabalho de arte chamado “Estado de Sítio” de Omar Salomão que inspirou o presente post [1]. Não pretendo fazer uma análise literal, pois acho que a força da imagem não deve ser esgotada por uma interpretação. O que apresentarei aqui é somente fruto das reflexões que tive a partir do que vi.

Zonas “legítimas de ilegitimidade” se tornam cada vez mais recorrentes e cidadãos adquirem um entendimento de que seu pertencimento a um determinado contexto político está sempre condicionado a uma dimensão à margem. Como nos lembra Agamben, que retoma a figura do estado de exceção como presença constante mesmo no Estado de Direito. O estado de exceção é utilizado pelo poder estatal ao produzir zonas de indistinção, confundindo elementos como violência e direito, natureza e cultura, interno e externo. Assim, o estado de exceção se faz presente ao cultivar essas margens nebulosas entre o que está incluso e excluso da política, do direito e da normalidade e, desta forma, mantém subjacente no imaginário daqueles que pertencem a um Estado de Direito a ideia de que mesmo pertencendo a este contexto podem estar à margem. Deste imaginário surge o temor de enfrentar o poder estatal que reforça sua força por meio disto que aterroriza seus cidadãos.

E isso não é algo muito rebuscado: miséria e mortes banais cotidianas, por exemplo, não ganham repercussão, de modo geral. Algo em nós fica cada vez mais entorpecido e, ao mesmo tempo, vemos um esforço dos grandes canais de comunicação em dar destaque para determinados acontecimentos. Não que eles não mereçam atenção, mas parecem ser peça de um cenário que precisa tê-los destacados como forma de banalizar ainda mais o resto dos outros eventos que são tão trágicos quanto (ou mais), mas precisam permanecer à sombra. O terror de sermos esquecidos nos assombra e deste terror parece surgir um acumpliciamento para que passem desapercebidos por nós eventos rotineiros e usuais em nossas vidas, por mais graves que sejam. Precisamos nos calar para não corrermos o risco de sermos açoitados pela força que torna vidas indiferenciadas e esquecidas.

As mídias, por sua vez, são recrutadas como instrumentos de marketing e relações públicas para “legitimar” ações arbitrárias. Acabando por reforçar no imaginário coletivo, a ameaça da violência que aguarda à margem da proteção do Estado.

Só que não podemos esquecer que essas zonas “legítimas de ilegitimidade” crescem a cada silêncio que se apresenta diante delas. E assim tendem a se ampliar e todos corremos cada vez mais risco com esta ampliação. Não adianta respirarmos aliviados por não estarmos à margem, pois o estado de exceção se cria exatamente pela nossa cumplicidade silenciosa.

Não podemos nos sentir seguros enquanto vemos nossas alienações e entorpecimentos aumentarem. Creio que precisamos cada vez mais expressar nossos espantos e preocupações para que o invisível seja notado e a esfera política encontre novas formas de legitimação.

É preciso que se acredite em  novas dimensões políticas: que elas possam se construir não por meio da alienação, mas pela educação e reconhecimento cada vez mais enriquecido dos personagens políticos que, mesmo por ora esquecidos, fazem parte da vida de todos nós.

Não podemos deixar que a fina lâmina da legitimidade que nos faz temer questionar o terrível que vemos passar diante dos nossos olhos impeça que nossa criatividade ache caminhos para vislumbrar novos contextos e atuações políticas. Foi isso que “Estado de Sítio” inspirou em mim…

[1] Este trabalho é uma instalação: escultura em aço inox pintado com tinta acrílica fluorescente. Estará exposta até o dia 29 de agosto de 2014 no Armazém do Fidalgo (Galeria Arthur Fidalgo, Rio de Janeiro). A foto deste post é da instalação.

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Flora Tucci
Flora Tucci
Doutoranda em Filosofia pela Puc-Rio e psicanalista.
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Showing 2 comments
  • Liz

    Adorei o texto! Acredito que grande parte das eventos históricos causadores de graves violações aos direitos humanos poderiam ter sido evitados. Não fosse a legitimidade artificialmente atribuída a certos atos somada à apatia daqueles que testemunham estes acontecimentos, os erros poderiam ser interrompidos antes de se transformarem em catástrofes.

  • Eric Schmidt

    Pensando na combinação de cores da imagem e no tema proposto no texto, não consigo evitar a comparação com o cenário do Brasil atual. Hoje, assim como no final de 2014, vemos uma intensa polarização política no país. No entanto, não se trata mais de uma simples eleição, e sim da eminência de um golpe de Estado. Qualquer que seja a nomenclatura que se prefira usar, a tirada da presidenta Dilma do governo é uma realidade cada vez mais próxima e preocupante. Mas, para muitos, tal saída parece ser uma luz no fim do túnel para um Brasil em crise. O motivo? “Sem o PT no poder, vamos estar livres da corrupção”, estes muitos dirão. Mas o que dizem dos partidos que entrarão no poder em seu lugar, que são igualmente (se não mais) corruptos? Essa cegueira tem uma razão: a mídia hegemônica. A maior emissora televisiva do país tem uma certa tendência a pesar mais para um lado, relatando apenas os fatos e acontecimentos que os vêm à conta (literalmente?). Com isso, criamos uma grande parcela alienada da população, que, somada à um grande número de políticos mal intencionados, resulta em um futuro muito sombrio para o Brasil, ao meu ver.

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