A pobreza do debate político brasileiro

http-::www.comunica.ufu.br:topicos:eleicoes-2014Às vésperas de mais uma eleição presidencial (e me refiro aqui apenas a ela), portanto, nem deveria ser preciso dizer, de um momento decisivo que se dá a cada quatro anos e que define os rumos políticos da vida no país, chama a atenção a pobreza do debate político em torno do futuro próximo de nossa sociedade.

Essa pobreza é representada em grande parte pela personalização do debate e pelo interesse quase que exclusivo centrado nos candidatos, em suas características pessoais, em seu desempenho midiático, em sua performance em entrevistas nos meios de comunicação. Pouco ou nada sabemos do programa político, que deveria ser não dos candidatos, mas dos partidos (são 38 em diferentes coligações!) a que pertencem. Quais as propostas para o país nos próximos quatro anos e como viabilizá-las é algo largamente ignorado não só por eleitores, mas até mesmo por jornalistas e cientistas políticos em seus comentários. O marketing político, a manipulação da imagem e do discurso, se tornaram os principais instrumentos do processo político e da campanha eleitoral.

Por sua vez, os candidatos, excessivamente suscetíveis  aos resultados das pesquisas de tendência dos eleitores, mudam, adaptam seus discursos e sua imagem ao que acreditam ser o interesse do eleitorado numa verdadeira inversão do processo. Coligações partidárias se justificam não por identidade ideológica, mas para ganhar mais tempo na mídia.

Tudo isso contribui para algo extremamente perigoso em nossa sociedade, o esvaziamento do debate político, um sintoma por sua vez do esvaziamento da política. Da política enquanto forma de pensar a sociedade, de pensar o que queremos, de pensar em um projeto ou de poder escolher, conscientemente, criticamente, entre projetos alternativos.

Estamos perdendo deste modo a rara oportunidade da discussão política enquanto choque entre propostas para a sociedade e formas de negociar esse choque e direcioná-lo para a reforma e o desenvolvimento do estado e do país.  A oposição desapareceu no cenário dominado por coligações não em torno de projetos em comum, mas de interesses pela preservação do poder. Ignoramos as propostas, ignoramos as diferenças entre as propostas.

E os movimentos sociais, as manifestações nas ruas tão intensas em 2013, simplesmente desapareceram. Por que não geraram debate? Por que foram insuficientes para canalizar insatisfações? Por que não se constituíram em meios efetivos de representação e de formulação de propostas alternativas?

O que precisamos é retomar o debate e a participação sem o que não haverá política. A novidade, sem dúvida positiva, é a ampliação do potencial de interação que as redes sociais permitem e que escapam em grande parte da manipulação da mídia. Mas, falta ainda a esse debate conteúdo propositivo e credibilidade àqueles que deveriam colocar as propostas em prática para além da luta pela vitória eleitoral e da visão imediatista que tem marcado o cenário político nacional.

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