O ebola e a indústria farmacêutica

 Ebola in LiberiaNos últimos meses o mundo tem presenciado um grande surto do vírus ebola. O vírus descoberto em 1976 teve nos últimos meses sua explosão mais significativa. Há dois dias um relatório da UNICEF[1], contabilizava mais de 3.700 órfãos do ebola em solo africano. O mesmo relatório afirma que a expectativa é que esse número dobre nas próximas semanas devido ao falecimento de indivíduos já infectados. O surto que já dura mais de 4 meses é responsável por mais de 3.000 mortes, sendo mais da metade na Guiné, Libéria e Serra Leoa, países mais atingidos pelo vírus. Trata-se de uma situação, no mínimo, trágica. Quanto aos órfãos do ebola, o mesmo relatório da UNICEF aponta o descaso e abadono dessas crianças por parte de suas famílias e comunidades que as rejeitam com medo de que elas também estejam infectadas. A tragédia gerada pela doença é atual mas também deixará uma herança a qual ainda não podemos antever.

Tudo isso poderia ser considerado apenas fruto de um inevitável acaso se o contágio não tivesse trazido à tona uma prática comum da indústria farmacêutica: a decisão estratégica de tornar comercial ou não uma droga experimental. Este foi o caso com o ebola. Há anos grande empresas do ramo possuem patentes de drogas experimentais voltadas para o combate ao ebola. A decisão unânime do mercado foi, à época, descontinuar o investimento e a subsequente criação de um composto fabricável em larga escala. O motivo para a desistência: o fato do ebola ter alcance restrito e estar confinado ao continente africano, onde boa parte da população é de baixo poder aquisitivo, o que não geraria retorno financeiro considerado adequado pela indústria farmacêutica.

O lucro como motor único de produção torna-se uma questão particularmente sensível no caso de compahias farmacêuticas. No exemplo do contágio atual com o vírus ebola não só permanece a questão da lucratividade mas, na urgência presente por um tratamento, debate-se a morosidade do procedimento de criação de uma droga comercial. De acordo com o National Institutes for Health[2], dos Estados Unidos, o tempo médio para uma nova droga chegar ao mercado é de 14 anos e seu custo médio de 2 bilhões. Desses 14 anos, aproximadamente 6 são gastos em testes para garantir que a droga a ser comercializada seja segura. Mas, antes de qualquer liberação para testes de uma droga é necessário que a indústria decida ou não se lhe interessa investir no produto.

Como bem relata o recente artigo da The New Yorker, historicamente a indústria farmacêutica tem preferido investir em doenças mais comuns em países do Norte, onde a população possui maior poder aquisitivo, do que em doenças restritas a países do Sul. Por esse motivo doenças como malária e tuberculose têm recebido menos atenção do que colesterol alto. A doença de chagas e a dengue matam mais de meio milhão de pessoas por ano. Meio milhão de pessoas que não são consideradas consumidoras em potencial pela indústria farmacêutica e portanto acabam sendo desservidas de medicamentos.

A lógica do lucro guia de forma tão determinante as escolhas de produção, distribuição e quebra de patentes desta indústria que a Organização Mundial da Saúde chegou a nomear essas doenças de “doenças tropicais negligenciadas”[3]. Dentro desta mesma chave podemos compreender as decisões empresariais vinculadas a produção de uma cura para o ebola. Para a indústria, no entanto, trata-se de um jogo de soma sempre positiva: não investem em um produto de retorno financeiro incerto e, caso haja necessidade de produção de uma droga por conta de um surto inesperado, vêem suas ações subirem vertiginosamente de um dia ao outro, como anunciaram nas últimas semanas grandes veículos internacionais de imprensa[4]. A perda é humana, mais especificamente, de humanos não consumidores. Resta-nos, portanto, avaliar qual o real comprometimento da indústria farmacêutica com a saúde, bem como a carência de iniciativas de pressão por parte de entes estatais e supra-estatais (como no caso da OMS e da OMC, apenas para citar alguns).

[1]   UNICEF, “Thousands of children orphaned by ebola”, 30 de setembro de 2014. http://www.unicef.org/media/media_76085.html

[2]   www.nih.gov

[3]   The New Yorker, “The Economics of Ebola Drugs”, 25 de agosto de 2014 http://www.newyorker.com/magazine/2014/08/25/ebolanomics

[4]   NBC, Shares of companies testing Ebola vaccines rise, 30 de outubro de 2014. http://www.cnbc.com/id/102048253

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Marianna Poyares
Marianna Poyares
Mestre em Filosofia pela USP e professora assistente do Depto de Filosofia da UFRJ.
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Comments
  • Gabriella Polessa Mangiavaccho

    7TU

    http://era.org.br/2014/10/o-ebola-e-a-industria-farmaceutica/

    Escolhi o tema do Ebola e a indústria farmacêutica porque este tema, passado o ano de 2014, não foi mais discutido e não deve cair no esquecimento, pois foi (ainda é) uma tragédia de grandes proporções para seres humanos como nós.
    Se tomarmos as ideias de Ética como um conjunto de condutas que visam o bem comum, houve total falta de ética por parte das empresas de fármacos, pelas seguintes razões:
    As doenças mais pesquisadas são as que acometem os norte americanos e europeus, que não chegam à metade da população mundial. Ou seja, temos uma minoria que tem o privilégio de ser servida por medicamentos cada vez mais avançados a ponto de evitar os efeitos colaterais, em contraponto com América do Sul, África e Ásia, que ficam desassistidas. O motivo é a riqueza dos países do hemisfério Norte, que pode pagar por medicação cada vez mais cara e assim garantir o lucro do conglomerado farmacêutico. Já os demais países, com suas epidemias agudas não possuem meios eficazes de combate, porque a produção de remédios para esses males não rende lucros para a indústria.
    Outra questão é o tempo de produção e validação de um medicamento e o custo desse processo, que é exorbitante.
    A partir do momento em que as fábricas de substâncias que deveriam reestabelecer a saúde de indivíduos e populações doentes passa a ser movida não pelo objetivo de trazer cura mas de beneficiar exclusivamente seus chefes e sócios, está agindo contra a coletividade. Se dessa conduta egoísta resultam danos graves para a população e mortes em massa, estamos diante da mais absoluta falta de ética e de amor ao próximo.
    Deve haver formas de reconduzir essas fábricas ao seu propósito verdadeiro, que é a distribuição de fármacos para todos os que necessitem, não apenas para os que podem custeá-los.

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