Pequenas Corrupções – Diga Não

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Pequenas Corrupções – Diga Não

Danilo Marcondes

Foi lançado recentemente por iniciativa da Controladoria Geral da União – a CGU – um concurso de redação dirigido a estudantes do Ensino Médio intitulado “Pequenas Corrupções – Diga Não”. A iniciativa, muito oportuna em nosso contexto atual, visa levantar a questão sobre atos corriqueiros, pequenos ilícitos do dia a dia que acabam também, segundo esta visão, consistindo em atos de corrupção. Estamos acostumados e já mesmo cansados do noticiário sobre Mensalão, Petrolão, as investigações da Operação Lava Jato, prisões de políticos e grandes empresários. A corrupção tem sido um tema constante do noticiário de forma inédita em nosso país. Corrupção é sempre uma via de mão dupla, existe o corrupto e o corruptor. Alguém, o corruptor, toma a iniciativa de oferecer uma propina em troca de uma vantagem, mas é necessário que alguém, o corrupto, aceite essa propina. Nas investigações da Operação Lava Jato com frequência não fica claro de quem foi a iniciativa, se estamos diante de casos de extorsão ou de suborno, embora muitas vezes ambos apenas se complementem.

A discussão fomentada pela iniciativa da CGU tem o grande mérito de trazer o foco para nosso cotidiano. Para transgressões frequentes que quase que se banalizam, que aceitamos sem pensar muito. Os estudantes do ensino médio chamaram a atenção para a experiência deles: furar fila, comprar CD pirata, sentar em lugar prioritário para necessidades especiais na condução, receber ou dar troco errado. Será que isso caracteriza corrupção? São atos desonestos, a maioria deles sequer caracterizando um ilícito penal. Mas corrupção talvez seja um termo muito forte. Não fica claro, por exemplo, a existência de um corrupto e de um corruptor na maioria dessas transgressões. Mas, o que se quer dizer é que uma regra, uma norma, um direito, foram efetivamente transgredidos e que, com isso, abre-se caminho para que em outras oportunidades as transgressões continuem, já tendo se caracterizado um hábito de não levar a norma em conta, de não considerar isso importante. Se nos pequenos delitos podemos estar desrespeitando alguém e mesmo causando prejuízo, nos grandes atos de corrupção causamos dano à empresa, ao país, ao consumidor em benefício próprio, ou de um pequeno grupo. No caso das pequenas violações, acreditamos que podemos individualmente interpretar se a norma se aplica ou não. Justifica-se comprar CD pirata porque CD é caro, posso aceitar troco errado a meu favor porque o valor é pequeno, posso avançar o sinal porque não está vindo nenhum outro veículo. Mas, quando se considera que sou eu que decido pela aplicação da regra e se acho portanto que há circunstâncias em que ela não se aplica, o caminho está aberto para transgressões maiores. Não quer dizer que isso vá ocorrer sempre, pois não somos um país de corruptos, mas de trabalhadores honestos que lutam por manter seus empregos e suas famílias muitas vezes com salários indignos e em condições difíceis de falta de infraestrutura de saúde, segurança, transporte. Contudo, nada justifica o desrespeito às normas e regras nos casos das “pequenas corrupções”, porque desrespeito à norma não significa desrespeito a algo de abstrato, genérico, que nem sei porque existe, mas sim desrespeito ao outro, às pessoas com quem interagimos, convivemos, a nossos conterrâneos, concidadãos, colegas, a quem não devemos prejudicar, até porque não queremos tampouco ser prejudicados e essa é, em última análise, a marca do valor da norma. Com frequência não protestamos, não reclamamos porque achamos que não vale a pena, o valor é pequeno, ou algo do gênero. E com frequência ouvimos que somos o país da impunidade. Transgressões devem ser punidas, coibidas. A impunidade não pode ser aceita. Daí a importância de vermos hoje em função das investigações da Operação Lava Jato grandes empresários e políticos importantes presos, o que raramente acontecia em nossa sociedade. Mas, a verdadeira mudança não é apenas consequência das punições, mas da mudança de hábitos, de conduta, de cultura, do entendimento do papel das normas. Algo que se faz com a valorização da educação. E é nesse sentido que aponta a iniciativa da CGU.

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danilo.filho
danilo.filho
Doutor em Filosofia, professor, Departamento de Filosofia, Coordenador do projeto ERA.
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Showing 5 comments
  • Rachel Fernandino de Castro

    Rachel Fernandino de Castro – 7TH

    Análise do texto “Pequenas Corrupções – Diga Não”;

    Que país é esse? O do jeitinho brasileiro. Essa é a resposta tão procurada para o questionamento indignado e furioso que todos os brasileiros se fazem diante do noticiário diário. A cada escândalo de corrupção mil dedos são apontados para a tela da televisão. Para a tela ou para o espelho? Estamos apontando para os distantes, inalcançáveis e impunes colarinhos brancos que sentam na Câmara dos Deputados, no Senado e no Planalto. Mas cada um ali teve seu lugar reservado por nós quando votamos. Votamos para que nos representassem. Bradar “FULANO NÃO ME REPRESENTA” é inútil. Sim, ele te representa. Todos nos representam. Primeiro porque o que eles decidem reflete no que vai acontecer nas nossas vidas. Segundo porque eles representam nosso comportamento social. Eles nos refletem. E infelizmente não só no lado positivo. As corrupções faraônicas são um retrato do nosso velho e bom jeitinho brasileiro. Aquela colinha na prova, o gato nas TVs a cabo dos outros, a furadinha de fila e… e que brasileiro nunca fez isso? É só um jeitinho. Não. Esse é um comportamento que está enraizado na cultura do nosso povo. E se o mal se corta pela raiz, temos que mudar de baixo pra cima. Não adianta mil dedos apontados para os corruptos da TV, mas um ou dois para nós mesmos. Precisamos rever nossa herança cultural, romper essa tradição corrosiva e expurgar todas as formas de corrupção. De que adianta ser considerado um povo acolhedor e prestativo aos olhos do mundo, se prejudicamos nossos compatriotas burlando egocentricamente as regras básicas de convívio social? Se ponha no lugar daquele que está sendo prejudicado pela sua atitude. Se ponha no lugar do político que está prejudicando através dos seus crimes. Tenha empatia. Mas também assuma. Mais importante ainda: reflitamos. Individualmente e coletivamente. Só assim podemos punir verdadeiramente, melhorar como nação e ter esperança no futuro. E nos agarremos ao ditado que realmente deve nos representar: sou brasileiro e não desisto nunca.

  • Talita Maria Barroso Barcelos

    Achei muito interessante a abordagem feita pelo professor Danilo Filho, já que nunca tinha parado para pensar no quanto as coisas que consideramos normais podem se tornar atos corruptos. Acredito que a malandragem do brasileiro seja uma forma de tentar se beneficiar e tirar proveito das situações sem ter que se esforçar para tanto. Por meio do artigo pude refletir meus próprios atos, como o de passar pelo acostamento nos momentos de pressa no trânsito insuportável do Rio de Janeiro. É um ato extremamente egoísta. Infelizmente somos hipócritas por criticar a corrupção no nosso governo mas ainda assim persistir com hábitos eticamente reprovados. Concordo com o autor do artigo ao pensar que não respeitar uma norma e regra com frequência e considerar normal pode abrir um caminho para que seu delito seja cada vez pior e ainda assim você não conseguir enxergar o quanto errado ele é. Devemos levar em conta que tanto o ato de roubar dinheiro público quanto o ato de furar a fila de um estabelecimento prejudicam pessoas. Obvio que roubar dinheiro público afeta mais gente do que furar a fila de um estabelecimento, mas os dois são práticas desonestas e portanto, condenáveis. Vivemos em sociedade e é de suma importância agirmos de forma coletiva e ética. Sem dúvida, precisamos começar a mudar nossas ações no âmbito privado para cobrar com mais veemência posturas corretas de quem tem poder na esfera pública. Não podemos nos acostumar com o que deveria ser inaceitável.

    • Talita Maria Barroso Barcelos

      Escolhi comentar sobre este tema porque é atemporal e muito comum. O texto agrega valor a construção de uma realidade mais crítica!

  • Júlia Assis Breta

    Júlia Assis Breta – 7TH
    Análise de “Pequenas corrupções – diga não” (http://era.org.br/2015/09/pequenas-corrupcoes-diga-nao/)

    Escolhi esse texto para analisar pois fui atraída por seu título. Em meu dia-a-dia isso que é argumentado no texto é o que mais me frusta. Como assinalado pela Rachel Fernandino, é o famoso “jeitinho brasileiro”, o qual eu nem ninguém deveria se orgulhar e falar como se fosse uma coisa boa.
    A falta de educação da população me surpreende a cada dia, e isso é lamentável. A cada dia cresce a quantidade de “pequenas corrupções” cometidas pelo povo. O que é extremamente contraditório é que, assim como aumentou o índice esses atos de “corrupção”, também aumentou o índice de reclamações contra políticos e governos corruptos. A contradição mora no fato de que a pessoa que desrespeita uma senhora ao dormir em um banco preferencial do ônibus e não ceder lugar é a mesma que vai reclamar do político que foi preso por roubar dinheiro público. Danilo filho faz uma ótima constatação ao afirmar: “Mas, quando se considera que sou eu que decido pela aplicação da regra e se acho portanto que há circunstâncias em que ela não se aplica, o caminho está aberto para transgressões maiores”
    Apenas por meio da educação, da conscientização, poderemos fazer de nosso país um lugar melhor. Dessa forma, a população vera qualquer tipo de transgressão como sendo uma erva daninha da sociedade e não havendo a distinção entre transgressões “piores” ou “menos piores”.

  • Sofia Glasherster

    Adorei o texto e acho o tema de grande importância, principalmente, por causa do atual cenário político do Brasil. Penso que as “pequenas corrupções” ocorrem com tanta frequência porque é uma característica comum do seres humanos serem individualistas e terem dificuldade de empatia com o outro. Acho que isso se manifesta no Brasil pelo “jeitinho brasileiro”; assim como se manifesta na Europa pela xenofobia, e assim vai. Concordo com o texto que essas características poderiam ser desestimuladas pelas instituições de ensino, por meio do desenvolvimento do senso crítico, da reflexão, argumentação e informação. Por exemplo, não sei se foi o caso, mas, na minha opinião, se a correção dessa redação, que foi citada no texto, valorizar apenas o que é certo ou errado; ao invés de valorizar a argumentação daquilo que o aluno defende – independente da opinião pessoal do corretor se aquilo ele ta defendendo é bom ou ruim – pra mim, essa iniciativa não iria atingir seu máximo potencial. Acredito que o debate dos princípios morais e de justiça não são fáceis de serem abordados, porque eles mudam com o tempo, lugar e pessoas envolvidas, além de serem, em certa medida, carregados de opiniões pessoais que irão variar na análise concreta caso a caso. Se fosse tão fácil fazer com que pessoas agissem corretamente, o poder do Estado não seria necessário, assim como as leis e etc.
    Assim, acredito que paralelamente a essa iniciativa de debate das “pequenas corrupções”, deve haver uma revisão das leis existentes, maior eficiência do judiciário, melhorar os órgãos de fiscalização (como a polícia) a fim de dar eficiência as leis existentes. Defendo isso porque acho que a moral, cada um, inevitavelmente, vai ter a sua, mas o que realmente vai definir se alguém é ético ou não será o modo como ela age na sociedade.
    Enfim, acho que essa iniciativa proposta no texto ajudaria a resolver o problema, mas não acho que seria a solução, pois engloba um problema muito maior vivido pela sociedade brasileira.

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