A Necessidade da Tolerância

A discussão sobre a tolerância em nossa tradição tem sua origem no início da Modernidade (séculos 16 e 17), momento de grandes transformações no mundo europeu, sacudido por várias crises políticas, religiosas, econômicas. As guerras civis, na França do século 16 e na Inglaterra do século 17 tiveram em grande parte motivação religiosa e levaram vários pensadores como Erasmo de Rotterdam, Michel de Montaigne e John Locke a defender a tolerância. O texto de Locke, Carta sobre a tolerância (1689), embora apresente restrições, tornou-se um clássico e é ainda hoje uma referência útil para a discussão desse conceito, sujeito a múltiplas interpretações.

O que pretendemos quando defendemos a tolerância? Essencialmente, reciprocidade, ou seja, a aceitação e o respeito por opiniões e posições diferentes das nossas e, em contrapartida, recebermos o mesmo respeito e aceitação pelos que divergem de nós. Em qualquer sociedade complexa, tal como encontramos em praticamente todos os países do mundo contemporâneo, teremos sempre uma grande diversidade de crenças, interesses, valores. A formação de nossa sociedade deu-se quase sempre através da contribuição de diferentes povos e de transformações ocorridas por razões históricas que redefiniram fronteiras, provocaram e vem provocando imigrações e levaram a mudanças profundas. Uma sociedade complexa é assim uma sociedade em que não há uma única posição dominante, embora possa haver uma posição majoritária. É uma sociedade em que se reconhece a existência dessa diversidade de posições como inerente a ela. Mais ainda, como algo positivo, contribuindo para uma cultura criativa e dinâmica. Tentativas de eliminar populações, etnias ou religiões como aconteceu em alguns momentos da história recente, nos causam repulsa e devem ser condenadas.

Com frequência, contudo, encontramos algumas críticas ao próprio conceito de tolerância, que por vezes pode significar uma atitude condescendente do superior em relação ao inferior, ou do dominante em relação a seus dominados, em que aquele que detêm o poder faz uma concessão a seus subordinados.

Mas, esse não é o sentido de tolerância relevante para nós. A tolerância que realmente importa como condição de convivência entre as diferenças em uma sociedade é a atitude de reconhecimento da diversidade, de aceitação de que outros indivíduos ou grupos possam pensar e agir diferentemente de nós. Tolerância nesse sentido significa que é necessário um solo comum de valores, crenças e atitudes no âmbito do qual se dão nossas diferenças, divergências, conflitos mesmo. Não podemos pretender que todos pensem e ajam igual, nem seria positivo isso. A mudança, o dinamismo de uma sociedade e de uma cultura, resultam de sua diversidade e das alternativas que isso representa em sua vida. E o solo comum para que isso se dê consiste precisamente na aceitação e no reconhecimento dessas diferenças. Tolerância sim, mas como aceitação, reconhecimento, reciprocidade e não como concessão feita pelos poderosos.

Em nosso contexto recente vivemos e estamos vivendo ainda um amplo debate sobre a situação política do país e sobre seus rumos. Esse debate se dá em um quadro de divergências profundas, por vezes levando a manifestações passionais. Isso é sinal de engajamento e participação política e é sempre positivo em uma sociedade. Hegel dizia que o conflito é o motor da história. Mas, é claro, pensamentos divergentes, conflito de ideias e ideais, de projetos, de propostas e não conflito enquanto violência, agressão. O intolerável é a violência, a destruição, a corrupção em seu sentido literal de desintegração, de degradação. Queremos mudança, transformação, mas dentro de um quadro que preserve identidades e pense em um projeto inclusivo, amplo, diversificado para nossa sociedade; que favoreça o debate e a busca de alternativas; debate que se baseie em informação, análise, argumentação.

Uma questão sempre surge: deve-se tolerar o intolerante? O defensor da violência, da opressão, da desigualdade? Esse seria o “paradoxo da tolerância”. Claro que devemos defender o direito de todos à liberdade de opinião e de expressão, essa foi uma grande conquista de tempos recentes e é marca das sociedades complexas e maduras política e culturalmente. Mas, o limite desse debate consiste em não colocar em risco sua própria possibilidade. O intolerante quer se beneficiar da tolerância, sem se submeter a ela, sem seguir as regras do jogo. E isso não pode ser admitido.

Danilo Marcondes

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Doutor em Filosofia, professor, Departamento de Filosofia, Coordenador do projeto ERA.
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