A Ética e a Sociedade do Espetáculo

Encerrados neste domingo os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro cabe uma reflexão sobre o que vimos e vivemos. O Rio de Janeiro deu uma belíssima evidência de sua vocação de cidade de eventos, de cidade palco. Apesar dos receios, das críticas, do pessimismo, muito frequentes em nossa sociedade e que expressam uma certa sensação de insegurança diante da ameaça do fracasso, pode-se dizer, sem nenhum exagero, que os Jogos Olímpicos foram um grande sucesso, para além das expectativas iniciais, apesar de alguns percalços antes da Abertura. A cidade tem uma paisagem deslumbrante, o carioca é em geral alegre e acolhedor e não houve grandes incidentes.

Hoje voltamos a nossa dura realidade. Desemprego em alta, inflação em alta, falta de educação, saúde, segurança. Corrupção, crise de legitimidade política, escândalos que se multiplicam e atingem os três poderes da República. É curioso e chama a atenção que a competência e a criatividade demonstradas na organização dos jogos, sobretudo nas festividades de Abertura e Encerramento, não se repitam em nossa sociedade em campos em que somos extremamente carentes, com indicadores próximos a países do Caribe e da África em saúde, educação e segurança, países estes que nunca sediaram e não sediarão no futuro próximo grandes eventos como os Jogos Olímpicos.

Falta de investimento, falta de vontade política, inversão de prioridades, manipulação política são as causas que nos vêm à mente de imediato. Não é consolo para quem estará na fila do hospital ou na do seguro desemprego a partir de hoje que o “Brasil” tenha ganho tais e tais medalhas. Mais correto seria dizer os “times” ou “equipes” brasileiras. A confusão entre o país e seus atletas é parte da manipulação política dos esportes e do atletismo em geral. É claro que temos orgulhos deles, seu trabalho é resultado de um grande esforço e de magnífico talento individual. Demonstra capacidade de obter resultados, de competir com sucesso. Demonstra também o que investimentos, preparação, visão de longo prazo (quanto tempo se leva para formar um grande atleta?), cuidado com saúde, são capazes de obter.

O grande sociólogo marxista francês Guy Debord, em um clássico publicado em 1967, A sociedade do espetáculo, e de grande atualidade, faz uma análise devastadora da manipulação política da sociedade através dos espetáculos, expõe a criação de fetiches, mostra o papel da mídia nesse processo e de como tudo isso serve a interesses do poder político e econômico. Debord chama a atenção para a necessidade de vermos além das aparências, do imediatismo, do caráter efêmero de qualquer espetáculo. Espetáculos, por definição, não são permanentes, a luta no dia a dia da sociedade, esta é.

Mas, há uma lição de ética na sociedade de espetáculo, há uma lição de ética e de política como um dos principais legados dos Jogos Olímpicos e de nossa vocação para espetáculos. Nós, que nos deslumbramos com o espetáculo e torcemos por nossos atletas, devemos agora nos tornarmos mais protagonistas e menos espectadores, cobrando dos governantes que elegemos sua responsabilidade em investimentos naquilo em que somos carentes, em organização nos serviços que funcionam mal, em eficiência e em honestidade, que efetivamente se reflitam em melhoras nas condições de vida em nossa sociedade, nessa sociedade que está na base do espetáculo. Desmontado o palco, revela-se a dura realidade dos bastidores.

Mas a sociedade do espetáculo pode começar a se transformar na medida em que os espectadores se transformem em protagonistas.

 

Danilo Marcondes

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Doutor em Filosofia, professor, Departamento de Filosofia, Coordenador do projeto ERA.
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