FairPlay e Competição no esporte

Até onde vai o espírito competitivo na prática esportiva? Até onde deve ir? Essa é uma questão muito antiga, que vem à tona com recentes acontecimentos no futebol brasileiro. No ano passado, num jogo Junior entre Vasco da Gama e Sport, o goleiro rubro-negro saiu correndo de sua área somente para dar uma violenta voadora na cabeça de um jovem cruzmaltino. A vítima saiu de campo dentro de uma ambulância. No jogo Flamengo e Palmeiras, pelo primeiro turno do campeonato brasileiro em 2011, o palmeirense Kléber não devolveu a bola aos flamenguistas após a partida ser interrompida para atendimento médico enquanto a bola estava com o time carioca. Ao contrário, o atacante foi em direção ao gol adversário. Certamente todas as pessoas são contrárias à atitude expressa no primeiro exemplo. A maioria reprova o comportamento do atacante alviverde. Mas há uma diferença importante quanto aos dois exemplos. No primeiro, o Sport não tinha nada a ganhar com aquela conduta, sendo ela absolutamente antidesportiva e ilegal. O jogador palmeirense, por sua vez, poderia marcar um gol para sua equipe, e ele não estava fazendo nada que fosse, a rigor, contra as regras do jogo.

O fairplay consiste em deixar de fazer algo benéfico ao competidor ou ao time em situações cuja regra permite fazê-lo, mas o bom senso e a ética não. Abre-se mão da possibilidade de, por exemplo, marcar um gol, em troca do “cavalheirismo” esportismo. Isso ajuda a manter uma atmosfera amistosa, de confiança recíproca entre os adversários em contextos cuja obediência somente às regras, em sentido estrito, pode gerar injustiças flagrantes.

É interessante pensar que entre as duas práticas explicitadas acima haja uma relação. Não entre elas em concreto, é claro, mas uma relação entre seus tipos, indiretamente. Ou seja, a violação de costumes do fairplay contribui para a existência de conflitos que ultrapassam os limites da competição esportiva. O esporte tem como elemento basilar a competição, espécie de conflito que se desenvolve dentro de determinadas regras. Não aderir aos ditames do fairplay – que, como explicitado, não são as regras do jogo – é priorizar a competição sobre o bom senso e companheirismo, mas não sobre o jogo em si. Abre-se espaço, no entanto, para ir mais adiante. A atmosfera esportiva fica comprometida, e por mais que as regras não tenham sido violadas, o imperativo do conflito pode estimular práticas violentas, que nada mais são do que o conflito em outra forma, deixando de estar no campo do esporte (a não ser que seja luta livre).

Não bastasse, então, o prejuízo que o não cumprimento do fairplay acarreta diretamente, qual seja o declínio do respeito pelo adversário e da beleza do espetáculo, ocorre, também, uma influência negativa na cultura esportiva, estimulando atos de violência. O ethos esportivo é, sem dúvida, constituído essencialmente pelo conflito, pela dualidade vitória/derrota, cuja polarização se dá pelo desempenho no jogo. Ele é, assim, meritocrático, premiando os que conseguiram alcançar os objetivos em questão. Dele, então, deve fazer parte o espírito do fairplay, que delineia limites à competição para além das regras, justamente para prevenir o abuso da regra em detrimento do mérito.

  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Add to favorites
  • email
  • Google Buzz
  • LinkedIn
  • Orkut
ERA
ERA
Related Posts
Showing 2 comments
  • Ian_Sam

    Vlw, pela ajuda.

  • rafaela

    me ajudou muito

Leave a Comment