Greve dos Aeroviários no Fim de Ano: Oportunismo Legítimo?

Estamos na época do Natal e ano novo, em que milhões de brasileiros se deslocam para celebrar essas datas. Um dos meios de transporte mais utilizados, que cresceu bastante nos últimos anos, principalmente entre as classes mais baixas, é o aeroviário. Não por mera coincidência, os aeroviários e aeronautas brasileiros escolheram este momento para realizar uma greve, no intuito de obterem melhores salários.

A greve não está sendo muito bem sucedida. O pessoal de ar (aeronautas) aceitou a oferta de reajuste salarial de 6,5 %, cindindo o movimento, haja vista que o pessoal de terra (aeroviários) optou por continuar a greve. Além disso, em vários estados da federação, não houve adesão à paralisação. Não obstante, um dilema ético complexo perpassa essa greve realizada em momento tão crucial.

Os grevistas aproveitaram-se da necessidade de viajar que inúmeros cidadãos brasileiros têm nesta época do ano para fazerem pressão sobre as empresas. Colocaram, de certa forma, a sociedade como refém na busca de seus interesses. É certo que este não é o objetivo deles. Querem é exercer pressão sobre as empresas, mas inevitavelmente prejudicam, e muito, todos que utilizam os serviços prestados por estas.

Por outro lado, utilizam-se de um meio legítimo, qual seja a paralisação (ainda que não possa ser total, como determinado pelo TST), na luta por uma demanda que também é legítima, que é o aumento salarial. Nesse sentido, o momento que escolheram é o mais oportuno possível, por ser o momento em que a paralisação produz mais consequências e, por conseguinte, afeta com mais força o lucro das companhias.

Em suma, o melhor momento do ponto de vista da greve é o pior do ponto de vista da sociedade em geral, que nesta situação tem interesses conexos com os das empresas, entrelaçados no consumo e na venda do serviço de transporte aeronáutico. Não à toa, os comentários das pessoas afetadas pela greve – ainda que o impacto tenha sido diminuto em relação ao esperado – revela a antipatia angariada pela classe dos aeroviários em função da greve.

Há de se refletir se existe um limite ético para o oportunismo da reivindicação baseada na paralisação. Destarte, é importante a noção de que caso em questão não versa sobre o setor público, visto que os trabalhadores trabalham para empresas privadas, muito embora o serviço seja concessão pública. No entanto, é possível considerar que o setor aeronáutico, na época do ano em que estamos, constitui verdadeiro serviço essencial à população.

Com efeito, em qualquer momento uma paralisação desse tipo afetaria gravemente dezenas de milhares de brasileiros. Ainda assim, não parece cabível uma comparação com, por exemplo, o setor médico, em que as vidas das pessoas estariam diretamente ameaçadas. Em contrapartida, é sensato considerar que esse é um daqueles casos em que uma considerável mudança quantitativa engendra uma mudança qualitativa. A quantidade de pessoas que sofre no Natal e no ano novo é tão grande que, somando-se ainda o valor social atribuído a essas datas, dá para afirmar que nessa faixa de tempo muito movimentada o setor aeronáutico é verdadeiramente essencial. Por este ângulo, então, o oportunismo dos grevistas transforma a greve em um instrumento ilegítimo, que ameaça tornar precário um serviço essencial à sociedade.

Fica, assim, a questão para se refletir, de se o momento escolhido é oportuno ou não. Ainda, e essa talvez seja uma questão mais essencial, pressupondo-se que a oportunidade em questão é relativa ao ponto de vista e aos interesses em jogo, cabe indagar se o dano em potencial representado por tal oportunismo retira ou faz parte da legitimidade do movimento grevista.

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