Adote um Chimpanzé!

Os dias de confinamento em centros de pesquisa estão chegando ao fim para centenas de chimpanzés que ainda são usados como cobaias nos Estados Unidos. Além dos EUA, somente um outro país no mundo permite pesquisas invasivas em chimpanzés, o Gabão.

Conforme recente reportagem do New York Times, ainda existem cerca de mil chimpanzés presos em centros de pesquisas nos EUA, com destaque para o New Iberia Research Center.
Este centro é vinculado a Universidade de Louisiana e abriga 360 ‘chimps’ e outros 6 mil primatas e recentemente foi alvo de acusações de maus-tratos aos animais.

A utilização de chimpanzés em pesquisas nos Estados Unidos data de 1920, quando um professor de Psicologia de Yale iniciou a “importação” dos primatas. Nos anos 50, o governo americano usou 65 chimpanzés selvagens no seu programa espacial. Eles também foram usados em pesquisas sobre a AIDS na década de 80. Pesquisas biomédicas em chimps ajudaram a produzir a vacina contra a hepatite B e espera-se em breve uma vacina contra a hepatite C, doença que afeta mais de 170 milhões de pessoas no mundo inteiro.

A enorme similaridade entre primatas e seres humanos faz dos chimpanzés preciosos instrumentos para a criação de novos medicamentos. Para um pesquisador, as pesquisas invasivas em chimps representam as melhores chances para a cura de graves doenças que afetam os seres humanos. Mas para uma parte cada vez maior da sociedade, representa tratar de modo degradante seres que merecem respeito.

Com o avanço dos movimentos de defesa dos animais, a partir de 1975, a importação de animais capturados na selva foi proibida nos EUA. Em 2000, uma lei federal veio garantir a aposentadoria dos chimpanzés que já haviam trabalhado o suficiente em prol da pesquisa científica. Um abrigo chamado “Chimp Haven” (http://www.chimphaven.org/) foi inaugurado para cuidar de animais aposentados.

Agora, as pesquisas invasivas usando chimpanzés podem ser totalmente proibidas. O principal argumento usado pelos organismos de defesa dos animais é que as pesquisas com chimpanzés tornaram-se obsoletas e podem ser substituídas por outros métodos. Desse modo, a ciência poderia obter os mesmos resultados sem o ônus da crueldade infligida aos animais nas pesquisas invasivas.

Nota-se que o argumento gira em torno de um cálculo entre custos e benefícios. Hoje, os custos das pesquisas invasivas com primatas, aí considerado o sofrimento do animal, não compensa os resultados obtidos, ou seja, a produção de medicamentos que poderão salvar a vida de milhões de seres humanos. Já estão disponíveis outros métodos que podem obter os mesmos resultados.

Essa preocupação com o bem estar dos animais pode parecer algo inútil ou mesmo contraditório. No interior do próprio movimento de defesa dos animais encontramos a oposição entre duas correntes que ilustra essa contradição.

Para os chamados “abolicionistas”, os animais possuem status moral, ou seja, uma dignidade que deve ser respeitada nos moldes da dignidade humana. Os chamados “sujeitos-de-uma-vida” são seres sencientes e, assim como as crianças humanas, possuem valor intrínseco, independente da utilidade que possam ter para nós, humanos. Assim como não podemos fazer cálculos com a vida humana, também os animais não podem ser instrumentalizados. Desse modo, a exploração de animais para qualquer finalidade – alimentação, divertimento, medicina, produção de bens – deve ser proibida.

Não existe nenhuma razão que justifique para o abolicionista a exploração do animal, mesmo que seja a cura de doenças que ceifam milhares de vidas humanas. O maior expoente dessa corrente é Tom Regan. Para ele, os animais não existem em função do homem; eles possuem uma existência e um valor próprios. Não devemos fazer cálculos de custo/benefício com seres que possuem a mesma dignidade que os humanos.

Considerando a radicalidade da exigência abolicionista, se eu como carne ou uso sapato de couro de origem animal, então seria contraditório dizer que defendo os direitos dos animais. Não há meio-termo, é tudo ou nada.

Quando acusado de crueldade contra os animais, por manter três aves de rapina presas na instalação “Bandeira Branca” na 29˚ Bienal de São Paulo, o artista plástico Nuno Ramos defendeu-se usando esse tipo de argumento que podemos deduzir do abolicionismo. O artista alegou que a crueldade contra os animais está no massivo consumo diário de carne e que seria hipocrisia tolher sua liberdade de expressão em nome de três urubus. A Justiça de São Paulo ficou do lado dos ativistas e dos urubus e mandou o artista soltar as aves.

Nesse sentido, a causa animal confronta-se frequentemente com a questão:
“Dado que a cultura ocidental é carnívora, qual a diferença entre tratar bem ou mal os animais que vamos abater”?

Ressoando a tradicional visão de que os animais existem em função do ser humano e de que não temos dever moral perante seres inferiores na cadeia evolutiva, tal raciocínio é rebatido com veemência pelos “bem-estaristas”, uma segunda importante corrente que também defende os direitos dos animais, mas sobre outras bases.

Para esta corrente, a importância de se respeitar a vida do animal senciente está em evitar o sofrimento. Morrer todos vamos. A diferença está em como vamos viver. E a qualidade de vida não é um privilégio apenas humano. Além disso, não há mais dúvida quanto ao fato de que animais sencientes sofrem. Experimentam dor e prazer, interagem com o meio e, por isso, devem ser tratados com igual consideração de interesses.

Como já apontamos no post “Devemos ser éticos com os animais?”, o principal expoente de tal corrente é Peter Singer. Para ele, praticamos o “especismo”, isto é, uma forma de exclusão baseada na espécie e na falsa ideia de uma superioridade da espécie humana.

Seguindo a lógica bem-estarista, os primatas que foram usados como cobaias, e portanto, serviram à causa humana, merecem agora desfrutar de um ambiente confortável e de uma aposentadoria digna. No site do “Chimp Haven” podemos fazer doações e até mesmo adotar e sustentar um chimpanzé.

Pode parecer estranho, à primeira vista, imaginar macacos sendo cuidados e bem tratados por seres humanos, enquanto tantas crianças humanas estão abandonadas à sorte. Mas a estranheza de situações como essas nos colocam, para além da questão social, frente à questão ainda mais profunda: a arrogância da espécie humana que não encontra limites éticos quando trata-se de se auto-preservar.

Afinal, como podemos justificar moralmente o sofrimento que infligimos aos animais sencientes na busca da melhoria da vida humana? Sobretudo quando existem outras alternativas?

E assim talvez possamos começar a inverter e deslocar o famoso bordão de Eduardo Dusek que serviu muitas vezes para deslegitimar a causa animal:

“Troque seu cachorro por uma criança pobre” pode ser relido hoje como um pedido ainda mais radical, para além do humanismo e do antropocentrismo que nos aprisiona:

“Troque o seu bife por um chimpanzé”

Para saber mais sobre o debate entre abolicionistas e bem-estaristas, sobre animais sencientes e “sujeitos-de-uma-vida”, ver:
LOURENÇO, Daniel Braga. Direito dos Animais: fundamentação e novas perspectivas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2008.
GOLD, Mark. Animal Rights: Extending the Circle of Compassion. Oxford: Jon Carpenter, 1995.
SINGER, Peter. Libertação Animal. Porto Alegre: Lugano, 1975.

Posts e artigos do ERA relacionados aos animais:
“A proteção dos animais será deixada às corporações”?
“A privacidade do musaranho”
“Briga de galo: contrária à dignidade humana?”
“Alertas éticos: acerca de pesquisas com animais contendo material humano”

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Rachel Nigro
Rachel Nigro
Doutora em Filosofia e Mestre em Direito pela Puc-Rio; professora dos departamentos de Direito e Filosofia, do Centro de Empreendedorismo e do Centro de pós-graduação em Filosofia Contemporânea.
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  • […] ser o critério a determinar a forma como devemos tratar os animais não-humanos. A capacidade de ser ‘senciente’, ou seja, a capacidade de sentir dor e prazer, e não a capacidade de raciocínio e articulação […]

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