Fazendo as coisas certas

O Desmoronamento de Edifícios no Rio e a Necessidade de Mudar Antigos Hábitos:

Recentemente um canal por assinatura transmitiu um programa sobre o Mosteiro Suspenso da China, construído em madeira na lateral de um penhasco há 1500 anos. Ao longo destes quinze séculos, ele resistiu às intempéries do tempo (inclusive a terremotos) e à destruição causada por inúmeros conflitos humanos. Os edifícios que ruíram no centro do Rio no último dia 25 tinham menos de cem anos e, portanto, dispuseram de muito mais tecnologia para a sua construção e manutenção ao longo das últimas décadas. As duas situações são extremas: não é comum vermos construções que resistam incólumes por tantos séculos, nem é aceitável no século XXI que edifícios caiam em pleno coração de uma grande metrópole. Sem entrarmos em detalhes técnicos da Engenharia, o que cariocas e demais brasileiros podem aprender com isso?

Uma das razões para a preservação do Mosteiro Suspenso foi a decisão dos chineses de destiná-lo à adoração de budistas, taoistas e confucionistas, o que o poupou da destruição após sucessivas guerras e trocas de poder ao longo do tempo. Ou seja, os chineses tomaram a decisão adequada ao vislumbrarem além dos interesses de um grupo limitado de pessoas.

As primeiras especulações quanto à causa do acidente apontam para obras de reforma em um dos prédios que desabou, o Edifício Liberdade. É comum vermos obras em prédios antigos, de forma a torná-los mais confortáveis e equipá-los com centrais de ar condicionado e outros recursos contemporâneos. Este tipo de reforma, chamado de retrofit, ocorre em muitos edifícios comerciais como maneira de atualizar estes imóveis às necessidades dos dias de hoje. A tecnologia atual permite este tipo de mudanças, desde que o conhecimento técnico seja utilizado adequadamente. No entanto, segundo engenheiros entrevistados a respeito do acidente, as obras foram iniciadas sem que fossem seguidos os procedimentos legais necessários para a sua aprovação e, mesmo antes disso, janelas foram recortadas inadvertidamente na lateral do prédio. Vêm à tona discussões quanto à responsabilidade dos proprietários e síndicos de imóveis que decidem reformá-los, responsabilidade de empresas de engenharia que devem estar registradas no órgão competente, responsabilidade do poder público que deve fiscalizar a obediência às leis.

Quando falamos em responsabilização estamos discutindo a eventual culpa de pessoas, empresas ou órgãos que possam ter causado o acidente ou que poderiam ter ajudado a evitá-lo. É uma ação retroativa, executada após o acontecimento, e que será gradativamente esquecida pela maioria de nós ao longo dos próximos meses e anos. Esta investigação é necessária, mas igualmente relevante é a adoção de medidas que evitem tragédias futuras. Por isso é importante aproveitarmos este momento para repensarmos nossa maneira de fazer as coisas, e corrigirmos o que for preciso.

Ao longo dos últimos anos pudemos observar outras tragédias causadas por falha humana: a queda do Palace II, o desabamento nas obras do metrô de São Paulo em 2007, o acidente no voo da TAM no mesmo ano, o desabamento do Morro do Bumba em Niterói, entre outras. Como no desabamento recente, nestas já ocorria algo errado antes das respectivas calamidades, e se alguém interviesse a tempo poderia pelo menos tê-las minimizado. Mas ninguém o fez, talvez para manter alguma situação irregular da qual estivesse se beneficiando (o que é recriminável sob todos os aspectos). Também é possível que pessoas não tenham tomado iniciativas porque subestimaram o risco existente, ou porque acharam que isso era função de outro. Talvez tenham pensado “sempre fizemos assim e funcionou, não há motivo para dar errado agora”. Pessoas comuns como nós, que viviam o seu dia-a-dia da forma como consideramos normal.

Ao longo de nossas vidas, fazemos com naturalidade tudo aquilo que convencionamos como sendo “normal”, das atitudes mais simples e inocentes às mais graves. Reclamamos do troco a menos, fingimos não ver o troco dado a mais. Tomamos remédios por conta própria, sem ouvir um médico. Adiamos o estudo, colamos para passar. Utilizamos locais destinados a deficientes e idosos. Copiamos músicas e filmes sem pagarmos por isso a quem de direito. Excedemos limites de velocidade, avançamos pelo acostamento no engarrafamento, ao invés de pararmos no sinal amarelo às vezes vamos em frente até mesmo com a luz já vermelha. Adotamos posturas profissionais inadequadas, e nos escondemos atrás de duas desculpas: “não posso perder o meu emprego”, e “no final das contas todos agem assim mesmo”. Ignoramos que o direito de um termina onde começa o direito do outro. E então, num dado momento, um conjunto de atos que não deveriam ser tidos como “normais” provocam aquela consequência indesejada e previsível. É quando nosso castelo de cartas desaba – ou talvez, lamentavelmente, um outro Edifício Liberdade. Felizmente muitos de nós não somente temos opiniões diferentes, mas principalmente agimos de forma distinta e alimentamos esperanças de que estes vícios de comportamento um dia mudem.

É este, portanto, um dos pontos que precisamos repensar no Brasil atual: a forma “normal” como vivemos o nosso dia-a-dia. Será que ela é a mais adequada, ou será que deveríamos alterá-la? Será que nossos hábitos são apropriados, ou será que podemos mudar algumas de nossas atitudes de forma a construirmos uma sociedade melhor? Por acaso agimos de forma inconsequente, fazendo vista grossa àquilo que deveríamos estar atentos? E será que já não é hora de acabarmos com a cultura do “jeitinho brasileiro” de fazer as coisas, à “meia-boca” ou “nas coxas”? Ou seja, o hábito de fazê-las de qualquer maneira e sem qualidade, cuidado ou conhecimento? Deveríamos parar e pensar a respeito, questionando a nós mesmos com relação ao que precisamos fazer para nos transformarmos em uma sociedade que faz a coisa certa.

Ao longo dos últimos anos alguns setores progrediram bastante em nosso país. Na economia a inflação vertiginosa desapareceu, o poder aquisitivo de milhões se elevou e nos destacamos no cenário global. No entanto, graves problemas ainda assolam o Brasil: há muita desigualdade e pobreza, temos um sistema de saúde deficiente, faltam infraestrutura e políticas educacionais sérias e de longo prazo, os processos judiciais são lentos, e a corrupção impera em muitas instituições públicas e privadas. Há também muitas pessoas com subempregos ou trabalhando na informalidade devido a anomalias em nossas políticas trabalhistas, fiscais e educacionais, e necessitamos importar mão-de-obra porque ao longo do tempo não soubemos preparar nossos próprios estudantes e trabalhadores para as necessidades e oportunidades atuais.

Como mudar este quadro? Trata-se de um processo lento, ao longo do qual precisamos alterar antigos hábitos e ideias. Em nossa vida diária busquemos fazer não apenas o essencial, façamos as coisas da melhor maneira que estiver ao nosso alcance. Valorizemos a ética, sigamos as leis e as normas e, caso as consideremos ruins, trabalhemos para mudá-las. Indignemo-nos com as injustiças, com os desvios de verbas e com os escândalos que afrontam os nossos bons princípios. Avaliemos com atenção as propostas feitas pelos políticos, de forma a elegermos candidatos competentes e comprometidos a trabalhar por um local melhor para todos. Exijamos deles, a quem pagamos salários elevados, uma conduta exemplar.

E, por fim, que não precisemos de novas tragédias para voltarmos nosso olhar ao passado e vermos que deveríamos ter feito as coisas certas desde o início.

 

http://oglobo.globo.com/rio/suspeita-de-negligencia-predio-que-desabou-tinha-obras-sem-licenca-3774067

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1786517-7823-PRESIDENTE+DO+CREA+AFIRMA+QUE+ABERTURA+DE+JANELAS+NAS+LATERAIS+DOS+PREDIOS+E+IRREGULAR,00.html

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/01/obra-em-predio-que-desabou-no-rio-nao-tinha-engenheiro-responsavel.html

http://oglobo.globo.com/rio/empresas-administracao-do-predio-se-contradizem-sobre-responsabilidades-3776636

http://portuguese.cri.cn/101/2007/04/25/1@66271.htm

http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2010/11/templo-suspenso-75-m-do-chao-e-erguido-por-finos-pilares-de-madeira.html

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