Efeitos jurídicos e sociais do caso Zara

Não é raro um acontecimento que cause indignação popular, provoque o público e mobilize as massas. Mas, na maioria das vezes, o impacto passa, os ânimos se acalmam, esquecemos a situação e seguimos com a vida. É natural. O caso Zara é um exemplo. Denunciou-se o problema, mas poucos sabem dizer quais foram as reais consequências para a empresa.

Para estabelecer um parâmetro geral do caso, que ganhou muito espaço no site do ERA, relembremos os principais pontos do escândalo: a investigação realizada pelo Ministério Público do Trabalho constatou que uma oficina têxtil no Brasil mantinha trabalhadores em condições análogas à escravidão, ganhando muito abaixo do necessário a garantir os mínimos existenciais, vivendo em condições insalubres e trabalhando 14 horas por dia, como já ressaltado no post “Escravidão moderna”. A principal compradora do resultado da exploração era a marca Zara.

Propriedade de Amancio Ortega, que recentemente foi classificado pela Forbes como o quinto homem mais rico do mundo, a empresa renomada, com distribuidores por todo o mundo, foi colocada em evidência por um problema que não é só das vítimas do caso. A escravidão é uma realidade atual e não diz respeito somente àqueles que até hoje sofrem com a exploração. Toda a sociedade perde quando os direitos humanos são tão cruelmente desrespeitados.

Depois da denúncia que virou notícia em inúmeros jornais, procurou-se a melhor forma de punir os responsáveis. O grupo espanhol Inditex, que detém a marca, tentou abster-se das responsabilidades argumentando se tratar de uma empresa terceirizada, mas em dezembro do ano passado, seus executivos assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, que exigia o reforço do sistema de auditoria de fornecedores e investimentos para corrigir e evitar futuras falhas no setor. Ficou estabelecido o pagamento de multa de 3,4 milhões de reais (uma redução de 80% do valor da primeira proposta, já comentada no post “Os desafios jurídicos para combater a escravidão moderna”) para serem revertidos em investimentos sociais, além do comprometimento da empresa a pagar a quantia de R$ 50.000,00 se qualquer de seus fornecedores for flagrado praticando irregularidades, independentemente de culpa.

Com todos os problemas de questão ética, a reputação de toda a empresa fatalmente sofre sanções, mesmo que a situação seja localizada em território brasileiro. Além dos danos à imagem e dos efeitos jurídicos, especula-se se houve queda nas vendas. Uma questão nestas proporções de gravidade foi suficiente para criar o repúdio da população?

É de extrema importância que casos como esse não venham à tona somente para encher as páginas dos noticiários. Devem ser discutidos para que sirvam de alerta para a população e principalmente para os empresários. Uma grande empresa tem muita influência no imaginário popular e na economia. Suas responsabilidades vão além das questões administrativas.

As descobertas mudaram verdadeiramente o quadro da empresa? As medidas tomadas foram concretas e eficientes para evitar a repetição desta barbárie? Vale lembrar que a Zara não é a única nem a primeira envolvida em denúncias de exploração de trabalho escravo. Já se passaram 124 anos da abolição da escravidão no Brasil, mas quando poderemos ter certeza de que esta tortura realmente acabou? É esse tipo de indagação que não pode cair no esquecimento. Que o caso Zara sirva de lição.

Leia também:
http://era.org.br/2011/08/trabalho-escravo-uma-realidade-do-seculo-xxi-4/
http://era.org.br/2011/11/a-etica-empresarial-na-sociedade-capitalista/
http://era.org.br/2011/09/gestao-da-cadeia-de-valor-uma-responsabilidade-etica-das-empresas/

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Showing 3 comments
  • Rodrigo Caetano

    Acho realmente importante que se acompanhe o resultado de todas as denuncias que são feitas diariamente e que chocam por um momento o espectador/leitor. No mundo em que vivemos o acesso a informação é tão amplo e fácil que são descobertos casos tão escandalosos quanto esse diariamente, e apesar disso ser algo a se comemorar, devemos tomar cuidado para que o escândalo não se torne corriqueiro.

    É reconfortante saber que, mesmo que a punição não seja aquela proposta inicialmente, os responsáveis por esse triste episódio estão sofrendo algum tipo de sanção e que alguma providencia está sendo tomada.
    Recebemos noticias chocantes a todo momento, e em qualquer lugar, mas poucas vezes paramos para realmente nos chocar com elas e raros são os interessados em saber o que elas desencadeiam.

    O caso da Zara, como muito bem salientado, é mais um exemplo, inaceitável, no meio de muitos. Mais um escândalo em uma sociedade cada vez mais escandalosa, mas que, infelizmente, está ficando acostumada com o inaceitável. Até quando?

  • Isabel Fernandez Oliveira

    O RH da Zara é tão antiético que quando um candidato não é aprovado no processo seletivo eles enviam um feedback com uma imagem de uma modelo jogando uma pessoa mal vestida no chão. É um susto abrir um e-mail e ver isso, ao invés de ver uma mensagem de aviso e que não foi aprovado porque não corresponde ao perfil e tal…

    • Rachel Nigro
      Rachel Nigro

      Que horror Isabel! Obrigada por compartilhar essa absurda prática da empresa.

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