O mito da racionalidade no trabalho

Durante muito tempo as emoções foram um tópico de pouca importância para a área de comportamento organizacional. Uma das razões para isso é que nas organizações reinava o mito da racionalidade. Esse mito está baseado na crença de que o correto é reprimir e abafar as emoções no trabalho. As emoções não eram vistas como sendo construtivas ou possíveis de contribuir para o melhor desempenho, sendo percebidas apenas como perturbadoras. A crença de que expressar as emoções faz com que as pessoas pareçam fracas, inseguras e irracionais contribui para as organizações criarem uma cultura que incentiva o controle e a repressão das emoções.

Entretanto, uma organização isenta de emoções é algo impossível, pois elas são parte inseparável das pessoas e da vida cotidiana. De fato, algumas vezes, se demonstradas no momento errado, elas podem atrapalhar o funcionamento eficaz. Contudo, os funcionários levam as emoções para o trabalho todos os dias e, por isso, considerar o papel delas no ambiente organizacional é fundamental.

Muitas vezes, os ambientes de trabalho requerem das pessoas que elas estampem sempre um sorriso no rosto e a projeção de uma imagem amigável. Mesmo que um funcionário não esteja se sentindo particularmente alegre, ele sabe que o chefe espera que ele seja gentil e atencioso com os clientes e colegas de trabalho. Isso faz com a pessoa finja estar feliz. Portanto, muitos trabalhadores empreendem esforço físico e mental quando colocam o corpo e a mente na realização de suas tarefas.

A expressão de emoções desejadas pela organização feita pelos funcionários durante os relacionamentos interpessoais no trabalho requer o que a literatura denomina de esforço emocional. Esse conceito foi inicialmente desenvolvido com relação ao trabalho no setor de serviços. Espera-se, por exemplo, que vendedores e atendentes sejam alegres, funcionários de uma funerária, tristes e, médicos, emocionalmente neutros. Atualmente, considera-se esse conceito relevante em quase todos os setores. Os gerentes de uma empresa esperam que seus subordinados sejam atenciosos e não hostis em suas interações com os colegas. O verdadeiro desafio surge quando as pessoas necessitam demonstrar uma emoção quando estão sentindo outra. Essa disparidade cria uma dissonância emocional, o que pode causar consequências adversas, pois os sentimentos reprimidos de frustração, raiva e resentimento podem levar a exaustão emocional e a fadiga. Em virtude da crescente importância do esforço emocional como um fator-chave para o desempenho eficaz, o entendimento das emoções passou a ter uma relevância maior dentro do estudo do comportamento organizacional.

Os trabalhadores podem se ver diante de um dilema ao estarem forçados a simular as suas emoções. Por exemplo, no cotidiano profissional todos precisam lidar com pessoas com as quais não têm afinidade e, independente disso, o trabalho exige que se interaja com elas cordialmente. Além disso, existem situações como, por exemplo, receber uma avaliação de desempenho negativa ou ser passado para trás em alguma oportunidade de promoção, que igualmente exigem das pessoas que disfarcem seus verdadeiros sentimentos. Assim, a forma como se experimenta uma emoção não é a mesma forma como se expressa. Demonstrar emoções falsas exige a supressão das verdadeiras. Essa supressão pode ser no nível superficial, quando a pessoa tenta apenas escondê-la e renunciar apenas à expressão da emoção genuína ou, no nível profundo, quando se tenta modificar os verdadeiros sentimentos com base nas regras de demonstração. A atuação superficial lida com emoções demonstradas e atuação profunda com emoções sentidas.

Existem alguns problemas éticos decorrentes das tentativas das organizações de controlar e limitar as emoções genuínas dos funcionários no trabalho. As regras de interação podem ter custos para os funcionários no sentido de que as organizações, ao forçarem os funcionários a sentirem e agirem de maneira que servem apenas às necessidades das organizações, estão agindo como uma “polícia do pensamento”. Muitas vezes, até mesmo os clientes poderiam preferir que os funcionários fossem genuínos em vez de apenas agir como um “pacote de sorrisos”. Claro que as pessoas não devem ser abertamente hostis, mas um sorriso falso também pode ser igualmente desagradável. Além, disso, ao privilegiar a conformidade das manifestações emocionais, as empresas tiram o espaço da espontaneidade e da variabilidade humanas e assim perdem também na capacidade de reagir frente às contínuas transformações, que exigem adaptação e ajustamento rápidos. Dessa forma, as organizações deveriam encorajar as pessoas a serem elas mesmas, dentro do limite do razoável.

  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Add to favorites
  • email
  • Google Buzz
  • LinkedIn
  • Orkut
ERA
ERA
Related Posts

Leave a Comment