Veja essa

Na esteira do escândalo envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira e políticos brasileiros, um fato importante, que talvez não esteja recebendo muita atenção por parte dos meios de comunicação, veio à tona. Através de escutas telefônicas, descobriu-se que o contraventor fornecia informações a Policarpo Junior, diretor da revista Veja na sucursal de Brasília.

Entre outros “furos”, cuja fonte foi Cachoeira, constatou-se que, a mando do bicheiro, foram obtidas imagens do ex-ministro José Dirceu em encontro com políticos, que depois foram repassadas à revista. A partir dessas imagens surgiriam acusações de que Dirceu estaria por trás da queda do também ex-ministro Antonio Palocci.

Esse fato levanta questões polêmicas sobre os limites da liberdade de imprensa, e sobre até onde é ético os repórteres irem para obter informações. É verdade que a liberdade de imprensa é um princípio fundamental de um Estado democrático, e que, hoje em dia, o jornalismo dispõe de uma margem de manobra bem maior do que dispunha em outros tempos. Porém, quando a prática jornalística tem como fonte o crime organizado, há um grande risco de que limites sejam extrapolados, que outros princípios igualmente importantes, como o da inviolabilidade do domicílio, por exemplo, sejam transgredidos. É bem possível que, aqui, este tenha sido o caso.

A revista em questão vem alegando que a prática do jornalismo investigativo implica em ter contato com criminosos, justamente porque são eles que possuem informações privilegiadas sobre crimes. Uma espécie de argumento baseado na ideia de que os fins justificam os meios. Seu diretor de redação, em resposta ao mal estar provocado pela descoberta da relação entre a revista e o bicheiro, fez um texto em que apresenta a seguinte tese:  Se um repórter roubar uma pasta com planos para um ataque terrorista contra Itaipu e, com a publicação, evitar tal ataque, a implicação ética lhe será altamente favorável. Ainda, nesse mesmo texto, alegou que é de crucial importância o fato de que informações obtidas através de métodos ilegais publicadas pela revista digam respeito à atuação de autoridades quando tratam de questões que envolvem dinheiro ou bens públicos, e que, caso versassem sobre cidadãos ou empresas privadas, a revista as descartaria ou entregaria à polícia.

Não é completamente isenta de sentido esta explicação. No entanto, cabem algumas reflexões a respeito. É possível que, caso um repórter impedisse a explosão da nossa maior hidrelétrica por meio do furto de uma pasta, o “saldo” ético do repórter, por assim dizer, lhe seria favorável. Mas o caso em questão está longe de ser essa hipótese ventilada. Trata-se não da prevenção de um ataque terrorista, mas da realização de um ataque a um adversário de longa data da revista. E se o alvo não fosse José Dirceu, mas alguém politicamente próximo da sua linha editorial, será que o fato receberia a mesma atenção? Pelas capas da revista no mês de abril – dentre as quais, enquanto explodia o escândalo envolvendo o deputado Demóstenes Torres e o bicheiro, exaltava-se as vantagens de ser magro e alto sobre ser gordo e baixo e, em outra edição, proclamava-se a renovação do mistério do Santo Sudário – tudo indica que a resposta a essa pergunta é negativa. Fortalecendo essa ideia, há acusações, também, de que Policarpo Jr. tinha conhecimento da relação entre Demóstenes e o contraventor, mas nada foi publicado a respeito. Ao contrário, o senador era alçado à condição de mosqueteiro da ética.

Ademais, é bastante conveniente resguardar-se afirmando que o tratamento dado por ela a informações referentes a empresas privadas e cidadãos comuns é diferente do tratamento dado a figuras públicas no manejo de bens públicos. Afinal, além de angariar a simpatia dos “cidadãos comuns” leitores da revista, seria eticamente condenável a publicação de ataques à revista tendo como base informações obtidas ilegalmente, já que ela é uma instituição privada.

Por outro lado, há de se pesar que, como colocado, o jornalismo investigativo envolve contato com criminosos, justamente pela entrada que têm no mundo do crime. Por mais que, ao fornecer informações, a fonte tenda a ter uma agenda própria, com interesses geralmente escusos, pode ser que a publicação sirva ao interesse público, como, sem dúvida, muitas das reportagens da Veja já serviram. O maior entrave ético não é propriamente o contato com fontes criminosas, mas o tipo da relação e a escolha seletiva dos alvos. De acordo com as escutas telefônicas, Cachoeira, que como fonte de informações buscava derrubar ou pressionar os políticos e empresários que lhe criassem problemas, tinha até o poder de influenciar em que seção da revista suas notícias deveriam aparecer.

Situação ainda mais antiética é quando o meio de comunicação não apenas publica informações que são produtos de crimes, mas cometem crimes para produzir notícias. Nesse sentido, vale lembrar que tudo indica que um repórter da Veja, supostamente a mando de Policarpo Jr., tentou invadir o quarto de hotel de José Dirceu, que, inclusive, chegou a dar queixa na polícia.

Essa confusão toda ainda está no começo, e um tanto mal explicada. Ao que parece, muita água vai rolar, provavelmente novas revelações brotarão, e a relação entre a revista e o bicheiro será mais bem elucidada, esperamos. Neste processo, é muito importante preservarmos a imprensa livre que, afinal de contas, é um fruto e um tronco do regime democrático. Nesse sentido, por mais que parte da imprensa não esteja dando muito destaque a esse imbróglio, é justamente por causa da liberdade de imprensa que, através de diversos canais, podemos ter conhecimento dele. Porém, é fundamental que a imprensa livre não seja livre das leis, pois vivemos – ou pretendemos viver – em um estado democrático de Direito, em que a imprensa é componente importante, mas que se subordina à democracia e à legalidade.

Referências:

Os desinformantes: Gravações mostram que a relação entre Veja e o grupo de Cachoeira pouco tinha a ver com jornalismo, Carta Capital de 03 de maio de 2012.

Falam os delegados: Na CPI, nada bom para Veja, Roberto Gurgel e Marconi Perillo, Carta Capital de 10 de maio de 2012.

Ética Jornalística: Uma Reflexão Permanente: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/etica-jornalistica-uma-reflexao-permanente

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