Poder, Foucault e ética nas organizações

O pensamento político tem como uma de suas problemáticas centrais a fundamentação do poder. Qualquer investigação acerca do Estado perpassa as questões sobre  a legitimação do poder ou a justificação da obediência política. O indivíduo busca entender os princípios que regem a sua vida enquanto membro de uma comunidade política que lhe atribui direitos e deveres. Essa relação entre o indivíduo e sua comunidade política mostra-se complexa e não é tão harmoniosa de tal forma que possamos descartar a necessidade de uma investigação mais profunda. Parece-nos que um olhar reflexivo levanta inúmeros pontos de tensão que podem questionar a própria validade dessa relação. Como podemos, então, pensar essa relação que interfere tanto na vida do indivíduo, mas que, na maioria das vezes, não é fruto de uma escolha, apenas da contingência? Ora, nasce-se já pertencendo a uma comunidade e não é fácil trocá-la, pois há inúmeras barreiras culturais, burocráticas e pessoais. Modificá-la também não é tarefa fácil. A inércia dificulta mudanças na estrutura da sociedade, sendo necessária alguma explosão revolucionária ou algum grau de conserto coletivo para instaurar uma nova ordem social. O indivíduo sozinho revela-se em desvantagem frente a esse coletivo, mesmo sendo ele a razão de ser deste (ao menos numa sociedade que enfatize a importância do indivíduo como a tradição ocidental). O que, então, caracteriza a relação entre o ente político e o indivíduo? Por que ela se dá? Para que fim?

Para começar, notamos uma grande divergência entre interesses públicos e privados. Ora, se os interesses particulares de um tivessem validade universal sobre toda a sociedade, o bem-comum teria um peso inferior, ou, pelo menos, a vontade particular de um teria precedência sobre a dos outros. A primazia da vontade de um numa pluralidade de vontades representa um desnível, uma inequidade. Por que o meu desejo particular seria mais importante que o do próximo perante a sociedade? Tal patente desigualdade dificilmente seria justificada numa situação aonde a igualdade entre pessoas é ensejada. Desta forma, a pluralidade de desejos e vontades precisa ser administrada. O movimento da configuração política da modernidade parece refletir uma tentativa de adequação à pluralidade de vontades; da monarquia absolutista, que exprime a primazia de uma só vontade, à democracia, que representa a multiplicidade.

Hobbes afirma que a liberdade é a ausência de oposição, de interferência nas atividades do agente (Hobbes,1979). Esse raciocínio foi seguido posteriormente pelos liberais, como John Locke, Benjamin Constant e J. S. Mill (Berlin,1981), significando a capacidade de agir segundo a sua vontade sem interferência alheia. Nesse sentido, o outro será sempre fonte de interferência, porquanto a liberdade de um constitui obstáculo em potencial à realização da liberdade do outro em razão da diversidade de interesses. Portanto, se desejamos certa equidade na sua distribuição e estabilidade social para que não se usufrua liberdade à custa da liberdade de outros, esta carece de um fiador. O Estado sobrevém como árbitro das controvérsias.

Uma leitura clássica poderia dizer que essa capacidade do Estado de se impor sobre os indivíduos, proporcionada pelas suas instituições e agentes, consiste no poder. Poder de impor uma vontade sobre as outras pela ameaça, direta ou indireta, de violência ou sanção.

Contudo, como Foucault nos mostra (Foucault,1982), o poder pode ser visto por outra ótica. O poder é relacional, ou seja, é exercido numa relação entre duas ou mais partes. Ao dizer que o poder é relacional, concebe-se que este é produto das desigualdades e desequilíbrios que podem estar presentes em quaisquer relações.  Essas relações de poder são encontradas em toda a estrutura da sociedade, desde as relações cotidianas entre pessoas até as relações entre os grupos da sociedade e os aparelhos estatais.

Essa concepção de poder nos mostra que o Estado capturou numerosas relações de poder, mas não é sua fonte, uma vez que o poder – ao invés de assumir a forma de lei – mostra-se como relação, não sendo a violência ou a lei, mas uma relação estratégica de forças que se estabelece e que pode deixar de existir.

Dessa forma, o poder não é possuído, mas algo que é exercido de acordo com um determinado contexto: ele é um instrumento de diálogo entre os indivíduos. Partindo da perspectiva foucaultiana, que expande a compreensão deste conceito para além do contexto do Estado de Direito, podemos pensar esta questão no contexto organizacional.

Certamente o poder é um elemento que perpassa o cotidiano das organizações, já que nele configuram-se diversas relações interpessoais: de cooperação, de competição e, logicamente, de hierarquia.

O poder está contido em diversas relações e não somente naquelas “obviamente” hierárquicas: entre as pessoas existe uma relação de forças que permeia suas ações. Mesmo, por exemplo, quando pensamos em condições de mesmo nível hierárquico, pois, nesses casos, existem outros elementos que definem a assimetria de forças, como personalidade, capacidade de persuasão etc. Desta forma, não é entendido como exclusivamente coercitivo ou negativo. O poder é visto pelo viés da assimetria de forças que surge das relações interpessoais.

Ao vermos o poder não sendo unicamente uma força coercitiva e negativa, podemos trazer à luz um aspecto importante, que é a sua dimensão ética. Reconhecer o poder contido nas relações não é constatar que tudo pode ser feito àquele que está submetido a determinado poder. E, muitas vezes, vemos que é exatamente isso que acontece no ambiente corporativo, com lideranças excessivamente arbitrárias, causadoras de constrangimento, assédios etc.

O caso das lideranças é um exemplo importante a ser considerado, pois há uma clara relação de força e poder entre líder e liderado. O poder do líder serve não somente para reafirmar sua condição de liderança, aonde a coerção prevalece, mas pode também ser um meio para alavancar suas equipes, extraindo de cada um seus potenciais.

E, assim, podemos notar a dimensão ética que perpassa as relações de poder neste contexto, pois é possível escolher de que forma e com qual propósito tal força será exercida.

Referências bibliográficas:

BERLIN, Isaiah. Quatro ensaios sobre a liberdade. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1981.

HOBBES, Thomas.  Leviatã. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz da Silva, São Paulo: Abril Cultural, 1979.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Org. Roberto Machado, Rio de Janeito: Edições Graal, 1982.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2001.

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Flora Tucci
Flora Tucci
Doutoranda em Filosofia pela Puc-Rio e psicanalista.
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