Educação de qualidade para todos – e de graça?

Enquanto o Brasil ainda sofre de um mal estrutural na educação básica oferecida à população, algumas iniciativas gratuitas ao consumidor final estão se espalhando e tomando proporções antes não imaginadas. Harvard e MIT, consideradas duas das melhores instituições de ensino superior do mundo, recentemente divulgaram a criação da “edX”, que disponibilizará educação gratuita no formato de aulas via internet para milhares de pessoas mundialmente. As primeiras aulas serão disponibilizadas no segundo semestre de 2012, em transmissão de aulas universitárias em inglês.  E se hoje não há nada declarado a respeito, não seria improvável que esteja já nos planos da edX expandir seus cursos para outras línguas e até mesmo para outros níveis educacionais, além da graduação e pós-graduação.

Outra iniciativa de ensino de qualidade gratuita que usa os caminhos da internet como forma de chegar aos consumidores finais é o já bastante conhecido (e reconhecido) Khan Academy. Criado por Sal Khan, um jovem matemático americano formado pelas mesmas prestigiadas instituições, Harvard e MIT, mencionadas anteriormente, o site hoje conta com quase três mil vídeos gratuitos ensinando sobre os mais diversos temas relacionados à educação. Em janeiro de 2012, seus vídeos contavam com mais de 4 milhões de alunos1, atraídos pela didática que Sal demonstra na explicação de temas de diferentes complexidades, colocados de forma simples em vídeos de curta duração sobre temas em mais de quarenta áreas de conhecimento. E, claro, também por serem gratuitos e de livre acesso pela internet. Hoje com aporte da fundação de Bill Gates, a Khan Academy tornou-se base da cartilha aplicada em mais de 6000 salas de aula em diferentes partes do mundo2, o que indica o potencial que tem na revolução da educação escolar.

MIT, Harvard e Sal Khan não são iniciativas isoladas. Inúmeras outras iniciativas, muitas vezes realizadas em menor porte e por empenho até mesmo de indivíduos isoladamente, também se propõem a prover ensino gratuito e de qualidade para a população em geral. A plataforma web facilita a disponibilização e distribuição deste conhecimento, sendo geralmente o veículo de escolha para esta modalidade de ensino. Dentre estas iniciativas, há algumas brasileiras, como a de Thiago Feijão, atualmente aluno do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Thiago lançou recentemente um site inspirado na Khan Academy, o Quadrado Mágico e tem centenas de vídeos de ensino em produção para disponibilizar ao público em geral.

Estas iniciativas não pretendem – e nem conseguiriam, neste momento – sanar as deficiências estruturais educacionais. Ainda servem de complementação para aqueles que buscam este tipo de conhecimento, motivados seja por dificuldades em entender algum tema que se esteja estudando, seja por pura curiosidade e desejo de aprendizado. Para grande parte da população mundial – sendo inclusive o caso da população brasileira – a educação gratuita e de qualidade oferecida por estes sites e instituições passa despercebida, como se ocorresse em um mundo paralelo e invisível aos olhos de grande parte da população. Alguns dos principais motivos são: o acesso ainda restrito a computadores e a serviço de internet, o próprio hábito de usar o conteúdo da rede como forma de educação e o conteúdo das aulas, em nível bastante superior ao entendimento daqueles que, quando muito, estudam em escolas com qualidade de ensino sofrível e, portanto, comprometendo a capacidade de aprendizagem de seus alunos. Seria possível estender os motivos aos vícios da cultura brasileira que, por exemplo, não prestigia o ensino e a aplicação dos alunos à aprendizagem, ou até mesmo à deficiência nutricional da qual sofre ainda parte significativa da população.

Estes problemas não vão ser resolvidos pelas iniciativas citadas neste texto e de tantas outras disponíveis pelo mundo. No entanto, os caminhos para uma revolução na educação já estão abertos. E é possível imaginar que eles se expandirão para a educação básica dos que têm menos acesso hoje,  proporcionando a esses indivíduos possibilidades de futuro, que sem educação lhes são vetadas. A Fundação Lemann, por exemplo, em parceria com o Instituto Natura e o Instituto Península, levou o ensino de qualidade de Sal Khan a algumas escolas públicas municipais de São Paulo como ensino complementar, treinando professores da rede pública no uso de vídeos do Khan Academy dublados para o português para uso em suas aulas. Se ainda há muito a fazer para melhorar a educação no Brasil, estes parecem ser excelentes prenúncios de avanços importantes no tema.

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1. WEINBERG, Monica. O mundo de um novo ângulo. Revista VEJA, n. 2254, 01/fev/2012, p. 64-71.

2. Idem

Referências:

http://www.theatlantic.com/technology/archive/2012/05/the-single-biggest-change-in-education-since-the-printing-press/256655/

http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI176149-17171,00-O+PROFESSOR+FAVORITO+DE+BILL+GATES+E+UM+EMPREENDEDOR+SEM+SEDE+DE+DINHEIRO.html

WEINBERG, Monica. O mundo de um novo ângulo. Revista VEJA, n. 2254, 01/fev/2012, p. 64-71.

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