Rio + 20 – Crescimento econômico com sustentabilidade?

Rio+20Entre vários assuntos importantes que estão sendo debatidos na Rio + 20 e demais encontros satélites, a questão de fundo que perpassa as discussões é a contradição latente entre o acesso aos bens de consumo como valor democrático universal e a exaustão dos recursos naturais do planeta. O desenvolvimento científico, tecnológico e produtivo propiciado pela economia de mercado foi fantástico, mas apoiava-se na premissa da capacidade do planeta de renovar os serviços ambientais infinitamente. Certamente, se continuarmos no mesmo ritmo do século passado, quando assistimos uma aceleração brutal no consumo de recursos não renováveis, não restará planeta para as futuras gerações.

Possibilitar a todos acesso aos bens que a minoria próspera possui é uma exigência política de justiça que pressupõe um crescimento econômico incompatível com a preservação do meio ambiente. Nesse sentido, as propostas de resolução da equação entre crescer, distribuir e sustentar precisa ser repensada e discutida de modo transparente, deixando claro as visões econômicas e políticas distintas que as sustentam.

Apesar das diferentes propostas, todos concordam que os recursos naturais não subsistirão se continuarmos no mesmo ritmo de exploração. Hoje, empresários e economistas concordam que garantir a reposição de tais recursos é uma exigência econômica e que é fundamental termos uma economia e sociedade sustentáveis. Diante dos cenários climáticos divulgados pela ciência, o desenvolvimento econômico não pode mais ignorar que o modo atual de produção e consumo é insustentável.

Nesse sentido, o economista Delfim Netto afirma que estamos diante de um novo paradigma produtivo. A nova restrição à expansão do capitalismo é minimizar a emissão de CO2. As metas de crescimento econômico devem agora incorporar, além da redução de desigualdades e distribuição de renda, a redução de emissão de gás carbônico equivalente por unidade de PIB. Para Delfim, “o homem incorporou a finitude física do mundo”.

Apesar dos céticos de ontem e de hoje, a consciência ética sobre o meio ambiente que desfrutamos é herdeira do romantismo utópico dos primeiros ecologistas que nos legaram o discurso novo e transformador da sustentabilidade. A expressão desenvolvimento sustentável foi proposta pela primeira vez em 1987, no relatório Nosso futuro comum, da Comissão Brundtland, das Nações Unidas: “aquele que procura atender às necessidades e aspirações do presente sem comprometer a capacidade de atender às do futuro”. Entretanto, além da definição muito genérica e sujeita a interpretações variadas, nada foi dito sobre como alcançar tal objetivo.

Chegou a hora dos economistas e empresários se unirem aos governos rumo a um novo modelo. Teorias econômicas não alteram a realidade, mas podem oferecer elementos para políticas governamentais eficientes, como a taxação da emissão de carbono e o incentivo a ações ecológicas. Conforme Sérgio Besserman Vianna, o maior problema do fracasso de Copenhague foi a ausência de atitude firme a respeito da precificação do carbono, o que nos mantém numa situação de grande incerteza. No entanto, o caminho para a economia de baixo teor de carbono é inevitável e será a transformação tecnológica mais acelerada de toda a história da humanidade.

Portanto, argumenta Vianna, “a ideia de que China, Índia e Brasil possam almejar um desenvolvimento econômico intensivo em carbono é desconhecer como funciona o sistema capitalista e o fato de que a desigualdade na inovação tecnológica é a desigualdade mais decisiva no funcionamento das economias”.

 

Referências:

Antonio Delfim Netto: “Nunca tive a ilusão de que esta astronave independente, rodando em torno do sol, tivesse recursos infinitos”

Sérgio Besserman Vianna: “Qualquer pessoa abaixo da linha da pobreza gera um impacto ambiental muito superior ao de D. João VI”.

Ricardo Arnt (org.) O que os economistas pensam sobre sustentabilidade. Editora 34, 2010.

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Rachel Nigro
Rachel Nigro
Doutora em Filosofia e Mestre em Direito pela Puc-Rio; professora dos departamentos de Direito e Filosofia, do Centro de Empreendedorismo e do Centro de pós-graduação em Filosofia Contemporânea.
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