O Ensino de Ética na Pós-Graduação

Uma reportagem do jornal O Globo do último domingo, dia 24 de junho de 2012, abordou o tema de ainda ser pouco comum os cursos de pós-graduação discutirem oficialmente questões sobre ética em suas aulas. Alguns pontos da reportagem chamam atenção e merecem ser destacados.

Primeiramente, o reconhecimento da importância do tema no preparo dos alunos de pós-graduação. Conforme declaração feita pela coordenadora da Fundação Dom Cabral à reportagem, “a ética deveria ser o fio condutor que permeasse todas as disciplinas”. O tom trazido na reportagem é o mesmo para os demais entrevistados, ligados a diferentes cursos de pós-graduação no Brasil.

O segundo ponto a ser destacado é o consenso de que a abordagem sobre temas em ética está ainda longe do que se julga ser necessário. Em geral, dentre os temas muitas vezes interligados de ética, responsabilidade social corporativa, sustentabilidade e governança corporativa, diz-se que estes dois últimos têm maior procura entre os alunos ligados à área de Finanças, uma vez que fazem parte das regras estabelecidas por instituições como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), devendo os dois tópicos serem apresentados nos relatórios de administração das empresas com ações negociadas em bolsa para que sejam recompensadas com um nível maior de avaliação de transparência. Ainda assim, os temas não são abordados de forma consistente pelas universidades.

Um levantamento entre os 14 cursos de Doutorado em Administração com conceito CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior) igual ou superior a cinco no triênio de 2007 a 2010, com base nas teses de doutorado defendidas na última década (2001-2010), revelou que apenas oito das 14 faculdades tiveram teses defendidas em Responsabilidade Social Corporativa (RSC) no período, correspondendo a 30 teses, distribuídas ao longo da década (Bon e Levy, 2012). A relativa baixa produção de teses no tema reflete a atenção diminuída que estes cursos de pós-graduação têm dado ainda para o tema.

A importância da discussão de temas relacionados a ética – e seus desdobramentos, como sustentabilidade, governança corporativa ou responsabilidade social corporativa – está em preparar os profissionais, sejam eles executivos ou acadêmicos, para lidar com questões de seus cotidianos de forma mais ética. Como coloca Suzana Feichas, coordenadora do MBA Gestão do Ambiente e Sustentabilidade da FGV do Rio de Janeiro, na reportagem do jornal citado: “Um executivo que tenha estudado o assunto [ética] pode fazer uma reflexão mais crítica sobre o comportamento adotado em sua organização e propor a adoção de novas políticas”. Propósito similar tem o próprio núcleo de estudos ERA – Ética e Realidade Atual: promover o debate das questões relacionadas à ética e realidade atual para que construamos, todos, um mundo mais consciente e mais ético.

Fontes:

AMORIM, Maíra. A (falta da) ética na pós-graduação. Rio de Janeiro: Jornal O Globo, 24 de junho de 2012, Caderno Boa Chance, p. 3. Disponível em: http://oglobo.globo.com/emprego/a-falta-da-etica-na-pos-graduacao-5301798.

BON, Ana Carla; LEVY, Barbara P. Metodologias das pesquisas em Responsabilidade Social Corporativa: teses de Administração. Submetido para publicação, 2012.

CAPES. Relação de Cursos Recomendados e Reconhecidos. Disponível em: http://conteudoweb.capes.gov.br/conteudoweb/ProjetoRelacaoCursosServlet?acao=pesquisarIes&codigoArea=60200006&descricaoArea=CI%CANCIAS+SOCIAIS+APLICADAS+&descricaoAreaConhecimento=ADMINISTRA%C7%C3O&descricaoAreaAvaliacao=ADMINISTRA%C7%C3O%2C+CI%CANCIAS+CONT%C1BEIS+E+TURISMO. Acesso em <28/jun/2012>.

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Barbara
Barbara
Pesquisadora, Doutoranda em Administração.
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