O ‘self moral': linguagem, identidade e moralidade

Conforme nos ensina o filósofo canadense Charles Taylor, o ente humano, enquanto ser que se auto-interpreta ao interpretar o mundo, somente se torna um self na medida em que certas questões lhe importam, isto é, na medida em que atribui sentido, através de uma linguagem herdada, a tais questões.

O self tem, portanto, uma gênese social. Ele constitui-se enquanto agente no intercâmbio entre os falantes, no interior de uma rede de significação que o antecede. Uma vez que a linguagem é uma atividade social, o self também apresenta uma faceta moral, uma vez que a identidade está profundamente entrelaçada com a moralidade subjacente. Linguagem, identidade e moralidade se conectam de modo visceral.

A ideia wittgensteiniana da linguagem como “forma de vida” sugere que as linguagens das quais nos servimos são também nossos limites, ou seja, elas já nos apresentam uma estruturação do mundo, uma lente interpretativa, uma certa ‘filosofia’ ou ‘visão de mundo’.

Não podemos simplesmente “pular para fora” do mundo, assim como não podemos criar uma língua privada. Para se definir de modo satisfatório, é imprescindível ao ser humano referir-se às configurações morais, ao horizonte de sentido dentro do qual ele toma posição e decide sobre questões relevantes.

Estamos enredados nas malhas da linguagem que nos ‘impõe’ uma certa concepção de mundo, certos valores e padrões de comportamento. Isto porque, mais do que simplesmente expressar de forma instrumental nossas crenças e valores, a linguagem as constitui. Ao participar de uma “forma de vida”, estamos filosoficamente comprometidos com um certo léxico.

Possuir uma identidade é, desta forma, estar orientado dentro do espaço moral ao qual se pertence. E as concepções morais que predominam hoje são marcadamente modernas. Nesse sentido, podemos entender a expressão ‘modernidade’ como o ‘espaço moral’ no qual se movem muitos dos selfs contemporâneos.

Com grande frequência, tais bens constitutivos que fornecem o sentido e que justificam as escolhas morais permanecem ocultos, como um pano de fundo, um background, discreto e potente. São conceitos, categorias, descrições, ou seja, toda uma linguagem moral subjacente em que assentamos os alicerces das obrigações morais que reconhecemos. É nesse sentido que podemos dizer que a modernidade forja nossa identidade. E que nossa identidade encontra-se inextricavelmente associada às fontes morais da modernidade.

Ao reconhecer a pluralidade de bens da modernidade que ainda estão funcionando como motivações para as ações humanas, mesmo que de modo implícito, estamos também reconhecendo a complexidade de nossa própria identidade enquanto agentes humanos, ou seja, enquanto selfs morais capazes de ação.

Assim, nós, os sujeitos que se auto-interpretam como modernos, burgueses, livres e autônomos, ou o contrário disso, proletários escravizados pelo capitalismo burocrático, nos encontramos vinculados ao imaginário moderno e seus valores. Por exemplo, a ideia de um self racional desprendido – precursor do individualismo – é típico do Iluminismo. Já as noções de ‘liberdade civil’ e de ‘direitos subjetivos’ são compreensões marcadamente modernas, que nascem junto ao Estado de base nacional.

Todos conceitos que se entrelaçam e se confundem numa teia de significados, uma rede de referências que, mais arraigadamente do que gostaríamos de admitir, moldam nossa identidade. Assim, os sentidos que atribuímos ao self e que moldam nossa própria auto-compreensão, estão inextricavelmente relacionados com as concepções morais predominantes.

É por isso que não podemos simplesmente menosprezar o legado iluminista da modernidade, pois é dele que ainda extraímos a linguagem através da qual nos definimos. Por maior que seja nossa capacidade de transformação e crítica, não somos deuses. Não podemos nos livrar das nossas fontes morais como quem se livra de sapatos velhos. Podemos refletir sobre elas e tentar modificá-las, mas esta não é uma tarefa fácil, pois como vimos, tais avaliações são geralmente naturalizadas, fazem parte do ‘pano de fundo’ que não questionamos e que definem nossas escolhas e decisões, muitas vezes preconceituosas e tendenciosas.

E, se queremos nos libertar de velhas crenças ou, ao contrário, conservá-las e reafirmá-las, precisamos antes de tudo, conhecê-las. Sabemos que nem sempre nossas certezas mais ‘profundas’ condizem com nosso discurso.

Desse modo, a questão que se coloca é: ‘como articular as crenças subjacentes que definem nossas escolhas?’ Ou ainda: ´como explicitar o pano de fundo que determina nossas intuições morais?’. Trazer todo esse ‘material’ não consciente à tona e trabalhá-lo é uma tarefa árdua da qual se ocupam diversos profissionais, como os psicólogos, terapeutas e padagogos. A questão aqui colocada é mais filosófica: como responder a tais indagações com a mesma linguagem que as construiu?

E este breve artigo não tem a pretensão de responder estas complexas questões, mas apenas ressaltar que qualquer discussão sobre ‘assuntos humanos’, como a ética e o direito, deve começar explicitando as fontes morais que constituem os falantes e a linguagem subjacente a tais crenças e valores. Afinal, como nos lembra Taylor:

“É uma forma de auto-engano pensar que não falamos a partir de uma orientação moral que consideramos certa. Essa é uma condição para se ser um self operante e não uma visão metafísica que podemos ligar e desligar”.

                                                                                              (Charles Taylor, Fontes do self, p. 135)

Referências:

TAYLOR, Charles. Sources of the Self – the Making of the Modern Identity.  Harvard University Press, 9ª ed., 2000 (1ª edição: 1989)

________________ As Fontes do Self – a construção da identidade moderna. São  Paulo, Edições Loyola, 1997.

________________Philosophical Papers 1: Human Agency and Language.  Cambridge University Press, 1985.

________________ Two Theories of Modernity. Public Culture 11 (1): 153-174,  Duke University Press, 1999.

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Rachel Nigro
Rachel Nigro
Doutora em Filosofia e Mestre em Direito pela Puc-Rio; professora dos departamentos de Direito e Filosofia, do Centro de Empreendedorismo e do Centro de pós-graduação em Filosofia Contemporânea.
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