Os animais têm consciência II: mais algumas considerações sobre o tema

Na última quinta-feira, o ERA publicou o artigo “Os animais têm consciência”, em função da divulgação do manifesto, referendado por pesquisadores de renomadas instituições científicas, que admite a existência de ‘consciência’ em diversos animais, como pássaros, cães e gatos. Apesar de não ser tema de minhas pesquisas, a entrevista do neurocientista Phillip Low à revista Veja me levou a alguns questionamentos, que me motivaram a contribuir com essa discussão.

Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos, e está entre os pesquisadores que assinaram o manifesto divulgado na Francis Crick Memorial Conference, realizada no último dia 7 de julho, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, que afirma o fato das estruturas cerebrais responsáveis por produzir a ‘consciência’ em humanos também existir nos animais.

Na entrevista supracitada, o pesquisador afirma que foram descobertas e referendadas evidências de que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Assim, de acordo com Low, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, pode-se concluir que esses animais também possuem consciência. Traduzindo, a partir da entrevista já referida, as pesquisas que embasaram o manifesto divulgado demonstraram que os animais estudados possuem estruturas nervosas que produzem algum tipo de consciência, relacionada ao fato deles serem capazes de sentir dor, prazer e, em alguns casos, em diferentes escalas, perceber a própria existência e a do mundo ao redor.

Low, no entanto, admite ainda não ser possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos, pois não há métricas desenvolvidas para isso. Segundo ele, o que o manifesto citado demonstra é que pesquisadores já são capazes de provar a existência de diferentes tipos de consciência e que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.

Realmente, a divulgação dessas descobertas e do manifesto é muito relevante para uma série de discussões envolvendo a interação entre seres humanos e animas não-humanos. Como já está bem colocado no artigo do ERA que antecede esse texto: “Esse manifesto assinado pelos neurocientistas, apesar de não possuir valor jurídico, vem contribuir para o debate que envolve filósofos, políticos e ativistas de direitos dos animais não-humanos do mundo inteiro sobre o conceito de consciência e sua implicação no reconhecimento moral dos animais, ou seja, no reconhecimento de que animais de outras espécies também são merecedores de respeito e tratamento digno”.

Não há dúvida de que devemos repensar a forma como lidamos com os animais, particularmente no que tange ao uso em pesquisas. Os dados apresentados por Low, na entrevista citada, são dignos de atenção e reflexão: “O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade… Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais”.

No entanto, ao responder uma pergunta sobre se as conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o comportamento do pesquisador, a resposta foi a de que ele acha que vai virar vegetariano, pois é impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento.

Ao dar uma resposta como essa, porém, o pesquisador acaba por não evitar o discurso ideológico. E, de fato, mesmo tendo tentado negar que o papel dos cientistas é esse, em uma parte anterior da entrevista, ele não se furta de influenciar o debate e mostrar a sua posição ao afirmar: “Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela sirva nossos ideais, em vez de competir com eles”. Mas será que os ideais aos quais ele se refere são compartilhados pela grande maioria dos outros seres humanos conscientes que habitam a Terra?

Dessa forma, o que ficou pra mim da divulgação desse manifesto é que, mesmo iluminando evidências relevantes, que positivamente estimulam a ampliação do debate sobre o tema, o documento tem um claro viés político/ideológico, que não pode ser deixado de lado quando se pretende entender as implicações reais dessas descobertas para a vida no nosso planeta.

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