Sobre “O deus da carnificina”: a crítica deleuziana da moral num filme de Polanski

No filme “O deus da carnificina”, no qual dois casais se encontram no apartamento de um deles para conversar sobre a briga entre seus filhos, Polanski oferece ao espectador uma clara ilustração dos tipos niilistas identificados por Deleuze em Nietzsche, e que representam tão bem a moral. O que era para ser uma simples e rápida discussão sobre um incidente ocorrido entre os filhos de dois casais – em que um dos meninos bateu no rosto do outro com um galho de árvore, durante um desentendimento num parque – se transforma num julgamento generalizado de todos por todos. Durante a visita de Allan e Nancy, pais do garoto que bateu, a Penelope e Michael, pais do menino que apanhou, as acusações mútuas se multiplicam, abrangendo temas que vão desde a proteção aos animais até a guerra na África, passando pela convivência conjugal e familiar, pela bioética, pela ética profissional etc. Em suma, Polanski opera, em seu filme, um detalhado exame da moral, levando em conta as suas três faces niilistas.

Deleuze afirma que, para Nietzsche, a moral se opõe à vida, uma vez que ela é uma inversão do ponto de vista avaliador próprio à vida. Ao invés de se aliar à vida e buscar lidar com os problemas conforme eles se apresentam, de maneira prática e imanente, ou seja, sem apelar para um registro supostamente superior ou exterior às próprias circunstâncias da vida, a moral busca valores vindos de fora, valores aos quais a vida deveria se adaptar, isto é, a moral é transcendente. Para deixar essa ideia mais clara, o filme de Polanski é especialmente interessante, pois ele expõe caricaturalmente as três maneiras pelas quais a moral tenta subjugar a vida. Isto explica, inclusive, a dificuldade do espectador em simpatizar, por muito tempo, com qualquer um dos quatro personagens, pois todos são moralistas e niilistas.

Penelope, mãe do menino que apanhou, é a defensora do “senso de comunidade”, do coletivo. Ela quer “corrigir” o mundo, de maneira a que as pessoas se importem umas com as outras, que a guerra da África afete a todos no Planeta Terra, que as crianças sejam educadas para não se tornarem delinquentes etc. Para ela, todos devem se comportar exemplarmente, e quando ela fala mal de Nancy – mãe do menino que bateu em seu filho – na sua ausência, tendo esta acabado de vomitar sobre um livro de arte raro seu, faz questão de dizer a Allan, marido de Nancy que a surpreendeu debochando desta última, que se comportou mal e se desculpa. Penelope pauta claramente as suas posições e as suas ações em um código moral pré-estabelecido, de valores superiores à vida e aos quais a vida deve se adequar. Ela representa o tipo niilista negativo, para o qual os valores superiores, que vêm de fora, são os que mais importam e devem ser respeitados (por todos!), a todo custo – mesmo às custas de um livro raro de arte, ou às custas dos dentes lesados do seu filho. Nada tira dela o seu “senso de comunidade”, nem mesmo os seus convidados, pais do menino que brigou com o seu filho, e que não compartilham deste mesmo ideal superior. Penelope é incrivelmente autoritária. Ela se sente superior aos outros, como os seus valores são superiores à vida.

Allan, pai do menino que bateu no outro, parece ser o extremo oposto de Penelope. Ele decididamente não se importa com o “senso de comunidade”, não parece ter nenhuma empatia pelos outros, sejam estes os pais de uma criança que apanhou de seu filho, ou os consumidores de um medicamento que coloca em risco milhares de pessoas, e cujo laboratório ele defende juridicamente, sem nenhum pudor, com o auxílio de todo o seu cinismo. Ele nem queria estar ali, já que considera esta conversa inteiramente inoportuna – ele tem muito trabalho esperando por ele –, e sem propósito, pois estima que o acontecido faz parte das relações infantis. Afinal, ele e o pai da outra criança envolvida já foram líderes de gangues em suas infâncias e já brigaram várias vezes com outros garotos. Se Penelope é niilista ao negar a vida em prol de valores superiores, Allan é niilista ao negar a vida em prol de valores reativos: ele é o niilista reativo, segundo tipo de niilista. Ele descarta os valores coletivos de Penelope, e adota valores altamente individualistas, como o dinheiro e a performance profissional. Não é à toa que ele ironiza a ocupação de Michael, marido de Penelope, que vende descargas de privada, entre outras coisas. O niilista reativo também busca adaptar a vida aos seus valores. Allan só presta atenção em seu celular, como o objeto que o liga ao seu trabalho, ao seu sucesso profissional e financeiro. Não se importa com o filho – que chama de marginal –, nem com a mulher, muito menos com o garoto acertado por seu filho, e menos ainda com os pais desse garoto! Ele participa mais ativamente da conversa sobretudo quando se trata de afrontar Penelope, a niilista negativa, cujos valores ele recusa. O tipo do niilista reativo nasce, justamente, em oposição ao tipo do niilista negativo, pois o que o niilista reativo faz é jogar fora os valores superiores e criar os seus próprios valores, os valores reativos.

Nancy, mulher de Allan, que inicialmente parece mais empática à fala de Penelope e docilmente aceita as suas sugestões – possivelmente por medo da retaliação dos pais da criança machucada – mostra a sua verdadeira face depois de algumas discordâncias e doses de whisky. A máscara cai de maneira mais estrondosa bem no final, quando a sua bolsa é lançada longe por Penelope, e ela se desespera ao ver o seu espelho, o seu perfume, e outros itens, certamente caros, de sua bolsa, se quebrarem na queda. Ela, como Allan, não se importa com os valores coletivos, com a família ou com a casa: ela considera as funções domésticas e familiares uma chatice! Só é sensível ao consumo, àquilo que ela pode comprar e usar. Ah!, e ao que parece, aos animais, já que ela se horroriza ao saber que Michael abandonou um hamster na rua. Em todo caso, mais uma vez, é o desempenho financeiro o que mais conta. Nancy também pertence ao segundo tipo do niilismo: o niilismo reativo.

Michael, marido de Penelope, já não aguenta mais os rompantes politicamente corretos da mulher, mas também não se interessa por sucesso profissional ou econômico. Ele é medíocre, e decididamente não quer sair disso. Allan o ridiculariza, ao assisti-lo detalhar os dois tipos de descarga que vende, e Penelope o acusa de falta de ambição. Ele já não se importa nem com os valores superiores do niilismo negativo, nem com os valores reativos do niilismo reativo. Ele não precisa de valores. Michael quer é que o deixem em paz, que não o perturbem. Pouco se importa se foi o filho daquele casal que bateu no seu filho: compra tulipas caras para enfeitar a sala durante a visita deles, oferece-lhes o seu melhor whisky e charutos importados. Ele simplesmente não quer avaliar nada. Joga todos os valores fora, mas não coloca nenhum no lugar vazio. É a imagem pura do terceiro e último tipo do niilismo, o niilista passivo, caracterizado por um nada de vontade. Ele só quer sossego, parafraseando Tim Maia. Se os outros subordinam a vida aos valores superiores e reativos, o niilista passivo se esquiva desses valores, mas não valora de nenhuma outra maneira a sua vida. Ele subordina a vida ao relativismo. Para ele, tanto faz. Tudo se equivale: o bom e o ruim são a mesma coisa. A sua vida nunca pode ser pior ou melhor, porque tudo é relativo. Nesse relativismo, ele não se move. Assiste a tudo, como se a sua vida não lhe concernisse. Muito menos a do seu filho, a da sua mulher, e a de seus convidados! Melhor abrir um whisky, e deixar que as coisas se resolvam por si próprias. Michael é certamente o menos moralista de todos. Ele não gosta da moral, mas acaba se guiando, em certa medida, por ela, já que não propõe nenhuma alternativa, e se recusa a buscar outros valores. Seu niilismo negativo acaba sendo capturado pela moral, apesar do seu desdém pelos valores morais, superiores ou reativos.

E as crianças? Elas só aparecem no início e no fim do filme, sem que saibamos o que dizem. No início, vemos uma movimentação num parque, em que um garoto discute com outro, que tem um galho em sua mão. Em seguida, este bate com o galho no rosto daquele e vai embora. No fim, voltamos ao mesmo parque da primeira cena, e os dois garotos brincam juntos, como se nada tivesse acontecido. O que houve? Certamente, eles esqueceram o que se passou. Resolveram o problema deles de uma maneira prática e imanente – poderíamos dizer, também, ética – e já não pensam mais nisso. Talvez tenham conversado, talvez brigado de novo, talvez simplesmente deixaram para lá. Eles não precisam da moral e dos seus valores. Eles criam os valores na hora em que as situações da vida se apresentam, e resolvem tudo assim. Estão, como diria Nietzsche, para além do bem e do mal. Segundo a filosofia de Deleuze, os seus valores são éticos, e não morais; fazem parte da vida, e não se impõem desde fora. Enquanto os seus pais se exaurem ao longo de um julgamento mútuo no ar viciado de um apartamento, eles deixam o ar livre do parque provocar a crueldade e trazer o esquecimento. Sem julgamento, sem moral, sem niilismo. Eles são capazes de ser cruéis e capazes de esquecer. E é a vida deles que segue, sem maiores sequelas ou querelas.

Mariana de Toledo Barbosa possui doutorado em Filosofia, realizado em regime de co-tutela entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Université Paris Ouest Nanterre La Défense

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Showing 4 comments
  • Silvia Paes leme da Motta

    Gostei muito do comentário feito pela autora que de uma forma bem embasada e bem argumentada analisa os personagens do filme. Tenho dificuldade em encontrar comentários mais aprofundados sobre filmes que passo em sala de aula para relacionar com conteúdos do programa que leciono em pasicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, e com certeza este estará nos meus arquivos para estudo posteriormente.

  • Jana

    Muito interessante a análise da Mariana de um filme tão rico que faz repensarmos a vida. Mais ou menos duas horas de angústia, raiva e satisfação tomam conta do espectador, que não chega a se identificar completamente com nenhum deles, mas que se vê refletido em todos os personagens em alguma medida. Os tipos ideais denunciam as contradições, as possibilidades e limitações dos sujeitos envolvidos.
    Mas não tinha notado um aspecto que a Mariana ressaltou. Os dois ambientes em que as relações se dão também representam uma oposição: a sala de estar de um apartamento com paredes sufocantes – palco de muitos insultos -; e um parque cheio de verde e ar, repleto de silêncio, onde não ouvimos a conversa – e ela é a que menos importa.
    Quantos detalhes compõem esse quadro…
    Vou ver de novo.

  • Ru Arriaza

    Texto muito bom
    Parabéns pela lucidez

  • Marcel Affonso de Araújo Silva

    Já tava ansioso pra chegar no final e ver quem era o autor desse texto, o currículo falou por si. Excelente explanação!

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