Precocidade Olímpica

As Olimpíadas de Londres acabaram, e, para além das medalhas, ficaram algumas impressões importantes para o mundo. Uma delas foi a demonstração de força dos Estados Unidos. Muitos achavam que não haveria mais possibilidade de vencer a China, que a distância dela para os EUA se tornaria cada vez maior em termos de títulos. A vitória dos Estados Unidos mostrou que isso não é verdade, e que as próximas olimpíadas prometem, ainda, uma disputa acirrada entre os dois gigantes. Outra marca que ficou foi a presença forte da música nas cerimônias de abertura e encerramento. Afinal, poucos países foram tão ricos musicalmente nas últimas décadas como a Inglaterra, haja vista artistas como John Lennon, Freddie Mercury, entre outros. Os Britânicos souberam, inteligentemente, usar isso a seu favor, relembrando a todos do grande talento artístico que possuem.

No entanto, talvez a principal impressão que tenha ficado seja a presença de desportistas cada vez mais jovens nas competições. O mundo presenciou a participação de vários atletas adolescentes em diversas modalidades. Houve, inclusive, quebra de recordes por estes jovens esportistas. A lituana Ruta Meilutyte, por exemplo, conquistou a medalha de ouro e estabeleceu o recorde olímpico nos 100 metros de nado peito, aos 15 anos de idade. Katie Ledeck, americana e também com 15 anos, levou a medalha de ouro nos 800 metros livres. O chinês Ye Shiwen, de 16 anos, ganhou dois ouros, também na natação. Fora estes citados, dezenas de outros atletas menores de 18 anos conquistaram medalhas nas olimpíadas, e muitos outros participaram sem chegar entre as três primeiras colocações.

As questões éticas suscitadas pela participação de adolescentes em competições que levam o corpo humano até o seu limite e que são veiculadas para milhões (ou bilhões) de telespectadores por todo o planeta são múltiplas. Afinal, se muitos adultos já sofrem em demasia com a pressão psicológica envolvida, o que pensar sobre o impacto dessa pressão em pessoas que mal acabaram de sair da puberdade, e sobre como isso repercute em uma estrutura psicológica ainda em formação? Quais são as sequelas físicas oriundas de um esforço extremo em um momento em que as estruturas físicas também estão se desenvolvendo? Ainda, em que medida a infância e juventude é sacrificada a fim de se garantir um título para a pátria do jovem desportista?

Uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, intitulada Chineses Questionam Sua “Máquina de Medalhas”, lança luz sobre o que está por detrás do sucesso de atletas chineses jovens de idade muito precoce. Crianças de até 5 anos têm o corpo quase deformado para que fiquem mais versáteis, a fim de tornarem-se, por exemplo, ginastas de ponta. Imagens presentes nesta reportagem, oriundas de uma mídia do próprio partido comunista chinês (The Global Times), mostram como crianças passam por treinamentos que mais parecem torturas.

É possível que a realidade dos jovens atletas nos EUA e em outras nações desenvolvidas seja mais tranquila. Afinal, não existe uma pressão estatal tão forte nesses países, nem uma necessidade de se firmar no cenário internacional (o que enseja um esforço coletivo às vezes brutal nesse sentido). No entanto, é difícil imaginar que campeões de 15 ou 16 anos levem uma adolescência normal, ou que tenham tido uma infância como a de outras crianças. E isso vale tanto negativamente quanto positivamente, já que ser um adolescente medalhista olímpico pode ser uma ótima maneira de viver esta fase da vida.

Cabe perguntarmos, então, em que medida esta tendência está em consonância com o próprio espírito olímpico.  Por um lado ela representa a capacidade humana de superar os limites, de dar o máximo em busca de um objetivo. Por outro, é expressão, também, do ímpeto explorador da humanidade, que, para atingir certo objetivo, é capaz de produzir sofrimento nos seus membros mais novos. Ela pode acabar, assim, por representar a exploração da superação ou, até, a superação (no mal sentido) da exploração.

Dessa forma, as olimpíadas, que deveriam ser um fator de diversão e união das pessoas através do esporte, acabam por expressar os extremos e abusos oriundos da competição de ponta. Tendo em vista que as próximas olímpiadas se darão em terras canarinhas, este debate é bastante pertinente para nós, e deveria ganhar mais destaque do que atualmente tem.

 

Fontes:

- Chineses Questionam sua “Máquina de Medalhas”, disponível em http://vistachinesa.blogfolha.uol.com.br/2012/08/09/chineses-questionam-sua-maquina-de-medalhas/

- Adolescentes Brilham em Londres 2012 e Espantam o Mundo, disponível em http://vistachinesa.blogfolha.uol.com.br/2012/08/09/chineses-questionam-sua-maquina-de-medalhas/

 

-Medalhistas Teens das Olimpíadas em Londres, disponível em http://esportes.br.msn.com/fotos/medalhistas-teens-das-olimp%C3%ADadas-de-londres

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