Imprensa esportiva e o pesadelo olímpico dos atletas

 “Decepção: César Cielo termina em sexto na disputa do ouro nos 100m livre.”

Essa foi a notícia vinculada no site da TV RECORD — única emissora da televisão aberta que transmitiu os Jogos Olímpicos de Londres –  logo após o término de mais uma final olímpica. Este não foi um caso isolado, pois notícias desse teor tornaram-se rotineiras e repetitivas nas três semanas de disputa. Diariamente éramos apresentados a vilões e amarelões que até então eram desconhecidos.

O abismo que separa os vitoriosos dos derrotados, se é que temos o direito de usarmos essa expressão para nos referirmos a alguém que chegou à mais importante competição esportiva do planeta, nunca pareceu ter sido tão nítido, crítico e cruel. A meu ver, a imprensa brasileira mostrou-se extremamente passional, ultrapassando o tênue limite ético entre a torcedora que se sente no direito de cobrar e a sua função jornalística de reportar imparcialmente as notícias que, em tese, é sua principal função.

Grande parte do conteúdo jornalístico que recebíamos, trazia, ainda que implicitamente, uma cobrança desmedida sobre nossos atletas. Em especial, em relação àqueles que foram a Londres como favoritos. Estes foram considerados vitoriosos, antes mesmo de qualquer disputa a ser realizada. No entanto, derrotas aconteceram e o esforço e capacidade dos atletas estrangeiros não foram devidamente reconhecidos pela imprensa. Esta referia-se às vitórias dos outros países de forma insignificante, pois preferia ressaltar a incapacidade dos atletas brasileiros em obter os resultados esperados.

O comportamento da imprensa esportiva pode ser entendido como um reflexo de diversas transformações sociais que nos torna, cada vez mais, consumidores de informações, que se tornam progressivamente mais facilmente assimiláveis. Logo, é compreensível que o comportamento da imprensa esportiva siga essas tendências, limitando-se a culpar os nossos atletas por resultados aquém do esperado.

Não obstante, o jornalismo esportivo deveria estar disposto a realizar uma reflexão eticamente mais profunda, que seja capaz de englobar a importância e o papel dos atletas em nossa sociedade. Reafirmando ensinamentos esportivos que poderiam agregar valores morais tão carentes nos dias atuais, como o Fair Play, a humildade e reconhecimento do esforço alheio. Esses surgem como exemplos frequentes de noções éticas facilmente assimiladas com a prática esportiva. Além de apresentar os atletas como pessoas que muito se sacrificaram em prol de ideais e amadureceram, sobretudo, como seres humanos éticos. Dessa forma, a imprensa  compreenderia que a atual atitude negativamente crítica não tem outro efeito a não ser diminuir o reconhecimento que a população tem por nossos atletas.

Finalmente, cumpre destacar, que, ao mesmo tempo em que a imprensa é influenciada por mudanças comportamentais, ela também pode ser o fio condutor dessas mudanças, ao, por exemplo, expor os desafios diários de nossos atletas. Isto contrastaria com o comportamento atual de bajular cartolas que tanto prejudicam o esporte. Ao fazê-lo, ajudaria na construção de uma sociedade capaz de compreender o real significado do espírito olímpico.

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