2012 afinal é Medieval?

Uma das únicas coisas que nos parecem claras ao nos depararmos com índices de violência sexual tão assustadores como os que vemos atualmente é o fato de que nosso contemporâneo mundo apresenta tantas características medievais quanto conhecemos da sua própria história. Práticas que chamamos medievais parecem tão atuais quanto os números que crescem junto delas e reverberam em outros lugares de nossa sociedade.  A saúde, segurança, e tantos outros ‘setores’ precisam trabalhar (mesmo nem tendo estrutura) pra restaurar os acontecimentos e quem sofre o ato. Imaginemos todos os homens em estado de natureza que Hobbes nos atentou, onde os homens usam sua força violenta incomensurável para obter um bem, afinal não há regras que os impeçam de tomar o que é dos outros, ou que os impeçam de infligir o sentimento do outro. Imaginemos todos os homens entregues às paixões e instintos, e entregues ao império do apetite, da brutalidade, como podemos conhecer do ponto de vista de Hegel. Mas se temos, além destes, outros tantos filósofos que tratam desta violência tão humana, e dão como solução a possibilidade de negá-las, neguemos urgentemente.

2012 grita com voz bruta números alarmantes no que se sabe de estupros no Rio de Janeiro e no Brasil. Muito ouvimos dizer que o ato é praticado por “animais”, mas  como vemos no texto de Rachel Nigro, os animais têm consciência e, até onde conhecemos, quem tem na história o registro de tratamento com violência e desigualdade somos nós, os humanos. A violência sempre existiu em toda parte, sabemos bem, mas isso não serve de explicação ou ‘consolo’ para fatos que ocorrem frente aos nossos olhos todos os dias. A violência sexual é uma das manifestações de violência de gênero mais cruel e das que mais persiste; por que persiste? Essa violência tem raízes profundas e atravessa a história, infelizmente. Na maioria das pesquisas vemos ressaltado o fato de vivermos em sociedade hierárquica patriarcal, mas acima de qualquer dado histórico, precisamos olhar para os números que crescem junto com a nossa ‘evolução’ e modernização, e pensar menos em justificativas e mais em ações.

De março de 2011 a março de 2012 o número de estupros cresceu em 25 % e, conforme anúncios fixados em delegacias, parece já estar em 35%. É um número que assusta, porque cresceu em média 313 por mês, ou 10 por dia, e isso em senso de 2011, onde o número total de estupros no Rio de janeiro foi de 4589 como diz o site G1.com . Se em 2012 esse número cresceu em mais 25%, algo carece de discussão, reflexão, sinal de fumaça, cuidado e providências concretas. Falando especificamente na zona oeste do Rio de Janeiro, a impunidade parece fazer ‘sucesso’, pois não temos notícias pela mídia desses dados tão alarmantes que vêm ocorrendo todos os dias. Vimos no início deste ano o caso do estupro no ônibus que sofreu uma menina de 12 anos, que chocou a todos pelo ato. Essa é uma das reações mais conhecidas, o ‘Choque’, mas nada mais parece acontecer. No oeste da cidade, 10 meninas e/ou crianças são violentadas por dia e os casos não são muito divulgados, nem pela mídia nem pela própria população, que se cala. Um retrato falado leva no mínimo 30 dias para ser liberado; em trinta dias, enquanto preparam um retrato, “apenas” aproximadamente 300 crianças ou mulheres são violentadas. Se os números são tão consideráveis e sabemos que muitos nem foram registrados, podemos imaginar  o que tem sido efetivamente feito na região para prevenir esse tipo de violência contra a mulher.

O sociólogo Túlio Kahn diz, em matéria sobre o assunto, que a sensação geral de insegurança é um elemento encorajador para que mais estupros sejam cometidos. Insegurança, medo, proximidade ao agressor são motivos pelos quais as mulheres têm dificuldade de denunciar. Os números podem ser bem maiores do que conhecemos. No Brasil, pesquisas mostram que 73% dos brasileiros querem pena de morte para estupradores, que ficam presos, em média, um período de até 12 anos; essa parece ser a alternativa que, na visão da maioria da população pode dar algum tipo de solução. A palavra sentença que vem originalmente de sentir, de como sente um juiz, na mão do povo toma outro rumo supostamente mais prático, e objetivamente ligado aos outros tipos de violência que também conhecemos. Já na África, por exemplo, foi criado um preservativo  feminino pela médica Sonette Ehlers, chamado Rapex Condom, que é feito na parte interna de uma espécie de látex onde farpas afiadas grudam na pele do agressor e só conseguem ser retiradas em hospitais. Sua criadora diz ser uma punição medieval a um ato medieval. Esses dois casos seriam o povo se manifestando por não ter mais de onde esperar que a violência seja cessada? No Rio de Janeiro e no Brasil vemos também o povo agindo ao tomar para si responsabilidade de ‘resolver’ casos de violência que a Justiça, por algum motivo, não resolve efetivamente. E novos casos de violência são assim gerados.

Parecemos carregar em nós uma imagem da ética sempre acompanhada do ‘não’, não ético, antiético, sem ética. Assim, ouvimos muito em nossos cotidianos casos onde temos claramente a ideia do antiético; conhecemos a ética, mas ela parece ser mais aplicada quando o assunto é seu oposto, e quase nunca uma divulgação de atos éticos. Será que devemos divulgar atos éticos, que a principio têm o dever de ser assim? Talvez tê-los como exemplo? Descobrir que 2012  é medieval, não parece algo que gostaríamos muito de admitir, afinal já pisamos na lua, já descobrimos o telescópio, descobrimos e vamos cada vez mais descobrir e nos orgulhar disso. Não conhecemos atos hediondos em nenhuma outra espécie de nosso planeta da forma que vemos em nossa, a humana, a racional, e ainda assistimos fazerem cada vez mais números. Afinal, 2012 é medieval?

Referências:

Rovighi, Sofia Vanni.  História da filosofia moderna da revolução científica de Hegel. Ed. Loyola. 4 ª edição. São Paulo, 2006.

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Comments
  • Luciana

    Olá, venho parabenizar o texto de Balio sobre um assunto tão pouco discutido. Em tempos de campanha política, um assunto desses deveria ser mais valorizado pelas autoridades e pela sociedade.

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