Ética da formação: um breve reflexão sobre o caso do pai que veste saias para apoiar seu filho

A seguinte manchete foi veiculada a alguns dias atrás: Alemão veste saias para apoiar filho de 5 anos que gosta de usar vestidos. A notícia fala sobre um homem, Nils Pickert, que resolveu usar saias como forma de apoiar seu filho, que, aos cinco anos de idade, gosta de usar vestidos. Enquanto moravam em Berlim este fato não causava reação nas pessoas, mas quando se mudaram para um cidade menor, começaram a se confrontar com respostas hostis. Como forma de contornar tal situação e permitir que esta vivência de seu filho continuasse sendo possível, Pickert decidiu usar saia, afirmando: Você não pode esperar que uma criança de idade pré-escolar tenha a mesma capacidade de se afirmar que um adulto sem ter um modelo. Então eu virei esse modelo.

Este comportamento gerou diversas discussões nas redes sociais, algumas vendo o lado negativo, como uma forma excessiva de permissividade e outras positivas, apontando para a incondicionalidade do amor deste pai.

Particularmente, em mim, surgiram reflexões muito positivas acerca desta cena e rapidamente me veio à lembrança dois episódios recentes aonde entrei em contato brevemente com o trabalho de Judith Butler, uma pensadora contemporânea com importantes contribuições sobre as reflexões feministas e uma das criadoras da Teoria Queer. O primeiro contato foi em uma conversa que tivemos em nosso núcleo de pesquisa com a professora Adriana Vidal e o segundo foi em uma palestra proferida pela professora Jô Gondar.

Primordialmente um ponto que me chamou a atenção foi a ideia apoiada pela Teoria Queer sobre a questão de gênero e identidade:

Queer é por definição (…) uma identidade sem uma essência. Não é (necessariamente) somente uma visão sobre a sexualidade ou gênero. Também sugere que os limites de qualquer identidade podem potencialmente ser reinventados por seu dono... (David Halperin, tradução nossa).

Esta me parece ser uma forma muito interessante de pensarmos nossa condição humana: a descrição que cada ser humano faz de si mesmo não deve ser necessariamente uma tentativa de alcançar um valor universal que consiga contemplar todas as pessoas. Na verdade a nossa condição humana e identidade são criações nossas que seguem os percursos idiossincráticos  peculiares a cada um.

E o reconhecimento, como o entendemos frente a criações singulares?  Isto parece norteador na notícia em questão: em Berlim, não ocorriam reações negativas frente ao menino, permitindo uma vivência de reconhecimento de sua condição. Já na cidade pequena, a hostilidade acabou por gerar uma não-legitimação, uma falta de reconhecimento. Cito uma passagem da fala de Judith Butler em entrevista a Patrícia Porchat Pereira da Silva Knudsen:

O reconhecimento é uma relação intersubjetiva, e, para um indivíduo reconhecer o outro, ele tem que recorrer a campos existentes de inteligibilidade. Mas o reconhecimento também pode ser o lugar onde os campos existentes de inteligibilidade são transformados. Assim, se perguntarmos como nos deslocamos de um campo de inteligibilidade a outro, quero dizer que é possível pedir para ser reconhecido de uma maneira que, pelo menos inicialmente, é ininteligível: as pessoas dizem que não posso fazer isso, “não sei o que você está dizendo, não faz sentido, eu recuso”. Mas é marcar posição no campo da inteligibilidade, revisá-lo e expandi-lo, de modo que uma nova forma de reconhecimento seja possível.

A expansão no campo da inteligibilidade ao qual Butler se refere parece-me central para pensarmos a ação deste pai: ele viabiliza ao filho que sua condição de existência seja possível, sem que precise apoiar-se em parâmetros já estipulados de gênero e identidade. Para aqueles que hostilizam, “gostar de usar vestidos” parece ser uma compreensão extraída de sentidos prévios – de gênero e identidade, por exemplo. Contudo, ver o “gostar de usar vestidos” como uma expansão da inteligibilidade, é abrir possibilidade de novas formas de reconhecimento e construções identitárias.

E parece que é exatamente isso que este pai oferece a seu filho com sua ação de usar saias: propiciar um espaço legítimo e criativo de autodescrição. E acredito que para aqueles responsáveis por crianças e jovens esta é uma importante oportunidade de reflexão do papel ético que desempenham na formação de seus caráteres e identidades.

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Flora Tucci
Flora Tucci
Doutoranda em Filosofia pela Puc-Rio e psicanalista.
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Showing 3 comments
  • Wladmir.

    Flora,
    Li essa matéria na semana passada e, devo confessar, achei linda a atitude do pai mas fiquei com uma sentimento de que não estava alcançando o aspecto mais profundo, mais sensível do que havia sido colocado tanto no texto e sobretudo na fotografia de filho e pai caminhando lado a lado. Fiquei com a sensação de que faltava algo para “engrossar esse caldo” para deixá-lo mais saboroso e com uma cara de que “quero mais”… Acabei de ler o seu texto, enviado por meu padrinho querido que mora e estuda Alemanha e estou feliz por ter, agora sim, conseguido refinar algumas ideias e fazer as pontes que faltavam. Foi uma bela e fantástica forma de ” propiciar um espaço legítimo e criativo de autodescrição”. Abraços, e Merci.

    • Flora Tucci
      Flora Tucci

      Olá Wladmir,

      Muito obrigada por suas palavras!

      Um dos nossos objetivos em nosso núcleo de pesquisa e em nossas publicações aqui no site é realmente ampliar as reflexões diante das notícias e questões cotidianas, viabilizando sempre que possível “um espaço legítimo e criativo”.

      Ao longo do post tem alguns links, aonde você pode saber um pouco mais sobre pessoas e temas abordados. O trabalho de Judith Butler me parece instigador!

      Até uma próxima,
      Um abraço,
      Flora

      • Wladmir.

        Olá Flora,
        Vou investigar os links sobre os quais falou em especial o de J. Butler.
        Abração grande,
        Wlad.

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