Afinal, o que é empreendedorismo sustentável?

É preciso ressaltar primeiramente que, por se tratar de um conceito novo, a discussão na literatura sobre “empreendedorismo sustentável” começa pela própria nomenclatura. Uns consideram correto usar o termo empreendedorismo orientado à sustentabilidade (sustainability-driven entrepreneurs; sustainability-driven entrepreneurship) por considerarem a sustentabilidade um processo e pelo fato de nenhuma empresa ser totalmente sustentável. Contudo, o termo empreendedorismo sustentável (sustainable entrepreneurship; sustainable entrepreneurs; sustainopreneurship) se popularizou, sendo adotado pela maioria dos pesquisadores. Aqui, usarei esses termos como sinônimos.

De acordo com Hockerts e Wüstenhagen (2010), o conceito de empreendedorismo sustentável emergiu recentemente na literatura acadêmica e define a criação de negócios que combinam, ao mesmo tempo, a geração de valor econômico, social e ambiental. Segundo vários autores, a raiz do conceito derivou de estudos que relacionavam empreendedorismo com desenvolvimento sustentável e de pesquisas sobre empreendedorismo social e empreendedorismo ambiental.

No entanto, Shepherd e Patzelt (2011) argumentam que apesar dos conceitos de empreendedorismo ambiental e social serem relacionados ao de empreendedorismo sustentável, não são sinônimos. É o que defendem também Thompson et al. (2011). Para eles, por exemplo, o empreendedorismo social não deve ser categorizado como um subconjunto do empreendedorismo sustentável porque nem todas as missões sociais são sustentáveis e os empreendedores sustentáveis mesmo tendo a intenção de resolver questões sociais não têm apenas esse foco. Outro argumento, apresentado por Schaltegger & Wagner (2011), para diferenciar o empreendedorismo social do sustentável menciona que aquele voltado às questões sociais é menos orientado ao lucro, sendo em grande parte composto por organizações não governamentais (ONGs) ou híbridas, ao contrário daqueles orientados à sustentabilidade que perseguem a rentabilidade.

Igualmente, Dean e McMullen (2007) não incluem o empreendedorismo social em suas análises com o mesmo argumento de que a missão social é o foco no caso deles e não o lucro. Todavia, esses autores dão outro enfoque ao empreendedorismo ambiental, considerando-o um subconjunto do empreendedorismo sustentável. Cohen e Winn (2007) adicionam ainda que benefícios sociais resultam de iniciativas ambientais. Ademais, de maneira mais categórica, Rodgers (2010) considera o empreendedorismo sustentável uma definição ampla de eco-empreendedorismo.

Schlange (2007) busca resolver o conflito da delimitação do conceito de empreendedorismo sustentável apresentando-o como a interseção dos empreendedorismos orientados economicamente, socialmente e ambientalmente, conforme mostra a Figura 1.

 

Uma visão complementar é apresentada por Schaltegger e Wagner (2011) na sua caracterização de diferentes tipos de empreendedorismo orientados para a sustentabilidade. Para esses autores, diferentes tipos de empreendedorismo podem ser classificados em relação à orientação para a sustentabilidade, usando os seguintes critérios: motivação, objetivo, papel dos objetivos econômicos, papel dos objetivos não mercadológicos e desafios do desenvolvimento organizacional. Nesse caso, o empreendedor considerado sustentável foi apresentado como aquele cuja motivação principal é resolver problemas sociais e ambientais por meio de um negócio de sucesso. O objetivo principal desse tipo de empreendedor, de acordo com essa classificação, é criar desenvolvimento sustentável a partir das atividades corporativas empreendidas. Aqui a geração de lucro é tanto um meio quanto um fim para o empreendedor sustentável, mas ele também persegue objetivos não mercadológicos para contribuir com o desenvolvimento sustentável. O grande desafio desses empreendedores, nessa conceituação, é ampliar a sua escala de atuação.

Por sua vez, Choi e Gray (2008) e Abrahamsson (2007) descrevem o empreendedorismo sustentável como novos empreendimentos lucrativos que perseguem uma causa ambiental ou social. De forma análoga, Borges et al. (2011) desenvolvem uma tipologia de empreendedorismo sustentável em que este pode ser caracterizado pelo nicho de negócio (social ou ambiental), pelo papel da sustentabilidade no negócio (fim ou um meio) e pelo uso ou não da responsabilidade social empresarial por esses empreendimentos Ou seja, para esses autores, um negócio que atua no nicho ambiental, por exemplo, poderia ser classificado como sustentável se adotasse práticas de responsabilidade social para também contribuir com essa dimensão da sustentabilidade, podendo o lucro ter um papel primário ou secundário na organização.

Em outra linha de pensamento, autores como Cohen e Winn (2007) e Shepherd e Patzelt (2011) adaptam a definição genérica de empreendedorismo de Venkataraman (1997) para delimitar o campo de estudos sobre empreendedorismo sustentável como sendo aquele que analisa como as oportunidades no cenário da sustentabilidade são descobertas, criadas e exploradas, por quem e com quais consequências. De modo semelhante, Dean e McMullen (2007) definem o empreendedorismo sustentável como um processo de descoberta, avaliação e exploração de oportunidades econômicas apresentadas por falhas de mercado relacionadas ao desenvolvimento sustentável. Ainda há outros que se baseiam nas teorias de Schumpeter (1934) para conceituar o empreendedorismo sustentável como um processo inovador de criação de desequilíbrios de mercado.

De fato, muitas definições apresentadas na literatura relacionam o empreendedorismo sustentável com o processo de desenvolvimento de produtos, serviços e negócios inovadores. Como enfatiza Gerlach (2003), o empreendedorismo sustentável pode ser definido como o comportamento inovador de atores ou organizações no setor privado que têm as questões ambientais e sociais como objetivos principais e como vantagem competitiva. Alguns, contudo, consideram que para serem sustentáveis as empresas, pequenas ou grandes, precisam apresentar inovações disruptivas que transformem seus setores e mercados.

Noutra linha, há estudos que usam o termo empreendedorismo sustentável para tratar da adoção de indicadores de sustentabilidade por pequenas e médias empresas. Isso revela a atribuição de uma classificação de sustentável para empresas que não atuam com causas ambientais ou sociais, mas que adotam práticas de redução dos impactos socioambientais em suas rotinas corporativas. O conceito de empreendedorismo sustentável corporativo também é contemplado na literatura quando a ação empreendedora voltada à sustentabilidade dentro de grandes organizações é analisada.

Entretanto, conforme destacam Tilley e Young (2009), não é fácil produzir valor econômico, social e ambiental holisticamente dentro do sistema atual e, por isso, o empreendedorismo sustentável ainda precisa de subsídios e incentivos para existir e prosperar. Tanto que a maioria dos autores que articula o empreendedorismo sustentável como um conceito que integra concomitantemente os três pilares da sustentabilidade o fez por meio de estudos teóricos sem confirmação empírica. Por isso, Hall et al. (2010) afirmam que ainda é cedo para saber se os empreendedores ditos sustentáveis irão conseguir alcançar o desafio de integrar a sustentabilidade em seus negócios e operações de forma efetiva a ponto de causarem a transformação social que alguns autores proclamam que eles podem fazer. De fato, novas pesquisas precisam acompanhar o desenvolvimento desse campo para ser porssível, em algum momento, ter uma resposta mais precisa sobre o real potencial de mudança que os “empreendimentos sustentáveis” podem gerar.

 

Referências:

Abrahamsson, A. (2007). Sustainopreneurship – business with a cause: Conceptualizing entrepreneurship for sustainability. Master Thesis, Växjö University, Faculty of Humanities and Social Sciences, School of Management and Economics, Sweden.

Borges, C., Borges, M. M., Ferreira, R. S. F., Najberg, E., & Tete, M. F. (2011). Empreendedorismo Sustentável: Proposição de uma Tipologia e Sugestões de Pesquisa. Anais do Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, Rio de Janeiro, RJ, 35.

Boszczowski, A. K., & Teixeira, R. (2009). O Empreendedorismo Sustentável e o Processo Empreendedor: Em Busca de Oportunidades de Novos Negócios como Solução para Problemas Sociais e Ambientais. Anais do Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, São Paulo, SP, 33.

Choi, D. Y., & Gray, E. R. (2008). The venture development processes of ‘‘sustainable’’ entrepreneurs. Management Research News, 31(8), 558-569.

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Showing 2 comments
  • maria vitoria

    e muito legal este site acho bem interessante adorei

  • odiel

    Bom artigo! Analise orientadora do empreendedorismo sustentável são raros.

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